Aconselhamento com misericórdia

Um amigo pode ajudar escutando e se interessando sem recriminar. Peter Caton/Tearfund
Um amigo pode ajudar escutando e se interessando sem recriminar. Peter Caton/Tearfund

Gladys K Mwiti e Al Dueck

A doença mental é um problema que deve ser enfrentado diretamente, ao invés de negado, respondendo-se a ele com misericórdia, ao invés de punição. As pessoas com doenças mentais freqüentemente são desprezadas e tratadas como “loucas”. A recriminação vê as pessoas com doenças mentais como sem esperança. A misericórdia é o oposto da recriminação. Uma pessoa misericordiosa transmite simpatia, empatia, preocupação, bondade, consideração e interesse.

Este artigo é apresentado em duas partes. Na primeira parte, damos um exemplo de como cuidar de alguém que acredita estar sendo molestado por maus espíritos. Na segunda parte, examinamos como aconselhar pessoas que estão deprimidas. Assim como a doença física, a doença mental pode durar pouco tempo ou uma vida inteira. Os exemplos aqui mostram a possibilidade de recuperação. (O livro Where There Is No Psychiatrist dá orientação sobre problemas de saúde mental de longo prazo – veja a Recursos) Embora a experiência da Oasis Africa seja principalmente em trabalho nas culturas e sociedades africanas, muitas das orientações deste artigo são relevantes para todas as culturas.

PRIMEIRA PARTE - A história de Jamba

Jamba teve contato com o ocultismo e ficou traumatizado com a experiência. Ele, então, foi encaminhado pelo seu médico à Oasis Africa para fazer aconselhamento.

Jamba sofria de ataques de ansiedade e pesadelos há quase um mês. Embora tivesse apenas 25 anos, Jamba parecia mais velho. Os pais dele haviam morrido quando ele tinha 15 anos, e, nos últimos 10 anos, ele tinha atuado como o chefe da família, cuidando dos sete irmãos e irmãs. Jamba freqüentava uma igreja local de vez em quando.

Jamba era casado, e o stress de cuidar da nova família aumentou sua exaustão. Em seguida, Jamba começou a ter insônia e dores de cabeça que não passavam com remédios.

Finalmente, alguém o aconselhou a procurar ajuda com um curandeiro tradicional. Jamba contou sobre a visita à moradia deste homem, uma experiência que mudou completamente sua vida. A sala da frente do “curandeiro” servia de área de recepção, onde pediram a Jamba que esvaziasse os bolsos e deixasse todos os seus pertences e a maior parte das suas roupas. Depois, ele foi levado para ver o “médico”. Ele se viu numa sala escura, onde tinha de franzir os olhos para ver alguma coisa. Quando seus olhos se acostumaram com a escuridão, ele viu um homem enrugado, de barba feita, sem camisa, sentado no chão.

O “curandeiro” fez um gesto para que Jamba se sentasse de frente para ele. Jamba lembrou-se das feitiçarias que o homem disse em cima dele, enquanto dançava ao seu redor e cantava numa língua estranha. Num certo momento, o ritmo colocou Jamba num estado hipnótico. Foi quebrado um ovo cru na cabeça dele, e a dança terminou. O homem agora olhava para Jamba na escuridão, com olhos que brilhavam através da luz turva, e disse-lhe, “Eu o enfeiticei. Eu sei que você tem um negócio com uma renda regular. No final de toda semana, eu quero que você me traga uma quantia de dinheiro. Se não me trouxer o dinheiro, você morrerá.” Jamba correu a toda velocidade até a delegacia de polícia para dar parte desta experiência assustadora. Ele até se esqueceu da carteira e das roupas.

