Deficiência e desastres

Passo a Passo 108 - Viver com deficiência

A Passo a Passo 108 está repleta de orientações práticas sobre como fazer com que as nossas igrejas e comunidades se tornem mais inclusivas para as pessoas que vivem com deficiências.

Em muitos países, inclusive Bangladesh, as pessoas com deficiência são particularmente vulneráveis a inundações e outros desastres. Foto: CBM/Patwary
Em muitos países, inclusive Bangladesh, as pessoas com deficiência são particularmente vulneráveis a inundações e outros desastres. Foto: CBM/Patwary

Deficiência e desastres

Os desastres – como as enchentes, os ciclones, os tsunamis e os terremotos – frequentemente causam mortes e perda de infraestrutura e bens. Eles também causam ferimentos e traumas. No entanto, nem todos são afetados pelos desastres da mesma maneira: isso depende de quão vulneráveis as pessoas são.

A vulnerabilidade é afetada por muitas coisas, entre elas, o gênero, a idade, a saúde, a pobreza e o nível de assistência oferecido pelo governo. Frequentemente, as pessoas com deficiência são particularmente vulneráveis quando ocorre um desastre.

Isso se deve a vários fatores.

  • Um baixo status social pode fazer com que as pessoas com deficiência fiquem fora das discussões da comunidade sobre o que fazer em caso de desastre. 
  • Uma pessoa com deficiência auditiva não ouvirá os alertas transmitidos pelo rádio ou através de alto-falantes.  
  • Os avisos, símbolos e sinalizações visuais são inúteis para uma pessoa com deficiência visual. 
  • Uma pessoa com uma deficiência intelectual pode achar muito estressante tentar lidar com uma situação de desastre na ausência de familiares. 
  • Pode ser difícil para as pessoas com deficiência chegar até locais seguros para obter abrigo, e elas podem ser ignoradas quando a ajuda de emergência estiver sendo distribuída.

Qualquer esforço para reduzir o risco e o impacto dos desastres deve levar em conta todos, inclusive as pessoas com deficiência.

Modelo gaibandha

O modelo Gaibandha baseia-se nas experiências da organização CBM e de seus parceiros nas comunidades afetadas por inundações na área de Gaibandha, em Bangladesh. Ele coloca as pessoas com deficiência no centro da redução do risco de desastres. Eles são os agentes de mudança que trabalham com suas comunidades para garantir que as necessidades de todos sejam consideradas e que ninguém seja deixado para trás.

O modelo Gaibandha sugere cinco passos importantes.

Passo 1 – Desenvolver grupos de autoajuda fortes

Há muitos benefícios em reunir pessoas com deficiência em grupos de autoajuda, entre eles:

  • a oportunidade de construir relacionamentos, falar sobre preocupações e apoiar uns aos outros; 
  • maior confiança e desenvolvimento de habilidades de liderança; 
  • oportunidades de acesso a treinamento, como, por exemplo, em como se preparar para desastres e direitos das pessoas com deficiência; 
  • vozes coletivas para a defesa e a promoção de direitos: é mais fácil reivindicar mudanças enquanto grupo do que enquanto indivíduo (veja o passo 2); 
  • maior compreensão das necessidades, habilidades e capacidades mútuas;
  • oportunidades para esquemas de pequena escala de poupança e crédito, resultando em melhores condições de vida e renda (veja o passo 5).

Na área de Gaibandha, Bangladesh, os grupos de autoajuda estão envolvidos em todas as atividades de redução de risco de desastres, inclusive nas simulações e nos sistemas de alerta precoce. Quando ocorre um desastre, os grupos ajudam a identificar as pessoas que precisam de resgate e a cuidar das que estão em abrigos.

Como resultado, as pessoas com deficiência estão sendo cada vez mais respeitadas como membros valiosos da sociedade, e muitas agora atuam como líderes comunitários. Trabalhando juntos para um objetivo comum e levando em consideração as necessidades de uma gama diversa de pessoas, melhores estratégias e planos são desenvolvidos, e o estigma e a discriminação são reduzidos.

O modelo Gaibandha coloca as pessoas com deficiência no centro da redução do risco de desastres. Foto: Centre for Disability in Development (CDD)
O modelo Gaibandha coloca as pessoas com deficiência no centro da redução do risco de desastres. Foto: Centre for Disability in Development (CDD)
Passo 2 – Defender e promover direitos junto ao governo local

Os grupos de autoajuda fazem parte da comunidade em que vivem. Eles precisam encontrar sua voz, não apenas para si mesmos, mas para toda a comunidade.  

Depois de receber treinamento relevante, os grupos de autoajuda de Gaibandha tornam-se extremamente ativos na conscientização e na realização de campanhas por mudanças. Eles regularmente convidam funcionários do governo e jornalistas para ver suas atividades de gestão de desastres e construíram fortes relações com eles. Eles fizeram campanhas bem-sucedidas pela melhoria de estradas e aterros, pela distribuição justa de ajuda durante inundações, pelo pagamento de subsídio por invalidez, pela admissão de crianças com deficiência em escolas e pelo acesso de cadeira de rodas a edifícios governamentais. 

