Primeiro a família: A melhor forma de abordar o desafio dos órfãos

Passo a Passo 101 - Assistência aos órfãos

Inclui estudos de casos, atividades infantis e uma entrevista comovente sobre como é crescer em um centro de acolhimento infantil.

Primeiro a família: A melhor forma de abordar o desafio dos órfãos

Markus Köker

A Bíblia frequentemente fala da compaixão de Deus pelos “órfãos” e seu desejo de colocar os solitários em famílias (Salmo 68:6). Uma boa família é um lugar onde a criança é protegida, nutrida e sustentada. Em uma família amorosa, a criança aprende habilidades importantes para a vida e desenvolve um senso de pertencimento. Crescer e viver sem uma família aumenta muito nossa vulnerabilidade.

Uma família amorosa e estável é o lugar ideal para criar as crianças. Foto: Marcus Perkins/Tearfund
Uma família amorosa e estável é o lugar ideal para criar as crianças. Foto: Marcus Perkins/Tearfund

A Convenção das Nações Unidas sobre os Direitos da Criança diz:

“A criança, para o pleno e harmonioso desenvolvimento de sua personalidade, deve crescer no seio da família, em um ambiente de felicidade, amor e compreensão.”

Quem é o órfão?

A Unicef define o órfão como uma criança que perdeu um ou ambos os pais. Conforme a Unicef, calcula-se que haja 140 milhões desses órfãos no mundo. Porém, essas estatísticas subestimam o problema e não incluem os “órfãos sociais”. Estes são crianças e jovens que perderam qualquer conexão significativa com sua família. Os órfãos sociais incluem crianças vulneráveis, que podem viver nas ruas, crescer em orfanatos ou ser separadas de sua família devido ao tráfico, conflito ou outras questões.

Na verdade, milhões de crianças chamadas órfãs ainda têm um dos pais, um dos avós ou outro parente vivo. De acordo com a Save the Children, pelo menos 80 por cento das crianças que vivem em orfanatos ainda têm pelo menos um dos pais vivo. 

Acolhimento residencial e a pobreza

As instituições de acolhimento residencial (entre elas, os orfanatos e os centros de acolhimento infantil) frequentemente são vistas como a resposta para o desafio dos órfãos, e muitas foram abertas com as melhores intenções. Entretanto, alguns orfanatos são administrados como negócios, onde as crianças são vistas como uma forma de ganhar dinheiro. Isso, às vezes, resulta no tráfico de crianças para instituições.  

Nos países em desenvolvimento, com demasiada frequência, a pobreza é o motivo pelo qual as crianças acabam em orfanatos. Os pais ou familiares podem acreditar que o orfanato dará alimento, abrigo e educação aos seus filhos, o que eles próprios não têm condições de oferecer. Esses chamados “fatores impulsionadores” aumentam o número de crianças colocadas em instituições de acolhimento residencial desnecessariamente. Por exemplo, embora o número de crianças vulneráveis no Camboja tenha diminuído entre 2005 e 2010, o número de orfanatos aumentou em 75 por cento. Porém, nenhum orfanato pode oferecer os cuidados e a criação que uma família amorosa e solidária pode. 

Compreensão dos efeitos negativos

As pesquisas mostram claramente que o acolhimento institucional de longo prazo não é do melhor interesse das crianças. Ele pode causar um impacto negativo em suas vidas de várias formas diferentes:

Sérios atrasos no desenvolvimento psicológico e social: As crianças não recebem os cuidados e atenção individuais de que precisam. Elas têm menos chances de desenvolver as habilidades intelectuais, físicas, sociais e emocionais adequadas à sua idade. Elas têm menos chances de aprender as habilidades para a vida de que precisarão para viver de forma independente no futuro.  

Problemas afetivos: As crianças crescem com frequentes mudanças de funcionários, voluntários e visitantes. Assim, elas não desenvolvem as relações fortes e duradouras de que precisam.

Mentalidade de dependência: Nas instituições, há sempre alguém responsável por satisfazer as necessidades básicas das crianças e tomar decisões por elas. As crianças geralmente não têm a oportunidade de assumir responsabilidade por si próprias com base em uma relação de confiança. Isso dificulta para elas viverem de forma independente depois de adultas.

Tráfico e abuso: Muitas instituições não possuem políticas de proteção infantil e podem não verificar os antecedentes criminais dos visitantes e funcionários. Isso coloca as crianças em risco de tráfico e abuso físico e sexual.

Separação da sociedade: As crianças colocadas em instituições de acolhimento residencial geralmente crescem separadas de sua família e da comunidade e, assim, frequentemente têm dificuldades para retornar à comunidade ao deixarem a instituição.  

