Construção da paz e transformação de conflitos

Gary Swart

Foto: Mike Webb
Foto: Mike Webb

A paz verdadeira não é apenas parar com a violência. A paz de que a Bíblia fala é o shalom. O shalom é a restauração e a reconciliação das nossas relações com Deus, com as pessoas à nossa volta e com toda a criação. Ele consiste em trazer as pessoas de volta para o estado de harmonia, bem-estar e conexão com a criação em que Deus as colocou. Trabalhar pela paz e reconciliação é um ministério para o qual todos os cristãos são chamados e não apenas os profissionais. Jesus chama-nos a todos para que sejamos pacificadores e para que nos amemos uns aos outros, inclusive os nossos inimigos (Mateus 5).

A região dos Bálcãs, na Europa, passou por muitas gerações de conflito étnico. A violência, nos anos 90, foi interrompida pela intervenção da comunidade internacional, mas ainda falta muito para se chegar ao shalom. Ainda há muita divisão, desconfiança e ódio na região. A Tearfund e os seus parceiros reconhecem que, para que o ciclo de violência finalmente chegue ao fim, as causas fundamentais do conflito precisam ser resolvidas. A Tearfund começou a trabalhar com os seus parceiros na região a fim de incluir a Construção da Paz e a Transformação de Conflitos (PaCT – Peacebuilding and Conflict Transformation) em todo o seu trabalho. Isto consiste nas organizações tornarem-se mais sensíveis aos ambientes de conflito em que trabalham. Elas procuram causar um impacto construtivo de longo prazo que previne possíveis conflitos no futuro.

Características do trabalho PaCT

Algumas das lições aprendidas, durante este tempo, quanto a tornar de praxe o trabalho PaCT foram:

Ele é um estilo de vida Ser pacificador não é apenas uma descrição de cargo. Não é algo que Jesus nos chama para fazermos apenas, mas para sermos (Mateus 5:9). Temos de dar o exemplo da reconciliação nas nossas próprias vidas e organizações antes de tentarmos ajudar os outros a chegarem à reconciliação. Para uma organização, isto significa que ser reconciliadora e pacificadora deve estar no centro da sua missão e dos seus valores. Uma organização parceira da Tearfund que trabalhava numa área etnicamente mista, a qual havia sofrido conflito previamente, decidiu contratar uma equipe etnicamente mista. Eles perceberam que, para serem agentes de transformação eficazes, tinham de dar o exemplo desta transformação eles próprios.

Ele transforma O trabalho de reconciliação lida com os principais valores e atitudes que nos motivam como seres humanos. O trabalho PaCT lida com uma mudança interna, que tem resultados externos. Ele consiste em curar e restaurar as relações e, assim, leva tempo. Se uma organização quiser tomar o caminho do trabalho de reconciliação e pacificação, ela deverá estar comprometida e preparada para uma longa e, muitas vezes, difícil jornada.

Ele é complicado É importante reservar algum tempo para compreender o contexto local específico, a fim de desenvolver estratégias eficazes que promovam o shalom. Isto raramente é simples. Geralmente, há uma variedade de motivos e condições complicadas que resultam em conflito. Cada conflito é único.

É importante compreender as causas fundamentais do conflito na região. Esta compreensão pode ser usada para planejar a defesa e a promoção eficazes de direitos, a fim de resolver estes problemas funda - mentais, o que pode prevenir futuros conflitos. É importante ouvir todas as partes envolvidas. Ouvir é uma parte importante do contexto, mas também é algo que pode ser usado como uma forma eficaz de se iniciar a reconciliação. Aprender a compreender um conflito do ponto de vista da outra pessoa é uma forma poderosa de rompermos as barreiras entre nós.

Ele é espiritual O trabalho PaCT possui uma dimensão profundamente espiritual. A oração é vital para o seu sucesso (Efésios 6:10-19). As organizações cristãs que trabalham pela reconciliação devem ter certeza de que estão comprometidas com a oração e são apoiadas nela.

Gary Swart trabalha para a Tearfund como Chefe de Região para a Região da África Austral. Tearfund, 100 Church Road, Teddington, Middlesex, TW11 8QE, Reino Unido. E-mail: gary.swart@tearfund.org


Estudos de casos

Ao serem realizados eventos de treinamento para as várias organizações e grupos comunitários, foram convidados diferentes grupos étnicos para o treina mento em conjunto. Num caso, a Tearfund organizou um treinamento em defesa e promoção dos direitos para albaneses, croatas e sérvios, em Belgrado. Foi a primeira vez, desde a guerra, que os albaneses interagiam com os sérvios, e, para eles, esta foi uma experiência profundamente saudável.

Um parceiro da Tearfund organizou um projeto de reconstrução de moradias para refugiados e pessoas internamente deslocadas. O projeto contou com apoio na forma de aconselhamento, oferecido por conselheiros cristãos. Este apoio foi colocado à disposição não apenas dos beneficiários, mas também dos funcionários que trabalhavam com os refugiados, pois estes, muitas vezes, traumatizavam-se ao ouvirem as histórias dos beneficiários.


Uma “Estrutura de Boa Prática” para o trabalho PaCT

  • Dê o exemplo da construção da paz e da reconciliação. Este não é apenas um projeto – é um estilo de vida.
  • Desenvolva e mantenha parcerias eficazes para a paz. Uma organização não pode trazer a paz para a sua região sozinha. Geralmente, é necessária a combinação dos esforços de várias organizações e partes interessadas. Todas as pessoas envolvidas precisam estar comprometidas com a paz.
  • Comprometa-se a longo prazo em termos de tempo e recursos. Nas fases de elaboração e implementação, reconheça que o trabalho PaCT é de longo prazo e difícil de monitorar.
  • Esteja certo quanto a sua compreensão do trabalho PaCT e a sua motivação para realizá-lo. Comunique-as claramente e inclua -as na visão e nos valores da organização.
  • Não se esqueça da importância das pessoas. A reconciliação consiste em restaurar as relações entre as pessoas. Trate todas elas com o mesmo respeito e dignidade. Não permita nenhuma forma de discriminação.
  • Considere a sensibilidade ao conflito em todos os níveis dentro da organização.