Ao promover causas comunitárias e não apenas os direitos das pessoas com deficiência, os grupos conquistaram o respeito tanto da comunidade quanto do governo. Além de prestar cada vez mais atenção aos grupos de autoajuda e às suas reivindicações, o governo também está começando a pedir ajuda aos seus membros para treinar seus próprios funcionários.

Passo 3 – Não deixar ninguém para trás

Os sistemas de alerta precoce acessíveis e os procedimentos eficazes de evacuação são essenciais para a segurança de todos os membros da comunidade. Um sistema introduzido na área de Gaibandha já salvou vidas.

  • Durante exercícios simulados, os planos de evacuação são discutidos. Os membros da comunidade são treinados para ajudar na evacuação dos mais vulneráveis. 
  • Os Comitês de Gestão de Desastres (que incluem pessoas com deficiência) monitoram os medidores de nível de água e coletam informações do governo e da mídia para prever inundações e outros desastres. 
  • Cada família prepara um kit de emergência contendo alimentos secos, velas, roupas, medicamentos, comprimidos de purificação de água e outros itens essenciais.  
  • Se houver uma crise, os membros do comitê informam sua comunidade por meio de anúncios em alto-falante e bandeiras coloridas. As pessoas particularmente vulneráveis são contatadas diretamente. 
  • Todos são ajudados a ir até os abrigos seguros, os quais possuem banheiros e pontos de água acessíveis. 
  • Os Comitês de Gestão de Desastres trabalham com o governo de Bangladesh para tentar garantir que a ajuda de emergência chegue a todos que precisem dela. Eles também trabalham juntos após um desastre, ajudando as comunidades a reconstruir casas e a restabelecer meios de vida.
Passo 4 – Trabalhar com escolas

As escolas frequentemente fecham durante muitas semanas após um desastre, o que tem um grande impacto na educação dos alunos.

Em Gaibandha, a situação foi altamente melhorada através do envolvimento das escolas em diferentes atividades de conscientização.

  • As escolas desenvolveram planos de contingência. Como parte desses planos, os alunos são incentivados a ir para a escola de barco durante as inundações, e foram estabelecidos espaços seguros em terrenos elevados para permitir que as aulas continuem.  
  • Os alunos aprendem sobre desastres como parte do currículo e fazem exercícios de simulação regulares para aprender sobre como manter sua segurança. Os professores convidam crianças com deficiência para falar sobre como as inundações e outros desastres poderiam afetá-las.  
  • Os membros dos grupos de autoajuda frequentemente visitam as escolas, aumentando a conscientização sobre questões de deficiência. Como resultado, as escolas estão matriculando mais crianças com deficiência, e muitos professores estão pedindo treinamento extra em educação inclusiva. 
  • Os alunos tornaram-se comunicadores importantes, não apenas sobre o risco de desastres, mas também sobre a deficiência. Isso está ajudando a romper o estigma e a incompreensão em suas comunidades.
Passo 5 – Promover e apoiar os meios de vida

Muitos dos membros dos grupos de autoajuda da Gaibandha agora possuem meios de vida sólidos e produtivos, pois eles se apoiam mutuamente para tentar coisas novas, e as pessoas adquiriram a confiança de que precisam para administrar seus próprios pequenos negócios. Algumas das atividades são realizadas em grupos (por exemplo, produção de milho), assim, as tarefas podem ser compartilhadas entre os membros conforme suas diferentes capacidades.  

Ter uma renda regular faz com que as pessoas possam melhorar suas casas, abrigos de animais e abastecimento de água, de forma que é menos provável que eles sejam danificados durante um desastre. Elas também conseguirão se recuperar mais rápido depois, se tiverem algum dinheiro de reserva e puderem retomar logo seus negócios.


Definições

Risco de desastres A combinação da probabilidade de que um evento perigoso ocorra (por exemplo, uma inundação) e a forma negativa como ele afeta a vida humana e os bens. 

Redução do risco de desastres O uso de estratégias e práticas para reduzir a incidência de situações de risco, diminuir a vulnerabilidade das pessoas e dos bens a elas e aumentar a capacidade das pessoas de lidar com o seu impacto.


Adaptado de Saving lives and leaving no one behind: the Gaibandha model for disability-inclusive disaster risk reduction (Salvar vidas e não deixar ninguém para trás: o modelo de Gaibandha para a redução do risco de desastres inclusiva para pessoas com deficiência), publicado pela CBM em 2018. Veja a página de Recursos para obter mais informações.

A CBM é uma organização cristã internacional de desenvolvimento e deficiência. www.cbmuk.org.uk