Este incidente foi o início de pesadelos horríveis e ataques de pânico para Jamba. Ele tinha medo de dormir, porque o curandeiro sempre aparecia nos seus sonhos. Ele tinha dores de cabeça, não sentia vontade de comer ou dormir e temia que, em seu estado, acabasse deixando a família e os irmãos mais novos indefesos. Ele também tinha medo de que, no final, alguém o procurasse por parte do “curandeiro” exigindo dinheiro. Seus amigos e colegas disseram-lhe que ele devia ter sido enfeitiçado pelo curandeiro, e Jamba acreditou neles. Sua mente estava sempre cheia de pensamentos de morte. Ele achava que isto era porque ele tinha desobedecido o curandeiro. Porém, Jamba estava determinado a não ceder ao medo ou às ameaças recebidas, embora agüentar este stress estivesse sendo muito difícil.

Como responder

Será que Jamba estava sendo oprimido por um mau espírito? Na situação de pessoas como Jamba, há muita diferença de opinião quanto à causa do seu sofrimento assim como sobre o tratamento adequado. Os conselheiros cristãos não podem evitar este debate. Nossa abordagem na Oasis Africa leva em consideração quatro aspectos: psicológicos, físicos, teológicos e demoníacos.

Psicológicos - No caso de Jamba, o conselheiro examinou o impacto de perder os pais quando era tão jovem e o fardo de cuidar de uma família inteira de irmãos mais novos, ao invés de aproveitar a adolescência. Nas sessões seguintes, Jamba pôde chorar a morte dos pais bem como a perda da sua juventude. Ele e o conselheiro também trabalharam juntos na sua ansiedade e nos ataques de pânico com exercícios de relaxamento e mudando os seus horários de trabalho, para que ele tivesse períodos de descanso e lazer. Ele melhorou no que diz respeito a cuidar de si mesmo e aprendeu como dar mais responsabilidade aos seus irmãos mais novos, ao invés de continuar agindo indefinidamente como “pai” deles.

Físicos - A doença física e o bem-estar emocional não podem ser separados, pois um causa impacto no outro. Devemos sempre fazer a pergunta: A causa deste problema é a falta de bem-estar físico? O conselheiro começou perguntando a Jamba não apenas sobre sua história, mas também sobre seu estado físico. Aos poucos, o conselheiro ficou sabendo sobre o que estava perturbando Jamba. Ele estava exausto, com medo de adoecer e não poder sustentar sua família.

Teológicos - Algumas pessoas acham que todos os problemas emocionais resultam de um único comportamento pecaminoso específico. Embora seja verdade que a culpa possa causar problemas emocionais, ela não é sempre a única causa. Num momento adequado, o conselheiro explorou a fé de Jamba e incentivou-o a imaginar Jesus como vitorioso em relação ao(s) mau(s) espírito(s) que ele temia que o estivessem oprimindo. O conselheiro disse a Jamba que, seguindo Jesus, este mal seria superado, que Jesus compreendia o sofrimento e podia curar os doentes. No final, Jamba entrou para um grupo de estudo e comunhão de jovens na sua igreja, e o apoio deste grupo aumentou sua coragem para enfrentar seus medos. Com o tempo, os pesadelos e os ataques de pânico terminaram.

Demoníacos - Alguns cristãos acreditam que todos os problemas emocionais resultam da influência demoníaca e que o tratamento deve ser limitado ao exorcismo e à guerra espiritual. Porém, nem todas as instabilidades mentais e emocionais têm natureza demoníaca, e deve-se tomar muito cuidado com o diagnóstico bem como com o tratamento. Portanto, embora a oração fosse adequada e importante – porque o medo que Jamba tinha dos maus espíritos o estava afetando, e porque havia uma possibilidade de que estes realmente o estivessem molestando como resultado das palavras do curandeiro – Jamba também precisava fortalecer-se emocional, espiritual, física e psicologicamente. Se Jamba não tivesse feito este trabalho importante de crescimento pessoal e espiritual, seus medos poderiam tê-lo deixado por algum tempo e retornado mais tarde. Uma oração pedindo libertação ou exorcismo, sem alguém que escute com misericórdia ou sem discernimento pode deixar uma pessoa com medos de demônios ainda maiores e sem confiança para se recuperar e permanecer livre de pensamentos perturbadores.

