Doenças, insectos e o meio-ambiente

pelo Professor Malcolm Molyneu.

Pensando bem, um número surpreendente de diferentes doenças podem ser propagadas entre as pessoas através dos insectos. Apresentamos algumas delas nesta edição da Passo a Passo. Elas estão entre as doenças mais graves e importantes do mundo, especialmente nas áreas que ainda não são industrialmente desenvolvidas.

Os insectos fazem parte do nosso meioambiente, o mundo natural que nos rodeia, e por essa razão, eles são grandemente afectados pelas coisas que mudam o meioambiente. As mudanças ambientais podem influenciar as doenças porque elas afetam a maneira com que os insectos se comportam ou sobrevivem. Isto também significa que podemos combater as doenças transmitidas por insectos controlando o meio-ambiente em que vivemos.

As mudanças no meio-ambiente natural e a habilidade dos insectos vectores (insectos que transmitem doenças) para reagirem a estas mudanças podem ter um efeito importante na propagação das doenças.

Desenvolvimentos agrícolas Os programas de irrigação criam novos lugares de reprodução para alguns insectos, especialmente os mosquitos anófeles, que transmitem a malária. Quando os agricultores vão para dentro da floresta para caçar ou limpar e cultivar novas áreas, eles podem encontrar moscas africanas (tsé-tsé) que levam consigo os parasitas da doença do sono, provenientes de animais caçados, ou mosquitos que transmitem o vírus da febre amarela, proveniente de macacos. Na Tailândia, são os mineiros de pedras preciosas, que trabalham nas florestas, que correm um grande risco de contrair malária porque os mosquitos vivem nas áreas arborizadas das minas.

Guerras e mudanças sociais O Uganda e a nova República Democrática do Congo são exemplos de países onde a guerra, ao mudar o meio-ambiente, causou epidemias de doenças transmitidas por insectos. Como resultado directo da guerra, eles deixaram o mato e os arbustos crescerem de maneira selvagem, criando ambientes ideais para a reprodução das moscas africanas (tsé-tsé). Os casos de doença do sono aumentaram e centenas de pessoas morreram. A eliminação da vegetação excessiva reduziu muito o problema.

Movimentos da população Em áreas montanhosas, é demasiado frio para que os parasitas da malária cresçam dentro dos mosquitos e assim, a doença não é propagada (mesmo que haja muitos mosquitos por perto). As pessoas que moram na região não contraem a malária e por essa razão, elas não desenvolvem resistência ou imunidade contra a doença. Quando as pessoas ou comunidades inteiras se mudam das montanhas para as regiões mais baixas, a malária é propagada no novo meioambiente aquecido e ocorrem epidemias da doença, que podem ser severas ou fatais. Ao reconhecermos os perigos em circunstâncias como estas, é possível tomar precauções contra epidemias da doença.

Dificuldades econômicas Quando as pessoas não têm recursos básicos, pode ser difícil manter o combate contra as doenças transmitidas pelos insectos. Na América do Sul, por exemplo, os besouros que transmitem a doença de Chagas podem ser mantidos afastados se cimentarmos as fendas encontradas nas paredes dos barracos ou se substituirmos os telhados de colmo por telhados de metal. No entanto, estas mudanças custam dinheiro e sem elas, as condições continuariam favoráveis para que os insectos se desenvolvam. Do mesmo modo, os mosquiteiros tratados que podem ser colocados sobre a cama podem proteger contra muitas doenças que são transmitidas pelos insectos. A falta de recursos para comprá-los ou tratá-los novamente pode limitar a eficiência deste método.

Comece onde você está

Ao compreendermos como o meio-ambiente influencia os insectos e as doenças que eles transmitem, todos nós podemos ter um papel na redução da propagação destas doenças. Um exercício comunitário útil é organizar uma reunião em grupo para discutir as seguintes perguntas…

  • Que doenças transmitidas por insectos estão causando problemas na nossa comunidade?
  • Há alguma coisa que podemos fazer localmente para reduzir a propagação destas doenças entre nós?
  • Quais são os obstáculos ou dificuldades que nos impedem de dar estes passos?
  • Onde podemos receber orientações ou ajuda para melhorar a situação?

As páginas seguintes poderão dar-lhe algumas idéias úteis sobre o que se pode fazer para reduzir os efeitos das doenças transmitidas por insectos na sua própria comunidade. Muitas medidas como estas podem ser tomadas facilmente e até mesmo com recursos muito limitados. O povo Achewa, do Malawi, tem um provérbio que diz: ‘Konza kapansi kuti kamwamba katsike,’ que significa ‘Cuide do problema que está à porta e os seus objectivos mais distantes serão alcançados mais facilmente.’ Esta é uma boa mensagem para o controle ambiental – nós não precisamos esperar o governo e os programas nacionais agirem. Há muitas coisas que nós mesmos podemos fazer, ‘à nossa porta’.

O Professor Molyneux é o Director Adjunto do Centro de Pesquisas Clínicas da Fundação Wellcome e do Projeto de Pesquisas sobre a Malária na Faculdade de Medicina, PO Box 30096, Chichiri, Blantyre 3, Malawi. Ele é Professor honorário na Universidade do Malawi e na Universidade de Liverpool, Grã-Bretanha.