Promovendo os mercados eficientes

Nigel Poole

Foto: Richard Hanson/Tearfund
Foto: Richard Hanson/Tearfund

A agricultura tem sido negligenciada por muitos governos e organizações nas últimas duas décadas. A maioria das políticas de desenvolvimento promoveu o amplo crescimento econômico na esperança de que isso trouxesse benefícios gerais. Entretanto, de acordo com o Relatório de Desenvolvimento Mundial de 2008, esta abordagem fracassou em muitos países – as desigualdades aumentaram, e muitas das pessoas mais pobres, que, na maioria, moram nas regiões rurais, não se encontram numa situação melhor do que há 20 anos.

As organizações agora estão voltando a se interessar pelo desenvolvimento e pela economia rural. Estes esforços foram estimula dos pela preocupação com o aumento dramático nos preços dos alimentos, os quais causaram tumultos em muitos países em 2008, e pela ameaça da mudança climática para a segurança alimentar.

O marketing agrícola é uma questão fundamental, que precisa de atenção para que as economias rurais sejam restabelecidas.

Mudando as atitudes para com os comerciantes

Quando os problemas de suprimentos de alimentos surgem, as pessoas geralmente reclamam dos intermediários, acusando-os de ganhar dinheiro à custa das pessoas famintas.

Embora haja exploração e trapaça, nem todos os comerciantes são desonestos. Ao fazerem um julgamento apressado, as pessoas, muitas vezes, não entendem a situação dos comerciantes:

  • Muitos comerciantes de pequena escala também são pobres.
  • Os comerciantes são responsáveis por transportar os alimentos para o mercado, o que pode ser arriscado. Os preços podem cair depois que o comerciante comprou os produtos do agricultor, e as estradas de má qualidade podem danificar os alimentos durante o transporte. É necessário tempo e esforço para transportar produtos, e as mulheres comerciantes enfrentam o problema adicional do assédio.
  • Deve-se admitir, porém, que, às vezes, os agricultores também trapaceiam!

Os comerciantes são vitais para a cadeia que liga os agricultores aos consumidores, e sua importância precisa ser mais bem compreendida pelos agricultores, consumidores e formuladores de políticas. Por exemplo, eles podem fornecer informações, crédito, e contribuições em lugares não alcançados pelos agentes de extensão governamentais. Além disso, sem os comerciantes, os mercados funcionam com menos eficácia, e todos sofrem: os agricultores obtêm preços mais baixos, os consumidores pagam preços mais altos, há menos alimento disponível, e a qualidade do alimento pode ser má. A falta de confiança entre os compradores e os vendedores pode ameaçar a segurança alimentar.

Desenvolvendo a cooperação entre os agricultores e os comerciantes

Quando as políticas de desenvolvimento governamentais não conseguem alcançar as regiões rurais, os comerciantes têm o potencial para ajudar o desenvolvimento local usando o sistema mercantil. A expansão dos mercados agrícolas pode ajudar a oferecer financiamento local, processamento de alimentos e empregos. À medida que os mercados agrícolas se expandem, as associações comerciais que começaram a se desenvolver podem assumir a responsabilidade pela regulamentação dos mercados e pelo controle das práticas exploratórias.

O Royal Tropical Institute e o International Institute of Rural Reconstruction recentemente publicaram um livro intitulado Trading Up, que conta a história de agricultores africanos e como a cooperação ajudou a beneficiar a todos. Ele mostra como criar uma compreensão mútua entre os agricultores e os comerciantes através da busca de soluções conjuntas para os problemas comerciais de ambos os grupos.

Princípios fundamentais

Alguns princípios emergiram dos estudos de caso do livro:

