Ação comunitária e o meio ambiente

Como comunidades podem lidar com problemas ambientais politicamente sensíveis

por Andrew Leake.

Ao redor do mundo, cada vez mais comunidades locais estão aprendendo a lidar com a destruição ambiental que não é causada por elas. Por exemplo, um vilarejo que depende de um rio para a sua provisão de água potável e fornecimento de peixe onde a água se torna poluída por uma fábrica situada rio acima. Para solucionar o problema, a comunidade talvez tenha que desafiar os interesses econômicos do proprietário da fábrica. Isto pode ocasionar protestos, campanhas e brigas na justiça e, em casos extremos, violência.

Um desafio crescente para os que trabalham em desenvolvimento é saber como ajudar as comunidades em situações como a que foi descrita. Por causa dos interesses econômicos e políticos, uma intervenção deste tipo é uma questão delicada. Não é fácil e está aberta a todo tipo de críticas e mal entendidos. Devemos aceitar, no entanto, que Deus pode nos chamar para estar envolvidos desta maneira. É importante, portanto, considerar como atuaríamos se a necessidade aparecesse.

ESTUDO DE CASO

MOPAWI é uma agência cristã de desenvolvimento que trabalha com grupos indígenas nas florestas tropicais do leste de Honduras (América Central). Desde 1985 eles têm trabalhado em agricultura, saúde, educação, crédito e projetos com mulheres.

Parte do trabalho da MOPAWI é feito com as comunidades indígenas Tawahka, ao longo do Rio Patuca. Em 1987, funcionários da agência perceberam que as florestas que circundavam esta região estavam sendo desvastadas por empresas madeireiras, criadores de gado e fazendeiros que estavam avançando rio abaixo, procurando áreas novas para explorar. Eles perceberam que se nada fosse feito, os Tawahkas iriam em breve perder seus recursos naturais dos quais sua subsistência econômica sustentável dependia há séculos.

Reconhecendo o problema

Até então, os Tawahkas não tinham acreditado que as suas florestas estavam ameaçadas. Como um líder disse, ‘Desde que eu era criança, estas florestas permanecem inalteradas. Eu não poderia imaginá-las de outra forma.’ Um primeiro passo para ajudar os Tawahka a lidar com o problema foi ajudá-los a compreender inteiramente a situação.

Para alcançar isto, a MOPAWI levou os líderes dos Tawahkas visitar grupos indígenas em outra partes do país que já haviam tido as suas florestas destruídas. Através de conversas, eles começaram a perceber o que significaria se eles também perdessem as suas florestas. Eles não teriam onde conseguir materiais para construir as suas casas ou canoas, nenhum lugar onde caçar animais, encontrar plantas medicinais e frutas silvestres. Os solos seriam erodidos, os rios iriam se sedimentar, os peixes desapareceriam e não haveria nenhuma água potável.

Este processo de conscientização continuou, os líderes Tawahka visitaram regiões próximas às suas comunidades onde florestas foram totalmente devastadas. Eles se encontraram e conversaram com criadores de gado e fazendeiros e perguntaram por que eles estavam se mudando para aquelas áreas e destruindo a vegetação. Eles descobriram que muitos deles não conseguiram achar terras em nenhum outro lugar e não tiveram outra opção, senão desmatar a floresta. Outros eram motivados por simples ganância, com o objetivo de ter um lucro rápido através do corte e da venda de árvores ou da criação de gado.

Conscientizando outros

Toda a experiência foi registrada em vídeo e depois mostrada a outros membros da comunidade. Com este material audiovisual para comprovar o que eles diziam, os líderes conseguiram convencer o resto da comunidade sobre a necessidade de se fazer algo para se proteger a floresta de estranhos.

Uma vez que o povo Tawahka decidiu que eles tinham necessidade real de proteger a floresta, a MOPAWI os ajudou a se reunir com autoridades governamentais. Isto lhes permitiu descobrir por si próprios qual era a sua situação legal no que dizia respeito aos seus direitos às florestas. Isto também iniciou uma boa comunicação com as autoridades, o que foi importante pois significou que o governo compreendeu o que eles estavam fazendo. Isto também reduziu qualquer possível mal entendido no futuro do que poderia, de outra forma, ser considerado como uma revolta política de algum tipo.

Produção de mapas

Os indígenas, com o apoio técnico do MOPAWI, começaram então a documentar a situação. Eles forneceram informações a um geógrafo profissional sobre onde e como eles usavam as florestas. Ele então colocou esta informação em forma de mapas. Outro mapa feito pelo geógrafo mostrava a localização e a quantidade do desmatamento, o quão pouco da floresta então restava e portanto o quão importante era protegê-la.

Esta informação ajudou os indígenas a compreenderem melhor a sua própria condição e adicionou uma argumentação ecológica à sua causa. Usando esta informação, eles puderam explicar o problema claramente e de maneira simples ao governo e outros. Os mapas ajudaram a fazer com que a situação ficasse clara. Eles também dificultaram aqueles que estavam interessados em se apoderar das florestas dos índios por interesses políticos e econômicos usando informações incorretas. Os mapas foram usados posteriormente até pelo governo como base para se preparar uma proposta de uma reserva indígena que, se legalizada, protegerá as florestas dos Tawahkas.

Um outro aspecto positivo sobre os mapas e o vídeo foi que os meios de comunicação puderam usar o material. Isto permitiu que os Tawahkas trouxessem a situação deles ao conhecimento do público. Ao fazer isto, eles provocaram interesse público e apoio que, por sua vez, incentivou o governo a avaliar mais de perto as reinvindicações dos índios.

