Passando para a realidade

Alex Mavrocordatos.

O povoado de Kolo precisava de um novo poço. Os poços antigos estavam secando e as paredes, desmoronando-se, pois, à medida que o Saara avança lentamente a cada ano, o solo deteriora-se, transformando-se em areia. O chefe do povoado e seus conselheiros pareciam não se importar; talvez porque o chefe, pelo menos, possuía um poço perfeito no seu próprio quintal, ao contrário dos outros habitantes do povoado, cujas mulheres se levantavam às quatro ou cinco horas da manhã para fazerem fila e obterem o seu balde de água escassa.

Assim, os actores do povoado apresentaram uma peça. Ela mostrava uma família pobre conversando com o seu chefe, contando sobre a necessidade desesperada de uma nova fonte de abastecimento de água, o que fez com que ele pedisse um novo poço à ONG que estava trabalhando com o povoado.

A maior parte da comunidade do povoado aparecia para assistir a estas peças semanais, inclusive o chefe e as pessoas mais idosas, as mulheres que tinham tanta dificuldade com a água diariamente e as crianças, que transmitiam tudo às pessoas que não haviam podido comparecer. Estariam presentes também funcionários da ONG.

Quando o chefe (da peça) concordou em se encontrar com os parceiros da ONG e pedir seu auxílio com este problema, todos os espectadores viram a ironia da situação. E, quanto o actor que fazia o papel do chefe cruzou a praça onde a apresentação estava sendo realizada e dirigiu-se ao funcionário da ONG que estava assistindo, todos viram que o jovem estava, na verdade, realizando o encontro com a ONG que, o tempo todo, ele e os outros jovens queriam que os mais idosos realizassem. E não havia como voltar atrás.

Alex diz: “A cultura bambara, em Mali, não permite que os rapazes jovens expressem suas opiniões em encontros públicos. Entretanto, o teatro proporcionou-lhes uma voz. A apresentação teve um momento muito significativo, quando os actores ultra-passaram os limites do teatro, passando para a realidade dos espectadores, dirigindo-se diretamente aos funcionários da ONG que estavam assistindo à ‘peça’. Os funcionários responderam a este encontro público exatamente da mesma maneira que teriam feito com o ‘verdadeiro’ chefe. Assim, o encontro foi realizado, e a ONG concordou em participar, mas também explicando as condições da auto-ajuda em que a parceria poderia estar baseada.”

Alex Mavrocordatos, do Centro para as Artes em Comunicações para o Desenvolvimento, possui experiência considerável no uso do teatro no desenvolvimento em muitos países e trabalha como professor de Mestrado em Teatro e Mídia para o Desenvolvimento em King Alfred’s College, Winchester, Reino Unido.

Mais informações sobre a Prática de Teatro Participativo podem ser obtidas no website: www.cdcarts.org/ppp