Usando o lucro para mudar vidas

Céline Romera 

Desde 2000, o Peru está passando por um crescimento econômico contínuo, o qual trouxe sucesso, mas também desafios sociais para o país. Entre 1980 e 2000, o Peru passou por conflito armado interno, o qual resultou em alta migração das terras altas do sul em direção a Lima, a capital do país. Como resultado deste movimento, muitas pessoas da região de Ayacucho estabeleceram-se nas periferias ao sul de Lima, na esperança de uma vida melhor. Esta onda maciça de migração acentuou a desigualdade e a pobreza social e econômica na cidade. 

Foto: Céline Romera/Manos Amigas
Foto: Céline Romera/Manos Amigas

O comércio de artesanatos representa um dos setores da economia em que há mais micro empreendimento e mais informalidade. A lei que governa os artesãos estabelece um enquadramento jurídico que os reconhece como pessoas que criam identidade e tradições. Ela também reconhece a importância cultural e econômica do artesanato no Peru.

Foi neste contexto diverso que Yannina Meza, seu irmão Roberto (um pastor da igreja evangélica) e sua mãe (uma professora de artesanato) abriram sua própria empresa para prestar assistência às microempresas locais. Yannina havia trabalhado por muitos anos em empresas de exportação de artesanatos.

Qualidade nos negócios

A Manos Amigas (que significa “mãos amigas”) é uma pequena empresa que vende artesanatos no Peru e no exterior. Ela faz parte da Organização Mundial do Comércio Justo. Desde que foi iniciada, em 1991, a Manos Amigas tem criado oportunidades de comercialização para artesanatos tradicionais e modernos de boa qualidade de todas as regiões do Peru.

Por ser uma organização de comércio justo, a Manos Amigas tem uma relação transparente com os seus produtores. Os produtores determinam os seus próprios preços, e a Manos Amigas dá a eles 50 por cento de pagamento adiantado para que eles possam comprar os materiais necessários. A organização também leva em consideração o seu interesse pelo bem-estar social, econômico e ambiental dos produtores de pequena escala que são marginalizados. A Manos Amigas trabalha com 87 microempresas em cidades e áreas rurais por todo o Peru.

Desde que foi iniciada, a Manos Amigas tem crescido continuamente lado a lado com os produtores e clientes, tendo como componentes básicos para o seu sucesso a qualidade dos artigos, o respeito pelas pessoas e a boa organização.

Projetos e treinamento

Para ajudar os artesãos a aumentarem a sua renda, a Manos Amigas organizou treinamento e consultorias para prestar apoio às microempresas nas comunidades em que trabalha. A cada ano, a Manos Amigas reinveste 20 por cento dos seus lucros em atividades sociais nessas comunidades.

No momento, há três projetos que se beneficiam com este investimento social. O primeiro dá café da manhã para meninas e meninos em áreas marginalizadas do distrito de Chorrillos, ao sul de Lima. O segundo é um projeto que oferece acesso à educação para adolescentes de uma comunidade rural isolada no centro do país.

O terceiro projeto é a “Escola de treinamento móvel para artesãos”. Este projeto cresceu como resultado de duas necessidades principais:

  • Melhorar a qualidade dos produtos de maneira que estes sejam adequados para a exportação.
  • Obter mais encomendas para os artesãos e, assim, ajudar a melhorar as suas condições de vida.

A escola oferece treinamento e consultoria para artesãos, alguns dos quais trabalham com a Manos Amigas. O treinamento concentra-se em temas como gestão administrativa de microempresas, custos, marketing, marketing voltado para o turismo, tendências nos mercados internacionais e design. A consultoria concentra-se na organização produtiva das oficinas. Por exemplo, como calcular custos, saúde e segurança no trabalho, como resolver conflitos com os empregados e outras questões solicitadas pelos artesãos.

A escola não é um prédio, mas sim um grupo de treinadores que podem chegar às comunidades nas áreas rurais assim como nas cidades, com programas de treinamento muito práticos e participativos. As consultorias geralmente são anuais, mas podem ser realizadas várias vezes num ano em alguns casos específicos. 

Beneficiando as comunidades

A escola de treinamento móvel diz ter bons resultados. Há uma melhora contínua visível na qualidade e na organização administrativa e um serviço que cumpre muito melhor os padrões internacionais. Além disso, notou-se que alguns produtores querem realizar um trabalho social semelhante ao da Manos Amigas, de forma que as suas atividades possam beneficiar suas próprias comunidades. Foram vistas melhoras significativas nas condições de vida e na educação dos filhos dos artesãos que trabalham com a Manos Amigas e se beneficiam com os projetos.

Muitos dos artesãos que trabalham com a Manos Amigas são exemplos inspiradores de famílias empreendedoras. Apesar da perspectiva social e econômica triste enfrentada pelo país, a criação de pequenas empresas ajudou o artesanato a se tornar um meio de ganhar dinheiro e melhorar o padrão de vida.

Céline Romera é a Coordenadora de Treinamento da Manos Amigas.

Av. Del Ejército 1067
Miraflores
Lima 18
Peru

E-mail: information@manos-amigas.com
Site: www.manos-amigas.com

Estudo de caso

Ao leste de Lima, Alberto e Sirci Marcapiña vivem com os dois filhos numa casa na rua principal.

Alberto estabeleceu sua oficina e a moradia para a família na sua casa de dois andares. Ele nasceu na cidade de Ayacucho e cresceu cuidando de animais e fazendo brinquedos de barro. Seu irmão mais velho ensinou-o a fazer cerâmica, algo que poderia ser usado de maneira prática. No início dos anos 80, eles fugiram da violência em Ayacucho e migraram para Lima. Mais tarde, Alberto abriu sua própria oficina e conheceu e casou-se com sua esposa. Juntos, eles criaram sua empresa.

Alberto e Sirci trabalham com jovens no distrito. Eles trabalham principalmente com mães solteiras, ajudando-as a ganhar dinheiro e sustentar suas famílias. Eles também ajudam estudantes, oferecendo-lhes trabalho de tempo parcial para que eles possam pagar seus estudos.

Eles estão muito comprometidos com a sua nova comunidade, em Lima, assim como com a sua comunidade de origem, em Ayacucho. Desde 2003, dependendo dos seus resultados financeiros, eles organizam atividades de trabalho social em benefício dos jovens de Ayacucho. Em 2003, eles doaram equipamento escolar para a escola primária de Ayacucho. Em 2004, eles organizaram palestras sobre planejamento familiar para ajudar as mães solteiras. No ano seguinte, eles doaram parte das suas terras em Ayacucho para a construção de um campo de esportes para jovens. No ano passado, eles deram bolsas de estudo no valor de 200 soles (cerca de US$66) para os melhores alunos da Escola de Ensino Superior de Ayacucho. Eles estão convencidos de que, como artesãos bem sucedidos, é sua responsabilidade ajudar a melhorar as condições de vida dos outros.

O fato de que recebem um tratamento igual e humano como produtores e são considerados mais como parceiros do que fornecedores tem servido de inspiração para os artesãos que trabalham com a Manos Amigas. Muitas pessoas sentem-se inspiradas como resultado direto das ações da empresa e adotam práticas semelhantes na sua comunidade ou nas suas próprias oficinas.