Os jovens são muito vulneráveis quando deixam o acolhimento residencial, e muitas instituições não possuem estratégias para apoiá-los ao longo desse processo. Um estudo de longo prazo realizado na Rússia mostrou que um em cada cinco órfãos que saíam de uma instituição voltava-se para o crime, um em cada sete caía na prostituição e um em cada dez cometia suicídio (Judith Harwin, Children of the Russian state 1917–1995).

uma forma melhor

A boa notícia é que, ao redor do mundo, as pessoas estão começando a se dar conta de que há formas melhores de cuidar das crianças órfãs e vulneráveis. Há uma série de opções:

Fortalecimento familiar: Podemos fortalecer e apoiar as famílias para que elas não coloquem as crianças em orfanatos para começar. Isso pode ser feito através de aulas para pais, creches e atividades de geração de renda. É importante ajudar os pais a entender que a família é para a vida toda, e que eles geralmente podem oferecer uma criação melhor para seus filhos do que um orfanato.

Reintegrar as crianças em suas famílias biológicas: Se for possível e seguro, a melhor opção é reintegrar as crianças que vivem em instituições de acolhimento residencial em suas famílias. Isso envolve tentar abordar os problemas que levaram à sua separação da família sempre que possível.

Acolhimento por parentes: Se não for possível reintegrar as crianças em suas famílias biológicas, outra opção é o acolhimento por parentes. Muitos órfãos têm outros familiares que estariam dispostos a cuidar deles – tias, tios, avós, um irmão mais velho ou outro membro da família extensa. Muitas vezes é possível encontrar parentes e ajudá-los a acolher a criança.

Famílias de acolhimento: As famílias de acolhimento são famílias que acolhem uma criança que não é biologicamente ligada a elas. A família de acolhimento pode ser uma medida temporária, enquanto ainda se está procurando reintegrar a criança em sua família. Também pode ser uma opção de mais longo prazo. Em alguns países, pode ser uma forma de oferecer uma família permanente a uma criança.

Adoção: Quando não é possível reintegrar a criança em sua família ou na de parentes, a adoção pode ser uma opção. Adoção é quando os pais adotivos concordam legalmente em cuidar permanentemente de uma criança que não é biologicamente sua. A adoção é mais fácil para a criança quando ocorre em seu próprio país. A adoção internacional geralmente é uma opção mais desestabilizadora, assim, a Convenção das Nações Unidas considera preferível a adoção ou uma família de acolhimento local.

Às vezes, o acolhimento residencial pode ser uma opção (por exemplo, ele pode ser necessário para uma criança em crise, enquanto são investigadas outras opções). Porém, na maioria dos casos, esta opção deve ser vista como último recurso e não como uma solução de longo prazo. Se for necessário usar o acolhimento residencial por algum tempo, ele deve ser o mais parecido possível com uma família e em pequenas residências coletivas dentro da comunidade, ao invés de em orfanatos grandes. 

Os responsáveis pela assistência à criança devem estudar esta série de opções alternativas de acolhimento para ver qual seria a melhor para ela.

As políticas nacionais estão mudando

Um número cada vez maior de países agora está colocando em prática estas ideias sobre acolhimento alternativo e fazendo delas a sua política oficial. Por exemplo, em 2012, o Camboja anunciou uma nova política, com o objetivo de manter as crianças fora das instituições e preferindo um acolhimento familiar. Além de ser melhor para as crianças, estes princípios fazem sentido em termos financeiros. Em Uganda, por exemplo, um estudo mostrou que custa até 14 vezes mais administrar um orfanato do que cuidar das crianças dentro da comunidade (Unicef).

O que podemos fazer?

A igreja pode ajudar muito a mudar a maneira como cuidamos dos órfãos e crianças vulneráveis. O movimento World Without Orphans uniu cristãos, igrejas e organizações ao redor do mundo para trabalharem juntos pelo acolhimento familiar. Com início na Ucrânia, ele lançou movimentos nacionais em mais de 26 países. Como resultado de seu trabalho, o número de crianças acolhidas em famílias ou localmente adotadas aumentou.

Há várias coisas que as pessoas, igrejas e organizações podem fazer para melhorar a assistência aos órfãos. As pessoas podem considerar a possibilidade de se tornarem famílias de acolhimento ou pais adotivos e incentivar outros a fazerem o mesmo. As igrejas podem desenvolver programas para fortalecer as famílias e apoiar os órfãos dentro de suas igrejas e comunidades. Os diretores de centros de acolhimento residencial podem explorar formas de começar uma transição para os serviços de fortalecimento da família e da comunidade. Nós todos podemos reivindicar, junto ao nosso governo, políticas que priorizem o acolhimento familiar. Unindo-nos a outros que compartilhem da mesma visão, podemos trabalhar visando a um mundo em que todas as crianças tenham a chance de crescer dentro de uma família que as ame.

Markus Köker é o Gestor de Programas Internacionais da Tearfund Irlanda.

Site: www.tearfund.ie
E-mail: enquiries@tearfundireland.ie 

World Without Orphans
Site: www.worldwithoutorphans.org
E-mail: info@worldwithoutorphans.org