 

SEGUNDA PARTE Depressão

Uma conselheira ajuda uma criança traumatizada após um desastre natural. Marcus Perkins/Tearfund
Uma conselheira ajuda uma criança traumatizada após um desastre natural. Marcus Perkins/Tearfund

Às vezes, os cristãos dizem que as pessoas deprimidas não têm fé. Muitos cristãos vêem a depressão como sinal de derrota espiritual. Eles freqüentemente ignoram o fato de que os altos e baixos da vida emocional são parte da vida normal.

As causas da depressão variam. Qualquer tentativa de explicar as causas ou declarar que se encontrou uma cura para todos os tipos de depressão é simplificar uma situação muito complexa.

Há uma distinção entre períodos ocasionais de tristeza e depressão clínica, a qual precisa de tratamento. Um conselheiro ajuda as pessoas em ambas as situações, mas as pessoas com depressão clínica precisam de tratamento mais intensivo e por mais tempo.

COMO SE RECONHECE A DEPRESSÃO CLÍNICA?

Quando a depressão começa a afetar o sono, o apetite, nossa capacidade de trabalhar e nossas relações sociais e quando começa a controlar nossas respostas à vida.

O QUE É NECESSÁRIO PARA ACONSELHAR PESSOAS DEPRIMIDAS?

Primeiro, se a depressão for um sintoma de doença física, transmitir a idéia de que esta fase vai passar pode dar esperança. O cliente precisa de ajuda, incentivo e apoio para se recuperar da doença.

Se a depressão for uma reação a um evento da vida, como, por exemplo, luto, uma perda ou uma doença terminal, o conselheiro percebe que o aconselhamento pode ser longo e difícil. A tristeza é normal, exceto quando se estende por um período além do normal.

O que fazer:

  • dar-lhe a oportunidade de recontar a história da perda
  • explorar o papel que a pessoa falecida desempenhou na sua vida
  • preparar a pessoa para a dor dos aniversários, momentos familiares significativos e festividades que serão difíceis sem a pessoa falecida
  • lidar com as tarefas imediatas próximas.

O que não fazer:

  • dar soluções rápidas
  • sugerir alguma técnica espiritual milagrosa para acabar com a dor
  • dar falsas esperanças dizendo “Tudo logo vai ficar bem”
  • espiritualizar em excesso a dor dizendo coisas como “Deus certamente lhe está ensinando algo”.

Para ajudar pessoas deprimidas, você precisa:

  • de compaixão e ternura
  • de uma atitude não-recriminadora
  • da habilidade de escutar com atenção.

O papel do conselheiro é fortalecer a esperança da pessoa escutando-a. O conselheiro deve ficar atento a sinais de que ela queira se matar e a quaisquer pensamentos que ela tenha de machucar alguém. O conselheiro deve procurar proteger a pessoa a quem está aconselhando e a outros que possam correr perigo.

Os conselheiros precisam de uma lista de encaminhamento. Assim que uma situação se tornar difícil para nós, se possível, devemos encaminhar a pessoa a alguém com mais experiência. Isto deve ser feito de maneira positiva, de forma que continuemos a transmitir esperança e interesse.

Este artigo foi baseado em extratos de Christian Counselling: An African Indigenous Perspective, escrito por Gladys K Mwiti e Al Dueck, com o nosso agradecimento aos autores por sua autorização.


www.oasisafrica.info



Discussão 

  • Pensem sobre uma pessoa conhecida que vocês achem que esteja sofrendo de doença mental. 

    • Como ele ou ela é tratada pelos outros? 
    • Vocês conseguem pensar em alguma forma de apoiar esta pessoa?

  • Como as crenças espirituais influenciam a nossa compreensão da doença mental? 

    • Quando as crenças são prejudiciais? 
    • Quando as crenças são úteis? 
    • Pensem em exemplos.