Compartilhando técnicas de apicultura

Michael Duggan e Paul Draper.

Como muitos lugares remotos do mundo, a ilha de Rodrigues, a 560km ao nordeste de Maurício, no Oceano Índico, tem várias pessoas com deficiências. Ailha tem apenas 13km por 7km de tamanho, com uma população cada vez maior e poucas oportunidades de trabalho. As pessoas com deficiências não tinham nenhuma esperança de encontrar trabalho, com 90% de desemprego na ilha.

Entretanto, a ilha possui um clima bom, uma vegetação variada e uma boa abelha esforçada (Apis mellifera). No passado, a apicultura era muito popular, e produziase uma grande quantidade de mel. Porém, durante os anos 90, a apicultura entrou em declínio assim como todas as outras formas de agricultura. Os apicultores perderam o incentivo; não havia nenhuma liderança, nenhuma troca de informações e a administração era precária.

A Craft Aid, uma organização local de Maurício, iniciou uma filial em Rodrigues em 1989. Eles começaram em pequena escala, fazendo cartões e artesanato, mas, em seguida, encontraram muitas crianças surdas ou parcialmente surdas, destinadas a uma vida improdutiva em casa. Eles começaram uma pequena escola para elas, a qual logo se expandiu, passando a incluir crianças parcialmente cegas também. Suas oficinas cresceram e, com elas, as oportunidades de emprego para pessoas com deficiências. Entretanto, eram necessárias idéias de novas fontes de renda para permitir que as crianças continuassem a trabalhar, quando deixassem a escola.

Eles decidiram começar a processar mel e passaram a procurar financiamento e especialistas. Um ano mais tarde, chegou um apicultor com experiência na produção de aparelhos e ferramentas para pessoas com deficiências. Com a sua orientação, foi estabelecido um departamento de processamento em que as pessoas com deficiências podiam processar e engarrafar o mel. Este também seria um centro para a troca de informações e o suprimento de materiais de apicultura de boa qualidade para os apicultores da ilha. Estes eram pagos assim que traziam o seu mel, ao invés de, talvez, terem que esperar um ano.

Problemas

Vários problemas tiveram de ser superados. Havia muitos predadores de abelhas, inclusive camaleões, lagartos, formigas e cupins. Além disso, a ilha tem que enfrentar os ventos extremos quase todos os anos, de novembro a março, pois localiza-se na zona dos ciclones. Também havia problemas com o processamento do mel, inclusive sujeira, embalagem precária e fermentação. Se o mel cristalizasse, as pessoas locais achavam que isto significava que o apicultor havia colocado açúcar.

No fim, foram encontradas soluções para todos estes problemas. Porém, a ilha também tem problemas de comunicação. Assim, foi feito um plano para a troca de informações sobre as boas práticas da apicultura.

Treinamento

Antigamente o nosso centro era criticado por não ajudar as pessoas com deficiências isoladas, que viviam longe das estradas. Assim, começamos um projeto para treinar estas pessoas em apicultura básica no nosso centro. Abrimos um centro de treinamento com 12 colméias, todas feitas de acordo com modelos modernos e altos padrões e construídas nas oficinas da Craft Aid. Os objetivos eram:

  • aprender boas práticas de apicultura
  • oferecer cursos para apicultores deficientes ou para os seus dependentes
  • proporcionar uma renda para pagar os salários das pessoas empregadas no processamento do mel.

Se a pessoa com deficiências não podia fazer o curso de treinamento, treinávamos um membro da sua família que tinha, então, a responsabilidade de fazê-la participar da apicultura. A família inteira, assim, beneficiava-se com a venda do mel. São oferecidos seis cursos de seis meses não só para pessoas com deficiências e as suas famílias, mas para outros também. No final de cada curso, cada aluno recebe uma
colméia com uma colônia de abelhas, desde que tenha preparado, em sua casa, um local adequado com uma cerca ao redor, uma base de metal (para evitar os predadores) e uma bacia de água. Eles recebem um empréstimo para comprar o equipamento necessário, o qual é gradualmente devolvido com a venda do mel. As “pessoas de fora” pagam o preço completo do treinamento, do seu equipamento e das abelhas.

