Reconstrução posterior a um conflito:Experiências no Ruanda

Ian Wallace.

O que aconteceu no Ruanda em 1994 teve um impacto em todo o mundo. Na Tearfund, aqueles acontecimentos nos fizeram pensar muito sobre a nossa resposta às necessidades dos sobreviventes do genocídio e sobre a recuperação da confiança dentro da sociedade, o que havia sido destruído.

Raízes profundas

Ao contrário do que muitas pessoas alheias à situação acreditam, este não foi um simples conflito étnico. Os dois grupos étnicos principais (Hutus e Tutsis) partilham o mesmo idioma, cultura e história, além de terem se casado entre si. As origens deste conflito complexo estão enraizadas na história do Ruanda e incluem uma administração colonial ruim, lutas pelo poder, uma doutrina fraca nas igrejas, injustiças não resolvidas e crenças falsas sobre diferenças raciais. Nos anos anteriores ao genocídio, a Tearfund havia trabalhado com a Igreja, de maneira bem próxima, ajudando as pessoas necessitadas. No entanto, logo ficou claro que a maioria dos nossos parceiros tradicionais haviam sido seriamente afectados pelo conflito e não estavam em condições de atender as necessidades existentes.

Ao estudarmos o que havia acontecido, ficou claro que era essencial compreender corretamente qual era o problema para ajudar o povo de Ruanda a escapar do ciclo de conflito, o qual os perturbou por muitos anos. Várias coisas pareciam significativas:

  • Qualquer acordo político que pudesse ser alcançado provavelmente não teria alterado a maneira como uma pessoa considerava o seu próximo. O desejo de vinganças pessoais frustrariam qualquer acordo alcançado pelos políticos.
  • Somente os ruandenses podiam resolver os problemas que os impediram viver juntos pacificamente. O nosso papel, como pessoas de fora, era permanecer com eles durante aquela época de problemas e ajudar a criar situações seguras que lhes permitissem considerar, com honestidade, os acontecimentos que haviam destruído o seu país.
  • Para que o povo do Ruanda trabalhe arduamente no sentido de alcançar a paz, eles precisam acreditar em um futuro melhor e confiar que algumas das suas esperanças (para os seus filhos, e até mesmo para si próprios) seriam alcançadas para o futuro.
  • Para que as pessoas progridam em desenvolvimento, elas precisam trabalhar juntas dentro das comunidades.

Desenvolvendo confiança

Existia uma dificuldade para que as pessoas trabalhassem juntas. Era necessário haver confiança entre os membros da sociedade. A conseqüência mais prejudicial da guerra foi o incentivo ao ódio, ao resentimento e à falta de confiança entre a população. Nós reconhecemos que qualquer resposta da Tearfund teria que incentivar a conquista da confiança entre os membros da sociedade, de maneira prioritária. As verdadeiras necessidades não eram financeiras, mas sim no sentido de que os relacionamentos fossem restaurados e a dor física e emocional das pessoas fosse curada.

Nós recrutamos um casal, Dick e Judy, para visitarem o Ruanda durante 15 ou 20 dias, a cada dois meses. Este casal havia experimentado tragédias nas suas próprias vidas e conquistaram o respeito e a confiança dos ruandenses com os quais eles trabalharam. Eles foram instruídos a ouvirem o povo ruandense, além de identificarem e trabalharem com aqueles que Deus estava usando no sentido de trazer restauração. Eles tinham a função de serem amigos e facilitadores. O facto deles estarem somente visitando, evitou que eles assumissem a liderança. Eles também foram cuidadosos no sentido de não apressarem as pessoas a encontrarem resultados imediatos, mas sim, pensarem a longo prazo.

Uma organização excepcional

Eles logo identificaram que uma organização local, chamada MOUCECORE, tinha um papel importante e criaram uma boa relação de trabalho com Michel, o Diretor. A MOUCECORE tornou-se um dos elementos mais importantes do nosso trabalho no Ruanda. Ela é uma organização excepcional pelas seguintes razões:

  • Ela era um modelo do tipo de relacionamentos que estava procurando promover. A princípio, ela tinha apenas dois funcionários: um pregador leigo, da Igreja Anglicana, de origem Tutsi, e uma líder, de origem Hutu, do movimento feminino da Igreja Presbiteriana.
  • Devido ela não estar interessada em obter poder ou posição social, ela não representava uma ameaça a outras pessoas que estavam tentando desenvolver o seu próprio poder e influência.
  • Os seus funcionários eram suficientemente conhecidos e tinham a confiança das pessoas que tinham o poder para dar-lhes permissão para realizar o trabalho. Ao mesmo tempo, eles eram capazes de se relacionarem com os moradores dos povoados.

Eles viajaram juntos por todo o país, desafiando as pessoas sobre a maneira como eles viam os seus vizinhos. Dick e Judy apoiaram-lhes neste trabalho.

