A cura através de ser ouvido

Angus Murray

As nossas crenças sobre nós mesmos, as outras pessoas e o nosso mundo ajudam-nos a compreender as nossas experiências e o mundo à nossa volta. Construímos as nossas crenças através das nossas próprias experiências ou as herdamos da nossa família ou da nossa cultura. A menos que elas sejam desafiadas, muitas vezes, não estamos nem mesmos cientes delas. Elas simplesmente parecem ser “normais”, ou o jeito como as coisas são.

A violência muda as coisas. Podemos ficar extremamente perturbados quando passamos por algo que seja chocantemente diferente da maneira como normalmente nos vemos a nós próprios ou o mundo à nossa volta. Talvez a nossa vida tenha corrido perigo ou tenhamos sido vítimas da violência doutra pessoa, ou tenhamos feito algo que seja contra as nossas crenças, valores ou comportamento normais. Isto pode nos levar a perguntar– por que isso aconteceu, ou por que agimos dessa maneira? Podemos questionar a nossa fé ou a nossa compreensão de Deus. Os eventos penosos que abalam a maneira como nos vemos a nós mesmos e o nosso mundo são chamados de traumáticos.

Quando passamos por algo traumático, podemos nos sentir completamente fora de controle e ter dificuldade para compreender o caos. Os sentimentos de medo, desamparo ou horror são reacções normais para uma situação anormal, e não um sinal de fraqueza. Precisamos reconhecer estes sentimentos. Falar sobre as nossas experiências pode nos ajudar a compreendê-las. A maioria das pessoas que passam por um evento traumático precisam do apoio e da compreensão dos que as rodeiam para ajudá-las a se recuperarem.

Uma boa maneira de apoiar alguém no processo de cura é ser um ouvinte activo. Muitas pessoas raramente têm a oportunidade de serem ouvidas desta forma, a qual pode ser uma óptima fonte de cura. Não é necessário ser um conselheiro profissional para ser um bom ouvinte. A seguir, estão algumas habilidades fundamentais para se ouvir de forma activa.

Encontrar um lugar seguro

Primeiro, é importante ajudar a pessoa a relaxar e se sentir segura com você. Não se deve presumir que uma pessoa que passou por um evento perturbador se sentirá segura, e você talvez tenha de conquistar a sua confiança. As pessoas precisam de saber que podem falar sobre questões delicadas em sigilo.

  • Encontre um local confortável, onde vocês possam conversar sem interrupções como chamadas telefónicas ou visitas de pessoas.
  • Entre em acordo quanto ao grau de sigilo no início, para que o que for dito não seja transmitido a mais ninguém, a não ser que seja uma situação em que a própria pessoa ou outros corram risco. Isto é particularmente importante quando se trabalha com crianças. Esclareça desde o início que você não pode prometer sigilo, se lhe contarem algo sobre abuso infantil. Para obter mais informações sobre a proteção infantil, acesse www.keepingchildrensafe.org.uk
  • A maioria das pessoas acham mais fácil falar abertamente com alguém do mesmo sexo.

Ouvir

As pessoas só contam sobre as suas experiências quando se sentem prontas para isto. Isto pode levar tempo, e é importante que as pessoas nunca sejam forçadas a falar sobre questões perturbadoras. Como ouvintes activos, precisamos ser pacientes e respeitar as outras pessoas.

  • Não faça perguntas demasiadas. Faça perguntas para ver se compreendeu tudo corretamente ao invés de pressionar a pessoa para obter mais informações.
  • Ao ouvir, deixe a outra pessoa guiar o conteúdo da conversa e o ritmo do que deseja contar.
  • Algumas pessoas podem achar difícil descrever o que aconteceu quando tentam contar sobre a sua experiência. Como ouvinte ativo, é suficiente sentar-se com elas e compartilhar em silêncio.
  • Pode ou não ser útil que você conte sobre a sua própria experiência. Não se apresse com a sua história ou as suas opiniões. Quem importa neste momento não é você.

Compreensão

Como ouvinte activo, não assuma o papel de especialista, conselheiro, professor, libertador ou consertador. Ao invés, procure tentar compreender a experiência e os sentimentos da outra pessoa. Porque todos nós temos a nossa própria maneira de pensar e sentir, cada pessoa sente o evento traumático de maneira diferente. Não podemos realmente compreender como é para a outra pessoa, a menos que possamos primeiro pôr de lado os nossos próprios sentimentos e experiência. Precisamos de estar completamente atentos e dispostos a ouvir a experiência única desta pessoa.

Preste atenção na resposta emocional da pessoa assim como no relato da sua experiência. Pense sobre a pessoa inteira:

  • Que sentimentos ela expressa?
  • Linguagem corporal e facial – ela parece tranqüila, tensa, assustada, feliz, enojada?
  • Voz – ela fala baixinho e de forma nervosa ou com confiança? Rápido ou devagar? Há momentos de silêncio?

Talvez você queira resumir em poucas palavras o que ouviu (os sentimentos assim como a história), só para verificar se compreendeu bem.

Aceitação

A atitude importante final para a cura é a aceitação. Ao oferecer a aceitação incondicional a uma outra pessoa, mostramos que estamos dispostos a tentar compreender a sua experiência. Isto significa que estamos dispostos a aceitar todas as suas respostas emocionais, mesmo quando elas são difíceis para nós, tais como confusão, ressentimento, medo, raiva ou desespero. Mesmo que não consigamos compreender ou que discordemos das atitudes ou do comportamento daquela pessoa, talvez possamos aceitá-la como um outro ser humano feito à imagem de Deus. A aceitação consiste em oferecermos a graça à outra pessoa, ao invés de a julgarmos, assim como Deus a oferece a nós. Isto pode ser especialmente difícil se esta pessoa tiver realizado actos de violência contra nós.

Esta maneira especial de ouvir pode ser difícil, mas é uma fonte de cura poderosa para as pessoas que passaram por um evento traumático.

Angus Murray é conselheiro profissional e também trabalha para a Tearfund como Oficial de Políticas sobre Conflitos Regionais para o Sudão. Tearfund, 100 Church Road, Teddington, Middlesex, TW11 8QE, Reino Unido.


Conheça os seus limites

  • Às vezes, as experiências que as pessoas nos contam podem ser muito chocantes ou perturbadoras de ouvir. É uma questão de sensatez, e não de fraqueza, reconhecer e admitir os nossos limites, inclusive os limites de tempo.
  • Assegure-se de que esteja emocionalmente forte e estável o suficiente para ouvir sobre a mágoa de outra pessoa. Você também precisa ter a sua própria rede de apoio de familiares e amigos.
  • É importante saber quando é necessária ajuda adicional e trabalhar com a pessoa para encontrá-la. Exceto em casos de abuso infantil, você deve sempre pedir permissão para contar a outros o que lhe foi contado.