Práticas de desmama no Nepal

Sanjay Kumar Nidhi.

No Nepal, a desmama tradicionalmente começa com a Cerimônia de Alimentação com Arroz (Pasne), em que a criança recebe sua primeira refeição. A cerimônia é realizada aos cinco meses de idade para a menina e aos seis meses para o menino.

Entre as desmamas tradicionais comuns estão:

  • o mingau (lito), feito com farinha de arroz torrado (às vezes, milho ou painço), ghee (manteiga clarificada) e açúcar
  • jaulo, feito com arroz e açafrão-da-terra ou arroz e sal
  • dhiro, feito com farinha de milho (ou painço, ou trigo)
  • maar, feito em regiões de planícies, cozinhando-se o arroz, milho partido e feijão-soja juntos
  • khichari, uma mistura de arroz, grãos de leguminosas e verduras.

Alguns destes alimentos tradicionais têm alto teor de calorias e nutrientes e devem ser incentivados. Entre eles estão o maar e o khichari. Outros são alimentos de desmama pobres, com poucas proteínas ou poucos nutrientes, tais como o jaulo. Assim, incentiva-se que sejam acrescenta-dos a eles grãos de leguminosas, verduras de folhas verdes ou frutas.

Um outro alimento tradicional que, como mostrado pelos cientistas, é muito nutritivo, é o mingau feito com uma farinha moída bem fina de grãos de cereais e leguminosas torrados. No Nepal, ele é conhecido como mingau de super-farinha, ou sarbottam pitho ko lito.

Mingau de super-farinha

Esta receita foi criada com base na experiência e na pesquisa feita por Miriam Krantz, que trabalha com mães nepalesas e os alimentos que plantam. O Programa de Nutrição da United Mission to Nepal está totalmente a favor do uso do mingau de super-farinha, o qual agora é promovido pelo governo como o alimento para desmama ideal por todo o país.

A farinha faz uso completo de qualquer alimento local facilmente disponível. Qualquer grão de leguminosa pode ser usado no lugar do feijão-soja, e podem-se substituir o trigo e o milho por uma combinação de dois grãos de cereais quaisquer.

Para os bebês de seis meses de idade ou mais, é suficiente dar o mingau feito com uma ou duas colheres de chá de super-farinha, duas ou três vezes ao dia, juntamente com a amamentação. À medida que a criança cresce, a quantidade de mingau usada gradualmente aumenta, até chegar a aproximadamente 100g (quatro colheres de sopa) de farinha por dia – o suficiente para preparar três refeições de mingau. Esta quantidade oferece a maior parte do que uma criança de três anos de idade necessita em termos de proteínas, cálcio, ferro e várias vitaminas. Se a criança pequena também for amamentada e comer duas porções pequenas da refeição familiar de dhal-bhat (grãos de legumino-sas e arroz), todas as suas necessidades de calorias e proteínas serão satisfeitas.

O teor nutricional da super-farinha varia de acordo com os ingredientes usados. Porém a análise mostra que 100g de farinha contém 13,5–25g de proteínas e 345–370 calorias. O mingau de super-farinha não oferece vitamina A suficiente para as necessidades diárias de uma criança. Os sanitaristas, portanto, ensinam as mães a adicionar verduras de folhas verdes moídas ou outras verduras familiares ao mingau.

O valor nutritivo do mingau também pode ser aumentado adicionando-se ghee (manteiga clarificada) ou outra gordura ou óleo vegetal. Uma receita, que atende as recomendações da OMS para crianças gravemente malnutridas, é feita com 30g (uma colher de sopa cheia) de super-farinha cozida com 15ml (três colheres de chá) de óleo e água suficiente para que a mistura chegue a 150ml. Esta receita está sendo usada para crianças malnutridas em hospitais da UMN.

