Cuidados de saúde na comunidade

Foto: Jim Loring
Foto: Jim Loring

Ted Lankester

Pense sobre a última vez em que você esteve doente em casa e se deu conta de que precisava de tratamento. Você teve de ir a um posto de saúde, ao hospital ou houve um jeito de ser diagnosticado e tratado em casa? Nas regiões rurais e urbanas pobres de todo o mundo, três quartos dos casos de doenças poderiam ser reconhecidos e tratados dentro de casa.

A maioria dos médicos, enfermeiros e profissionais da saúde do mundo está trabalhando em países mais ricos ou nos bairros mais ricos das cidades. Assim, nas regiões mais remotas e pobres, onde eles são mais necessários, muitas vezes não há nenhum. Houve muitos avanços recentes na medicina e nos cuidados de saúde, mas, nos países mais pobres, a expectativa de vida está caindo, muitas vezes, devido aos sistemas de saúde precários.

A Organização Mundial da Saúde diz que há 1,3 bilhão de pessoas sem acesso aos cuidados de saúde formais. Em termos globais, isto representa aproximadamente uma em cada cinco pessoas. Nas regiões remotas e nas partes mais pobres do mundo, quase ninguém tem acesso a tratamento vital. Somente as pessoas que se sentem bem o suficiente, são ricas o suficiente ou têm parentes para ajudá-las, conseguem viajar para chegar a um posto de saúde.

Empoderamento das comunidades

Juntamente com colegas da área de cuidados de saúde da Emmanuel Hospital Association, na Índia, trabalhei por muitos anos na organização de programas para treinar habitantes locais de comunidades remotas a diagnosticarem e tratarem eles mesmos a maioria das doenças com risco de vida. O processo começava por conhecer os habitantes locais, ouvi-los sobre as necessidades de saúde locais e escutar suas sugestões. Depois, em cada grupo de povoados, eram treinados um ou dois voluntários para trabalharem como agentes sanitários. Mostrávamos a eles como reconhecer e tratar as doenças locais mais comuns. Eles recebiam caixas de remédios e aprendiam a usá-los.

Gradualmente, estes voluntários sanitários começavam a treinar os pais da sua comunidade sobre como reconhecer e tratar estas doenças nos seus filhos. Assim, um programa que havia começado com um médico num hospital distante difundia-se entre os membros das famílias através dos agentes sanitários comunitários. Foram necessários vários anos para que os habitantes dos povoados sentissem confiança, mas agora eles vêem que possuem as habilidades e o conhecimento para prestar cuidados de saúde básicos às suas famílias em casa.

Tratamento de doenças comuns

Com exceção da tuberculose e do HIV, a cura da maioria das doenças comuns é muito simples. Milhões de pessoas morrem de pneumonia, diarréia e malária a cada ano. Porém, geralmente é possível tratar ou prevenir estas doenças em casa.

PNEUMONIA Respiração rápida (mais de 40 inalações por minuto) é um sinal de pneumonia. Se a pneumonia for reconhecida, ela pode ser tratada com antibióticos. Faça com que a pessoa tome bastante líquido. Para diminuir a febre, tire as roupas excedentes da pessoa e, se necessário, dê-lhe paracetamol (mas não aspirina). Dê-lhe antibióticos e procure atendimento médico imediatamente, de preferência, num hospital se: 

  • respiração for difícil e fizer ruído, com as costelas contraídas
  • os lábios da pessoa ficarem azuis
  • a pessoa não conseguir beber ou se vomitar tudo
  • a pessoa ficar sonolenta, inconsciente ou tiver convulsões.

A pneumonia pode ocorrer após o sarampo, a coqueluche ou a tuberculose. Assim, a vacinação contra estas doenças pode ajudar a prevenir a pneumonia.

DIARRÉIA Com exceção de casos muito graves, a diarréia pode ser facilmente tratada em casa (veja a página 1). Geralmente, não são necessários antibióticos.

MALÁRIA Nem sempre é fácil reconhecer a malária, pois os sinais variam de local para local. O tratamento também varia. Os agentes sanitários cuidadosamente treinados podem aprender quais são os sinais típicos de malária na sua região e seguir as diretrizes nacionais de tratamento. Diretrizes e aconselhamento atualizados podem ser encontrados em www.who.org/malaria. Para ajudar a prevenir a malária, é importante que, nas regiões em que a doença está presente, todas as crianças sempre durmam sob mosquiteiros tratados com inseticida.

Como parte do nosso programa de saúde comunitária na Índia, as famílias mais vulneráveis recebem suprimentos de medicamentos para a malária e antibióticos com instruções cuidadosas de acordo com as diretrizes nacionais, para que possam começar o tratamento imediatamente, mesmo antes de chamarem um agente sanitário. Há um potencial de risco nisto, pois é muito importante que as pessoas responsáveis pelos cuidados sejam bem ensinadas sobre quando e como usar estes medicamentos. Elas precisam seguir as diretrizes já estabelecidas como parte de um programa bem gerido.

Esta abordagem radical de empoderamento das comunidades para prestarem seus próprios cuidados de saúde em casa está se tornando cada vez mais comum em países por todo o mundo. Ela pode salvar vidas em regiões pobres, onde há falta de profissionais de saúde treinados. Iniciar estes programas é algo que está dentro do alcance da maioria das comunidades e dentro da capacidade da maioria dos agentes sanitários com entusiasmo e determinação. As doenças não infecciosas, como a saúde mental, a epilepsia e o diabete, também devem ser incluídos no programa de treinamento. É importante que estes programas sigam diretrizes baseadas em evidências e de boa prática e que, sempre que possível, eles sejam integrados aos serviços de saúde do governo e trabalhem com eles.

O Dr. Ted Lankester é o Diretor de Cuidados de Saúde da InterHealth e da Community Health Global Network. Para obter informações sobre como participar desta rede on-line gratuitamente e acessar informações sobre tópicos de saúde, acesse o site www.chgn.org

Para obter mais informações sobre necessidades de saúde comunitária, veja seu livro Setting up Community Health Programmes (Edição Revisada 2007), publicada pela MacMillan. O site também explica como obtê-lo.


“Mais uma vez, vemos como, quando as comunidades têm as oportunidades que querem e programas dos quais podem se apropriar, elas se empoderam para alcançar a vida que desejam. Vemos isto em programas em que as comunidades assumem o controle do diagnóstico das doenças e da distribuição de medicamentos, com melhorias rápidas e sustentáveis na saúde.”

Dra. Margaret Chan, Diretora Geral da Organização Mundial da Saúde, 2007