Promoção da conservação local

por Miges Baumann.

Anibal e Orfelina Correo vivem no povoado de Boliche, em Simiatug, no Equador. Eles contam sobre como usam as novas variedades de batata que são desenvolvidas no Instituto Nacional de Pesquisas Agrícolas…

Novos métodos

’Os agrônomos vieram e nos incentivaram a formar uma cooperativa. Eles nos trouxeram novas variedades de batatas e fertilizante artificial e começaram a realizar experiências de campo. A princípio, as batatas das novas sementes produziram muito mais com diferentes fertilizantes. Acreditamos que estes eram muito melhores do que o fertilizante que usávamos antes. Mas, no ano seguinte, a produção começou a cair. No terceiro ano, tivemos problemas com minhocas. Os agrônomos trouxeram fungicidas e pesticidas para tratar as plantas contra as pragas mas os produtos químicos tornavam-se mais caros a cada ano. Nós também tínhamos de aumentar a dose de pesticida o tempo todo. As batatas começaram a ter um gosto amargo de tanto que estávamos pulverizando.’

Os fertilizantes artificiais são muito caros. ’Há seis anos atrás, nós podíamos comprar um saco de fertilizante artificial pelo mesmo preço de um saco de batatas. Hoje em dia, o mesmo saco de fertilizante custa seis sacos de batatas,’ explica um outro agricultor. Os pesticidas e as batatas das novas sementes também são caros.

Desanimados, Anibal e Orfelina Correo voltaram ao seu método tradicional de cultivo, o qual se manteve estável durante séculos. Isto significou voltar a usar esterco orgânico, a hábil rotação de cultivos e as variedades tradicionais de batatas. Eles tiveram sorte em encontrá-las pois as variedades tradicionais freqüentemente são perdidas quando as novas variedades as substituem.

Métodos antigos

Belisario também cultiva batatas, mas no seu terreno, próximo a Atupulo, em um planalto a 3.700 metros de altura, ele não planta nenhuma das novas variedades recomendadas pelos agrônomos e pelo governo. Ele não precisa de nenhum dos fertilizantes artificiais ou pesticidas recomendados pelo governo. Ele também não realiza o mono-cultivo de uma variedade, o qual é recomendado. Ao invés, ele planta as suas batatas da maneira que o seus ancestrais faziam, usando mais de dez tipos diferentes de batatas. Ele conhece cada parte do seu terreno e cada uma das diferentes características das variedades de batatas que planta. Uma é mais resistente ao fungo, a outra resiste a um certo tipo de besouro, uma resiste melhor à seca, enquanto a outra tem um sabor muito bom. Dessa maneira, Belisario pode lidar com os problemas climáticos e de pragas.

Quando perguntamos por que ele planta variedades tradicionais, ele respondeu…

‘Elas têm um sabor melhor e cozinham mais rapidamente. As nossas variedades tradicionais também podem ser vendidas por melhores preços no mercado local porque as pessoas conhecem e gostam destas variedades. Nas cidades, no entanto, as pessoas só estão familiarizadas com as novas variedades.’

As batatas que estão desaparecendo

Hoje em dia, são poucos os agricultores que usam estas técnicas. As variedades originais praticamente desapareceram. Até mesmo nas estações de pesquisas agrícolas nos Andes, os pesquisadores (que produziram as novas variedades) estão surpresos com a rapidez com que as variedades estão desaparecendo. As organizações indígenas, em muitos lugares, estão conscientizando-se de que as variedades tradicionais de batatas são parte da sua agricultura tradicional e da herança cultural e devem ser protegidas.

O Escritório de Coordenação da Swissaid no Equador, no momento, está tentando incentivar esta abordagem. A agricultura sustentável e a conservação da diversidade genética são princípios importantes da sua política de desenvolvimento. Diante das propagandas maciças por parte das indústrias químicas, eles promovem conscientização sobre as abordagens alternativas e incentivam os grupos de agricultores a terem confiança nas suas experiências tradicionais para que possam fazer opções realistas.

Miges Baumann trabalha para a Swissaid, Jubilaumstr 60, CH-3000 Berna 6, Suíça, promovendo a conscientização da conservação local para o desenvolvimento sustentável. Este artigo foi adaptado do livro Growing Diversity, editado por D Cooper, R Vellvé e H Hobbelink e publicado pela Intermediate Technology. (Veja a resenha na Recursos)

EDITORA: A situação no Equador está sendo repetida ao redor do mundo, à medida em que as variedades tradicionais e as práticas agrícolas sustentáveis são substituídas pelas novas variedades comerciais (as quais freqüentemente necessitam fertilizantes e pesticidas para produzir bem) e a mono-cultura. Sorgo, milho, arroz, feijão e muitos outros cultivos podem ser usados como exemplos semelhantes. As novas variedades podem freqüentemente ser de grande benefício, mas a total substituição das variedades tradicionais traz consigo riscos consideráveis para os agricultores a longo prazo.