Ajudando as pessoas com pouca voz

Andrew Tomkins.

Nos últimos anos, houve mudanças enormes tanto na conscientização quanto na disponibilidade de medicamentos para o tratamento de adultos com HIV/VIH e AIDS/SIDA. O trabalho eficaz de defesa de direitos internacional ajudou a diminuir os preços das drogas anti-retrovirais (ARV). Muito mais pessoas com HIV/VIH e AIDS/SIDA, agora, recebem tratamento, muitas vezes, gratuitamente. Numa conferência recente sobre a AIDS/SIDA, em Bangkok, houve muitos relatos de sucesso. AOMS visa financiar o tratamento de mais três milhões de pessoas infectadas com o HIV/VIH antes do final de 2005. Entretanto, a maioria destas são adultos – as crianças foram altamente negligenciadas.

Há várias razões para isto. Em primeiro lugar, se o financiamento é limitado, as pessoas tendem a tratar os adultos antes das crianças. Em segundo lugar, a maioria das pessoas acredita que todas as crianças infectadas com o HIV/VIH morrerão cedo. Uma jovem mãe infectada com o HIV/VIH, na Cidade do Cabo, recentemente, deu o nome de “Sem Esperança” a seu filho, por estar convencida de que ele morreria rapidamente. Na realidade, isto não é verdade. Por motivos que ainda não compreendemos, muitas crianças infectadas com o HIV/VIH crescem e desenvolvem-se muito bem, desde que as infecções próprias da infância sejam tratadas adequadamente e elas sejam bem alimentadas. O sistema imunológico delas continua a ser capaz de combater as infecções. Cuidamos de crianças infectadas com o HIV/VIH no nosso hospital, aqui em Londres. A penas metade destas crianças têm uma imunidade tão precária que precisam de tratamento anti-retroviral.

Lendo o Evangelho de Mateus, podemos ter certeza de que Jesus incluiria as crianças entre os pacientes infectados com o HIV/VIH que encontrasse. O desafio agora é incluir as crianças entre as pessoas selecionadas para receber os ARV em mais e mais países.

No entanto, “é melhor prevenir do que remediar”. Há várias maneiras novas de se evitar a transmissão do HIV/VIH das mães para os filhos.

Educação

Em alguns países, o HIV/VIH é transmitido pelas mães que se injetam drogas. Na Ucrânia, a proporção de mulheres que se injetam durante a gravidez (infectando-se a si próprias e aos seus bebês) diminuiu de 30% para 5%, como resultado de mensagens claras e consistentes sobre a saúde e de apoio. Agora há menos bebês nascendo com HIV/VIH em países como este.

Proteção dos bebês

Mães infectadas com HIV/VIH podem passar o vírus para seus bebês no útero, durante o parto e através da amamentação. Se as mães infectadas com o HIV/VIH receberem ARV na gravidez e não amamentarem seus bebês, o risco de transmissão do HIV/VIH para eles diminui de 30% para 1%. Entretanto, isto só é possível para os que têm condições financeiras para comprar substitutos para o leite materno e podem prepará-los de forma higiênica e numa concentração suficiente. A maioria das mães, nos países pobres, não têm condições financeiras para isto. Entretanto, se as mães infectadas com o HIV/VIH receberem uma dose de nevirapine durante o parto, e o bebê recebê-la logo após o nascimento e for alimentado somente com leite materno por apenas seis meses, somente 10% dos bebês serão infectados. Esta é uma área em que as novas pesquisas e o novo trabalho está trazendo mudanças e melhorias rápidas. Se mais mães infectadas pudessem ser tratadas com ARV, menos bebês seriam infectados.

O estigma é um problema enorme em muitas comunidades. As igrejas têm muitas oportunidades de incentivar uma maior abertura sobre o HIV/VIH e como tratá-lo e preveni-lo. Infelizmente, muitas mulheres não recebem ARV, porque não concordam em fazer o teste do HIV/VIH durante o periodo pré-natal.

Dar uma dose diária de co-trimoxazole – um antibiótico barato e eficaz – às crianças infectadas com o HIV/VIH durante o primeiro ano de vida, previne várias infecçoes geralmente contraídas por crianças portadoras do HIV/VIH, especialmente a pneumonia. Isto também melhora sua saúde e sobrevivência, mesmo que elas não estejam recebendo ARV.

Amamentação

A amamentação exclusiva (sem outros alimentos ou líquidos, nem mesmo água) é mais segura para o bebê do que uma alimentação mista, já que há menos riscos de se passar o vírus. Em primeiro lugar, a água ou outros alimentos podem estar contaminados com germes e sujeira que danificam o intestino do bebê, permitindo que o vírus entre no seu corpo. Em segundo lugar, a amamentação exclusiva e freqüente mantém os seios vazios, diminuindo a quantidade de vírus no leite.

A amamentação exclusiva supre todas as necessidades nutricionais do bebê por 4 a 6 meses. Depois disso, o bebê precisa de uma alimentação mista e nutritiva. Se a mãe continuar com a amamentação ao mesmo tempo que dá outros alimentos ao bebê, há mais probabilidade de infectá-lo. Isto é difícil para as mães – elas precisam parar de amamentar na mesma altura que começam a dar ao bebê outros alimentos. Entretanto, muitas mães têm medo do estigma que enfrentarão, se não amamentarem.

Em Entebbe, Uganda, a maioria das mães infectadas param de amamentar por volta dos 4–6 meses, e dão mingau (matete) feito com leite de vaca aos seus filhos. Tomar aspirina por 48 horas diminui a dor dos seios inchados, quando a amamentação é interrompida abruptamente. Qual é o mais importante: sofrer o estigma ou evitar que uma criança contraia o HIV/VIH?

Os pesquisadores agora estão testando maneiras de melhorar os alimentos locais, para que os bebês possam crescer e se desenvolver bem sem o leite materno. O leite dos animais deve ser fervido ou misturado com mingaus (matetes). Estão sendo criados mingaus (matetes) baratos, fortalecidos com sais minerais e vitaminas, que poderão ser mais facilmente encontrados.

Seria bom saber se os leitores da Passo a Passo encontraram maneiras eficazes de alimentar os bebês de mães infectadas com o HIV/VIH sem o leite materno.

Professor Andrew Tomkins lidera o Centre for International Child Health, Institute of Child Health, London, Reino Unido.
Web:
www.cich.ich.ucl.ac.uk

Alguns fatos…

  • O HIV/VIH e a AIDS/SIDA afetam todos os tipos de pessoas em todos os países. Até agora, 20 milhões de pessoas já morreram de AIDS/SIDA.
  • Há cerca de 40 milhões de pessoas vivendo com HIV/VIH no momento.
  • O problema está crescendo: em 2003, houve cerca de 5 milhões de infecções novas.
  • Mais da metade de todas as infecções novas agora ocorrem em jovens.