Ao longo de todo este processo, o envolvimento da MOPAWI com os Tawahkas significou passar por difíceis desafios. Em alguns momentos os índios enfrentaram divisões sérias dentro da sua comunidade como resultado de mal entendidos. A má administração de fundos destinados a projetos em certas ocasiões fez com que as pessoas perdessem a confiança em seus líderes. Pessoas de fora chegaram a acusar a MOPAWI de ter os seus próprios interesses econômicos, ou de serem motivados por razões políticas. Estes problemas foram superados pela oração e paciência. O fato importante foi que os Tawahkas tiveram êxito em levar o caso deles diante do governo, evitando confrontações diretas maiores com os criadores de gado, fazendeiros e comerciantes de madeira.

Pontos para considerar

A experiência da MOPAWI pode ser útil na consideração de assuntos importantes por parte de outras organizações que trabalham ajudando pessoas a resolverem problemas ambientais que envolvam questões políticas – mesmo que a situação deles seja diferente…

  • As preocupações e ações da comunidade podem colidir com os interesses econômicos e políticos dos responsáveis pelo problema. As consequências prováveis disto devem ser cuidadosamente consideradas antes que qualquer ação seja tomada.
  • A comunidade deve reconhecer o problema como sendo um problema seu (não apenas do coordenador do trabalho de desenvolvimento) e se responsabilizar completamente por qualquer decisão a ser tomada para o resolver.
  • Para ajudar a comunidade a tomar uma decisão, o coordenador do trabalho ou agência de desenvolvimento deve ajudá-la a reunir toda informação possível sobre o problema que se enfrenta. Eles devem permitir com que a comunidade escolha se querem ou não tomar alguma ação e decidir qual a melhor maneira disto ser feito.
  • Se uma agência de desenvolvimento decidiu apoiar a comunidade na implementação de sua ação, uma estratégia geral de desenvolvimento deve ser planejada (veja abaixo), certificando-se de que o que for proposto esteja dentro do mandato legal da organização.
  • Diretrizes gerais claras devem ser estabelecidas para aqueles que são responsáveis por esta tarefa, indicando a extensão e os limites nos quais eles devem se envolver com a comunidade na procura de uma solução.
  • Por causa da natureza ‘política’ deste tipo de envolvimento, a agência de desenvolvimento e os seus funcionários devem desenvolver um nível profundo de confiança por parte da comunidade e manter uma comunicação clara e contínua com ela.
  • A agência de desenvolvimento deve assumir uma atitude de oferecer apoio e não de liderar qualquer ação que a comunidade tomar. Este apoio deve ajudar a identificar e proporcionar canais pelos quais a comunidade possa tomar ações por si própria.
  • Dê ênfase a se escrever e se publicar os fatos sobre o problema. Isto ajuda a evitar que a questão se confunda com outros interesses políticos. Mapear a área onde está o problema é frequentemente uma boa maneira disto ser alcançado. Isto também ajuda a comunidade a se unir, aumentar a compreensão do problema e explicá-lo objetivamente a outros (veja a Passo a Passo 17).

Fases de envolvimento

Identificar as diferentes fases de envolvimento na maneira como a MOPAWI trabalhou com os indígenas Tawahka pode ser útil visto que isto pode servir como diretrizes gerais para outros grupos…

Conscientização A comunidade se torna consciente do problema que enfrenta e é ajudada a identificar suas causas e implicações.

Decisão em agir Tendo considerado o problema e os desafios a serem enfrentados na procura de uma solução, a comunidade deve assumir a responsabilidade de decidir quanto a tomar alguma ação ou não. Eles são os que terão de viver com as consequências da ação tomada.

Trabalhe com fatos Recolha informações e publique os fatos do problema. Isto reduz a possibilidade da oposição influenciar a opinião pública com fatos e opiniões incorretas.

Apoio para a causa Ganhar o apoio do público é particularmente importante se a comunidade é pequena e tem pouca influência política. Isto aumentará as chances das reinvindicações da comunidade serem atendidas.

Andrew Leake trabalhou com a MOPAWI por quatro anos. Ele agora está estudando para um PhD na Universidade de Hertfordshire sobre a maneira de uso da terra entre os grupos indígenas no Paraguai. O endereço dele é: 45 Walton St, St Albans, AL1 4DQ, Reino Unido.

Ação comunitária para proteger o meio ambiente

por Beatrice Akoth

Há vários passos que as comunidades podem tomar para proteger o meio ambiente:

1. Compreenda e identifique as causas de todas as mudanças que estão ocorrendo no ambiente local – especialmente as que causam mais estragos.

2. Produza sistemas apropriados de uso da terra que reduzirão ou prevenirão mais danos – por exemplo: medidas de conservação do solo e da água, plantação de árvores, etc.

3. Faça reuniões com a comunidade para encorajar o apoio total de toda a comunidade nestas medidas. Pode ser necessário estabelecer regulamentos locais de proteção ambiental para se assegurar que as pessoas protejam todo o meio ambiente.

4. Motive pessoas a planejarem para o futuro. Será que os sistemas agrícolas locais asseguram o uso correto dos recursos de maneira sustentável para o benefício de gerações presentes e futuras?

Para se conseguir isto, todos os membros da comunidade devem ser instruídos a considerar todo o meio ambiente. As pessoas devem compreender que cada um de nós tem uma contribuição vital a fazer nesta questão. Atividades de proteção ambiental precisam começar desde a nossa casa e serem então estendidas às nossas comunidades. Juntos talvez possamos evitar consequências desastrosas pelo mal uso do meio ambiente como secas, desertificação, fome, doenças e morte.

Beatrice Akoth é uma ambientalista de profissão. Estudou na Universidade Makerere, Kampala. O seu endereço é: PO Box 7009, Kampala, Uganda.