Vantagens da super-farinha

  • A super-farinha é um alimento conveniente e adaptável, que pode ser armazenado por bastante tempo. Para as crianças mais velhas, a farinha pode ser comida seca (como sattu), misturada com leite fervido fresco ou qualquer outro líquido, sem ter de ser cozida novamente, desde que os ingredientes tenham sido torrados previamente. A farinha também pode ser usada para fazer pães e biscoitos.
  • As crianças gostam da farinha torrada.
  • Pode-se misturar purê de verduras e frutas com o mingau, para aumentar o valor nutritivo e variar o sabor.
  • O mingau de super-farinha é altamente recomendado para uso com crianças gravemente malnutridas.

Sanjay Kumar Nidhi trabalhou como oficial de avaliação e apoio do Programa de Nutrição da United Mission to Nepal. Seu endereço é Nutrition Programme, UMN, PO Box 126, Kathmandu, Nepal. E-mail: sanjay.nidhi@umn.org.np

Ingredientes do mingau de super-farinha

A farinha é feita com:

  • Duas partes de grãos de leguminosas – feijão-soja é o melhor, mas podem-se usar outros grãos pequenos, grão-de-bico e ervilha
  • Uma parte de cereais integrais, tais como milho ou arroz
  • Uma parte de um outro cereal integral, como trigo, painço ou trigo-mouro.

Todos os grãos precisam ser limpos, bem torrados (separadamente) e moídos até formarem uma farinha fina (separadamente ou juntos). A farinha, então, pode ser guardada num recipiente hermeticamente fechado por um período de um a três meses. A farinha é colocada em água fervendo, mexendo-se sempre, e é cozida por pouco tempo. A quantidade e a consistência adequadas do mingau dependem da idade e da condição da criança. Não se deve colocar sal, principalmente se a criança estiver mal-nutrida.

Estudo de caso: A caminho da recuperação

Kamali trouxe seu filho de dois anos de idade, Arjun, para o Departamento de Saúde do Distrito, com lágrimas nos olhos. Trouxe-o como último recurso após ter recebido tratamento dos curandeiros tradicionais locais. Arjun tinha diarréia o tempo todo, tinha perdido o apetite e estava emagrecendo constantemente.

Arjun foi imediatamente encaminhado para o Programa de Nutrição da UMN. Ele tinha emagrecido gravemente e era “pele e osso”. Ele estava irritadiço, letárgico, desidratado e chorava o tempo todo. Era um caso óbvio de má-nutrição de proteínas e calorias. A mãe de Arjun, Kamali, recebeu aconselhamento sobre a situação e sugestões de como alimentá-lo.

Três dias mais tarde, os funcionários da UMN visitaram o lar de Arjun e conversaram com sua mãe sobre a situação da família. Eles descobriram que ela não estava ciente da importância da boa alimentação infantil e dos hábitos de higiene.

Os funcionários do programa de nutrição ensinaram a mãe como preparar o mingau de super-farinha. Ela foi incentivada a dá-lo a Arjun de quatro a cinco vezes por dia (fortificado com ghee ou óleo), juntamente com outros alimentos, frutas e verduras. Em visitas posteriores ao lar, Kamali recebeu sugestões práticas quanto a alimentos para a desmama, alimentação para crianças doentes, higiene pessoal, dieta equilibrada e alimentos locais nutritivos. Os funcionários da área de nutrição também monitoraram o peso de Arjun em visitas periódicas ao lar.

Arjun engordou lenta, mas constantemente. Quando voltou ao departamento de nutrição para um exame, era uma criança diferente – feliz e cheio de energia. Ele havia engordado, caminhava com facilidade, sua aparência havia melhorado e ele queria alimentar-se a si próprio. A alegria óbvia nos olhos da mãe dizia tudo.

Esperamos que nossa experiência no Nepal com os alimentos de desmama processados em casa possam ser repetidos em outros países. As abordagens seguras, da alimentação infantil com base no lar devem ser reconhecidas e incentivadas pelas pessoas responsáveis pelas políticas, pelos líderes comunitários e pelos sanitaristas públicos.