Quebrando as correntes dos jovens infratores

Passo a Passo 104 - Presídios

A Passo a Passo 104 traz dicas práticas sobre como se envolver no ministério em prisões e como cuidar de ex-presidiários.

Cally Magalhães e sua equipe estão levando a transformação às prisões juvenis de São Paulo. Foto: Jenny Barthow/Tearfund
Cally Magalhães e sua equipe estão levando a transformação às prisões juvenis de São Paulo. Foto: Jenny Barthow/Tearfund

QUEBRANDO AS CORRENTES DOS JOVENS INFRATORES

por Cally Magalhães  

No Brasil, as crianças vão para a prisão desde os 12 anos. Tragicamente, a maioria volta para a prisão dentro de um mês após sua libertação. Depois de muitos anos trabalhando nas prisões juvenis de São Paulo, eu queria algo radicalmente diferente para ajudar esses meninos. Eu ansiava por ajudá-los a pensar e se comportar de forma diferente para que não reincidissem mais. Então, comecei a orar por uma forma melhor de alcançá-los.

UMA NOVA ABORDAGEM

Antes de ir para o Brasil, trabalhei como atriz profissional e professora de teatro. Comecei a me perguntar se eu não poderia usar o teatro com os meninos. Li dois livros: um sobre justiça restaurativa e outro sobre psicodrama (um tipo de terapia em que os participantes dramatizam diferentes cenários para obter uma maior compreensão de seus problemas). Após um estudo mais aprofundado, decidi juntar a justiça restaurativa e o psicodrama. Criei um novo projeto chamado “Quebrando as correntes”, que trabalha com uma equipe de profissionais na prisão juvenil.

Começamos o trabalho em uma unidade para jovens infratores que haviam cometido crimes sérios: assassinatos, sequestros, assaltos a bancos, assaltos a mão armada. Eles haviam sido presos várias vezes.

Algumas das famílias são tão pobres que, quando o menino sai da prisão, ele já rouba novamente apenas para pôr comida na mesa.

Cally Magalhães

O programa envolve três aspectos. Durante pelo menos 12 semanas, realizamos sessões semanais de psicodrama com um grupo de cerca de 10 meninos que estão chegando ao final de sua sentença. Durante o mesmo período, uma pessoa da nossa equipe visita cada menino individualmente para oferecer aconselhamento. A terceira parte do programa é o trabalho com as famílias. Algumas das famílias são tão pobres que, quando o menino sai da prisão, ele já rouba novamente apenas para pôr comida na mesa. Portanto, tentamos ajudar a família – por exemplo, ajudando a mãe a encontrar trabalho.

RESULTADOS INACREDITÁVEIS

Os resultados do programa são surpreendentes. Para dar só um exemplo, tínhamos um menino que era um verdadeiro criminoso endurecido. Ele roubava até dez motocicletas por dia. Em uma sessão de psicodrama, ele desempenhou o papel do dono de uma moto, sentado ao semáforo. Dois de seus companheiros desempenharam o papel dos ladrões querendo roubar sua moto, apontando armas imaginárias para sua cabeça.

Pedi que congelassem a encenação naquela posição e perguntei ao menino: “O que você está pensando neste exato momento? O que está sentindo?”. E ele respondeu: “Você não pode roubar minha moto! Trabalhei duro para comprar esta moto! Não foi fácil para mim comprá-la, mas a moto é minha, e você não pode roubá-la!”. Naquele momento, de repente, ele entendeu o que ele estava fazendo a outras pessoas todos os dias.

E ele mudou. Depois de sair da prisão juvenil, ele fez um curso de barbeiro e abriu um salão na garagem da avó. Com o tempo, ele economizou dinheiro e abriu um salão mais adequado com um amigo. Agora você tem que esperar quatro horas para cortar o cabelo com ele, de tantos que são os clientes. E ele dá aulas de cabeleireiro em três instituições de caridade diferentes todas as semanas.

Foi o psicodrama que fez toda a diferença para aquele menino. Eu poderia ter me sentado com ele por dois anos dizendo: “É muito errado roubar as pessoas à mão armada” e isso não teria surtido nenhum efeito. Quando avaliamos o programa, descobrimos que, desde que os meninos participassem de pelo menos 10 sessões, 80 por cento deles não reincidiriam. Normalmente, o índice de reincidência é de quase 100 por cento. Isso é uma grande vitória!


Cally Magalhães gere a Associação Águia, em São Paulo, Brasil. Ela é formada pelo programa Inspired Individuals (Indivíduos Inspirados) da Tearfund.

Site: www.theeagleproject.org
E-mail: callygeorge@gmail.com