A mulher que queria um banheiro

Foto: Peter Caton/Tearfund
Foto: Peter Caton/Tearfund

Por Milind Ghatwai

Quando Anita Narre deixou a casa de seus sogros porque lá não havia banheiro, os habitantes do povoado de Zitudhana ficaram chocados. A defecação ao ar livre era comum, mesmo entre os poucos que tinham diploma universitário no povoado e os donos de casas grandes e tratores. Portanto, a decisão da recém-casada virou notícia na comunidade.

Porém, Anita recusou-se a mudar de ideia. Se o marido, Shivram, a quisesse de volta, ele teria de construir um banheiro para ela. “Não fiz isso para ficar famosa. Fiz o que realmente achava que era certo”, diz ela. Anita, de 24 anos, voltou oito dias mais tarde, depois que Shivram construiu um banheiro em casa com a ajuda do gram panchayat (o gram panchayat é um grupo de autogestão do povoado). 

A determinação incomum de Anita levou a uma grande mudança no saneamento na região, alcançando o que anos de campanhas governamentais não haviam conseguido, pois outras mulheres seguiram seu exemplo e exigiram banheiros em casa. Segundo as mulheres, se alguém não tivesse dado o exemplo, elas jamais poderiam ter feito exigências, apesar da inconveniência de não terem outra escolha senão defecar na penumbra, um pouco antes do amanhecer e no início da noite.

Os sinais de mudança são evidentes no povoado. A maioria das casas em Zitudhana tem ou está em vias de ter um banheiro. As pessoas aprenderam a fazer piada dos seus hábitos de uso do banheiro e de como os idosos sentem claustrofobia nos novos cubículos, por estarem acostumados com as latrinas ao ar livre. “Já tínhamos tentado convencer os habitantes do povoado antes, mas eles raramente mostravam interesse. Agora, todos querem um banheiro”, conta a sarpanch do povoado, Lalita Narre (como sarpanch, ela é a chefe eleita do gram panchayat do povoado).

Anita passou a maior parte da juventude numa cidade a 15 km do povoado de seu marido. As moradias não são muito diferentes umas das outras, mas a casa de seu pai tinha banheiro. O pai apoiou a filha quando ela voltou para casa dois dias depois do casamento. “Minha filha não fez nada de errado”, disse ele e acrescentou que não teve medo da reprovação das pessoas, porque sabia do projeto do governo de construir banheiros e tinha certeza de que o genro faria o que lhe havia sido pedido. “Sei que Shivram é honesto e trabalhador”, disse ele.

Shivram pediu auxílio financeiro ao gram panchayat. “Estávamos mais preocupados com a possibilidade de Shivram se sentir arrasado se as pessoas soubessem que a esposa o havia deixado, e que ele não tinha dinheiro para fazer o que ela lhe havia pedido”, disse o marido da sarpanch, Manohar.

O panchayat agiu porque entendeu a situação de Shivram, que havia sido criado pela mãe viúva, que ganhava por dia de trabalho. E, então, alguns meses mais tarde, todos os adultos que votam para o panchayat decidiram dar a Anita um pequeno prêmio em dinheiro por conscientizar as pessoas sobre uma questão importante. Ela chamou a atenção de todos de forma dramática e pela primeira vez para a questão do saneamento e, desde então, tornou-se promotora de campanhas de saneamento no distrito.

Artigo adaptado a partir de “Cleaning Agent” (Agente de Limpeza), de Milind Ghatwai, publicado em 26 de fevereiro de 2012, na revista Endeavour © The Indian Express Ltd. Todos os direitos reservados. Note-se que a fotografia acima não é de Anita Narre.


Perguntas para discussão

  • Não foi o desejo de melhorar a saúde que levou os habitantes de Zitudhana a mudar suas práticas sanitárias. O que foi? 
  • Por que o gram panchayat ajudou Shivram a construir um banheiro? 
  • Qual foi a importância do apoio do pai de Anita? 
  • As mulheres do povoado queriam um saneamento melhor. Como as mulheres podem adquirir confiança para agir da mesma forma que Anita? 

Ideias de como usar este artigo 

  • Leia-o com um grupo de pessoas interessadas em melhorar o saneamento e a higiene. Use as perguntas para discussão. 
  • Leia ou reconte a história com suas próprias palavras para mulheres que vivem sem um bom saneamento. O que elas acham do que Anita fez?
Milind Ghatwai