A mensagem simples de Michel desafiou a pessoas a pensarem mais cuidadosamente sobre o que significa ser cristão no Ruanda. Ele se concentrou principalmente na idéia de que temos uma nova identidade em Cristo, a qual é mais importante do que a identidade étnica (2 Coríntios 5:17). Ao fazer isto, Michel estava confrontando diretamente uma das questões chaves, visto que a ameaça à identidade étnica era uma das causas do conflito. Uma vez que as pessoas começaram a compreender que a identidade que possuíam não estava apenas relacionada com a sua origem étnica, Michel passava a desafiá-las no sentido de decidirem que efeito isto poderia ter nas suas vidas diárias e colocarem isto em práctica. Ele também deixou claro que a falta de apoio por parte de outras pessoas nunca deve ser uma desculpa para não fazermos o que acreditamos ser certo. Este ‘treinamento’ levou pequenos grupos de pessoas dos povoados a começarem iniciativas no sentido de corrigirem o que estava errado.

Houve exemplos de casas que foram reconstruídas para os que se tornaram deficientes, hortas que foram construídas para as viúvas e pessoas que cozinhavam para levar comida aos hospitais, para alimentar aqueles que não tinham mais família.

Apoiando iniciativas locais

Com o aparecimento de mais iniciativas como estas, pequenas doações permitiram que alguns grupos comprassem as ferramentas e equipamentos básicos de que necessitavam. A MOUCECORE empregou um assessor de desenvolvimento para ajudar os grupos a planearem como usar o dinheiro de maneira mais eficaz.

A MOUCECORE administrou as doações através de um comitê local, o qual era formado por líderes de confiança da igreja. A maior doação era de US $300 e ficou combinado que se a doação ajudasse a iniciar uma actividade geradora de recursos, o grupo deveria ‘devolver o dinheiro’, ajudando uma outra pessoa com necessidades semelhantes. Foi colocada muita confiança nestes novos grupos e, na maioria dos casos, esta confiança foi respeitada. Um grupo de jovens notou que as pessoas deficientes do bairro onde viviam estavam passando por muitos problemas e, portanto, elas foram ensinadas a fabricar móveis para serem vendidos no mercado local. Aos poucos, a confiança e as actividades começaram a crescer.

Após um conflito como este, as pessoas acham quase impossível conversar sobre as suas dores e sentimentos. No entanto, em um programa realizado pela African Revival Ministries, foi dada ênfase ao trabalho conjunto para corrigir o que estava errado. Quando as pessoas começaram a trabalhar juntas, elas descobriram que os seus ‘inimigos’ tinham sofrido da mesma maneira que elas e sentiam as mesmas dores. Isto permitiu que se começasse a discutir sobre o sofrimento que as pessoas estavam experimentando. Aos poucos, esta discussão terminou com a grande desconfiança que havia existido. Posteriormente, o grupo construiu hortas para aqueles que permaneceram nos campos de refugiados, como uma maneira de demonstrar que não havia risco em retornar para casa.

É difícil avaliar o impacto das actividades de reconciliação. A pergunta crítica é se houve uma mudança permanente nas atitudes com respeito às pessoas que antes eram consideradas inimigas. Uma prova clara de reconciliação é quando alguém permite que seu sustento se torne intimamente condicionado ao sustento do seu inimigo tradicional. Isto foi visto entre os novos grupos que foram formados pela MOUCECORE.

Lições aprendidas…

  • As pessoas são mais importantes do que o dinheiro na reconstrução posterior a um conflito.
  • As pessoas chaves são aquelas que podem fazer o elo de ligação entre os que detém o poder e os moradores comuns dos povoados.
  • Os programas devem incentivar o crescimento da confiança entre os membros da sociedade.
  • Ouvir é uma maneira importante de criar confiança e segurança, as quais permitem que questões mais complexas sejam consideradas.
  • Reunir-se para trabalhar em conjunto pode ajudar a remover as tensões iniciais entre as pessoas e ajudá-las a se conhecerem melhor. Isto pode levar a discussões que, de outra maneira, não seriam possíveis.
  • É necessário desafiar as pessoas a pensarem sobre as suas suposições, especialmente sobre no que se baseia a sua identidade e as ameaças que elas pensam que existem quanto à mesma.
  • A responsabilidade de encontrar a solução deve permanecer sempre com as pessoas que estão envolvidas no conflito. O papel da pessoa de fora é ser um amigo e facilitador.
  • A verdadeira reconciliação leva muito tempo e não pode ser apressada.

Ian Wallace é o Diretor do Departamento de Serviços Internacionais da Tearfund. Ele tem experiência em desenvolvimento comunitário na África Ocidental e na supervisão do trabalho da Tearfund em resposta ao conflito na África Central.