  • ORGANIZAÇÃO Os agricultores e comerciantes precisam se organizar para melhorar seus negócios. As decisões da maioria dos agricultores e comerciantes individuais são muito pequenas para fazer diferença. Porém, juntando-se a amigos e vizinhos, eles poderão se apoiar mutuamente para fortalecer habilidades, compartilhar tecnologias, combinar produtos e serviços, aprender sobre as demandas do mercado, obter acesso a financiamento e negociar com os clientes. 
  • COMPREENSÃO Os mercados só funcionam bem se todas as pessoas envolvidas na cadeia respeitarem os papéis e as necessidades dos outros. Os agricultores devem compreender que os comerciantes são vitais para que os produtos cheguem até os consumidores e para fornecer insumos como sementes, fertilizantes e medicamentos veterinários. Os comerciantes devem compreender que os agricultores precisam de boas condições mercantis para fornecer os alimentos necessários e que a eles também devem ser pagos preços justos.
  • ESPECIALIZAÇÃO Os agricultores nem sempre são bons comerciantes; os comerciantes geralmente não são agricultores bem-sucedidos. Uma vez que os comerciantes e agricultores reconhecerem a importância dos papéis uns dos outros, eles poderão economizar tempo concentrando-se no que realmente fazem bem e melhorando a qualidade dos seus produtos e serviços.
  • COORDENAÇÃO À medida que os agricultores e comerciantes se especializam, suas atividades precisam estar ligadas. As informações são importantes para que os agricultores produzam o que os consumidores querem e os comerciantes forneçam os insumos e o crédito de que os agricultores precisam. É muito importante que estas atividades ocorram no momento certo. Por exemplo, se o fertilizante chegar tarde demais, isso afetará a colheita. Para ligar estas atividades, é essencial que haja comunicação e boas relações de trabalho. 
  • PARCERIA A etapa final do trabalho em conjunto é criar uma visão compartilhada e um plano de ação conjunto para identificar novas oportunidades de mercado e superar os problemas juntos. Os agricultores e comerciantes poderiam fazer lobby junto ao governo local para obter estradas melhores e bancas de mercado e para o fornecimento de eletricidade para desenvolver empresas de processamento. Pode ser possível introduzir ou mudar as leis locais sobre como os mercados devem operar e como os contratos são feitos entre os compradores e os vendedores.

O Dr. Nigel Poole é o Diretor de Programas Acadêmicos de Agronegócio para o Desenvolvimento em: SOAS Centre for Development, Environment and Policy and London International Development Centre, University of London, High Street, Wye, Ashford, Kent, TN25 5AH, Reino Unido.

E-mail: n.poole@soas.ac.uk

Este artigo está baseado no livro Trading Up: Building cooperation between farmers and traders in Africa, publicado pelo Royal Tropical Institute (KIT), Amsterdã, e pelo International Institute of Rural Reconstruction (IIRR), Nairóbi. Veja os Recursos, na página 15, para obter mais informações.

Estudo de caso de Gana

Há muitos anos, os comerciantes ganenses compravam tomates de Burquina Faso e entregavam-nos na capital, Accra. Ao contrário dos agricultores ganenses, os agricultores de Burquina Faso permitiam que os comerciantes classificassem e selecionassem os tomates que queriam comprar. Isto permitia que os comerciantes escolhessem os tomates que conseguiriam sobreviver à viagem para a capital.

Tinha sido prometido aos agricultores ganenses que uma fábrica de processamento local compraria os seus tomates. Infelizmente, a fábrica de processamento ainda não estava funcionando. Como os comerciantes preferiam comprar seus tomates de Burquina Faso, os agricultores não conseguiram vender seus tomates e eles começaram a apodrecer nos campos. Os agricultores começaram a protestar violentamente contra os comerciantes.

Para resolver a disputa, o Conselho de Segurança local, a Associação Nacional de Comerciantes de Tomates de Gana e o vencedor do prêmio de Melhor Agricultor Nacional de 2006 organizaram um encontro entre os comerciantes e agricultores. Os agricultores desculparam-se pelo seu comportamento, e foi feito um acordo entre os dois lados. Os comerciantes concordaram em comprar uma grande quantidade de tomates do norte de Gana se os agricultores permitissem que eles os classificassem e comprassem apenas os tomates de melhor qualidade. Foi formado um comitê de comerciantes e agricultores para negociar os preços a cada semana. Foi formado também outro comitê para resolver quaisquer discórdias que houvesse entre os agricultores e os comerciantes.

Desde o encontro, as atividades do comércio de tomates estão mais bem organizadas, os comerciantes não têm de viajar longas distâncias, e as relações entre os agricultores e comerciantes melhoraram.

O papel da igreja local

A igreja local pode trazer uma contribuição enorme para a superação da pobreza. Um dos seus pontos fortes é o compromisso com a melhoria dos relacionamentos. Pense sobre o que a igreja local pode fazer na sua comunidade:

  • reunir agricultores e comerciantes para conversarem e discutirem sobre como podem cooperar melhor
  • trabalhar com agricultores e comerciantes fazendo lobby junto às autoridades locais para apoiar os mercados locais
  • compartilhar o que aprenderam com outras comunidades usando suas redes de trabalho.