Aproximadamente 45 estudantes fizeram os cursos até agora, e a maioria aceitou o desafio de começar a apicultura. Os alunos e as suas famílias realmente se beneficiam com a renda produzida, a qual pode ser considerável. Eles não precisam viajar, pois recolhemos as telas de mel e fazemos a extração, o engarrafamento e a comercialização para eles. Nós os incentivamos a investir em equipamento e materiais, para continuarem a crescer.

Capacidades diferentes

A apicultura pode ser realizada de forma útil por pessoas com diferentes capacidades. Assim como com quase todo o nosso trabalho na Craft Aid, a fim de sermos produtivos e competitivos, trabalhamos em grupos de pessoas com e sem deficiências. Isto funciona bem, e elas aprendem muito umas com as outras. É possível compartilhar diferentes operações com outros familiares. Por exemplo, as pessoas cegas podem participar de atividades tais como a limpeza e a manutenção das telas. As pessoas com dificuldades auditivas geralmente podem trabalhar bem com pessoas com dificuldades físicas. As pessoas com deficiência de aprendizagem também podem ajudar em muitas operações, trabalhando com alguém sem deficiências. Cada pessoa ou grupo encontra a sua própria maneira de trabalhar. Não há nenhum método ou regra determinada.

Controle de qualidade

Agora temos nove pessoas trabalhando em tempo integral na fábrica de engarrafamento de mel. Compramos mel de 25 apicultores da ilha, dos quais 20 têm pessoas com deficiências na família. Alguns têm até 60 colméias, outros têm apenas uma no momento. Todo o mel processado têm padrões de qualidade e embalagem estabelecidos. A Craft Aid não tem nenhuma dificuldade em vender este mel, e a renda paga o custo dos nossos funcionários.

Compartilhando técnicas

A transferência de informações continua. A ajuda e o aconselhamento são oferecidos gratuitamente. Os apicultores podem comprar equipamento e materiais de boa qualidade de nós, com o benefício adicional de um Apicultor Mestre, que vem do Reino Unido uma vez por ano, para incentivar e aconselhar sobre as boas técnicas da apicultura.

Entretanto, a atitude dos apicultores tradicionais da ilha tem sido desapontadora. Eles ainda usam garrafas de rum, aquecem demais o mel e usam equipamentos sujos.

O futuro

O projeto inteiro tem mostrado, até agora, ter grande êxito. Ele incentiva os altos padrões de apicultura, a melhor produção de mel de alta qualidade, proporciona confiança para as pessoas com deficiências, incentiva as famílias pobres, que muitas vezes estão numa situação desesperadora, mas, acima de tudo, produz uma renda. Um apicultor jovem tem condições de ganhar o equivalente a dois meses de salário com o mel produzido no primeiro ano.

Várias ameaças importantes continuam presentes. Primeiro, o que acontecerá, quando o próximo ciclone atingir a ilha? As colméias podem ser amarradas, mas onde as abelhas se alimentarão, se todas as árvores tiverem sido danificadas?

A alta qualidade do nosso mel faz com que haja um bom mercado local, principalmente entre os turistas, mas serão necessários novos mercados, à medida que a produção de mel crescer.

Finalmente, as abelhas de Rodrigues parecem não ter doenças no momento. Se for introduzida alguma doença, principalmente a Varroa, será devastador para a ilha e a sua economia.

Paul Draper tem sido o diretor da Craft Aid desde 1982. Michael Duggan tem muitos anos de experiência como Apicultor Mestre. Pode-se entrar em contato com eles através da Craft Aid, Camp du Roi, Ilha Rodrigues, República de Maurício, Oceano Índico. Tel: 230 8311766, Fax: 230 8312276, E-mail: pdraper@intnet.mu

Informações úteis

Mais informações sobre apicultura e projetos de colméias podem ser obtidas através da Bees for Development, Troy, Monmouth, NP5 4AB, Reino Unido.

Tel: +44 (0)16007 13648 Fax: +44 (0)16007 16167 E-mail: busy@planbee.org.uk