Construindo a paz entre grupos religiosos

Grupo de discussão inter-religiosa, Nepal. Joe Campbell
Grupo de discussão inter-religiosa, Nepal. Joe Campbell

Joe Campbell.

O preconceito entre diferentes grupos é o início do que pode se transformar em séria divisão, conflito e, muitas vezes, violência. Ambos os lados se sentem mal compreendidos e isolados um pelo outro. Ambos se sentem mais à vontade entre a “sua própria gente”. Este é um solo fértil para que pessoas com pontos de vista radicais espalhem boatos e criem medo.

Numa cidade no leste do Nepal, um grupo de líderes religiosos locais que representam as cinco diferentes religiões presentes na cidade decidiu que havia chegado a hora de agir. Eles não deixariam mais que as pessoas com pontos de vista radicais definissem o rumo das relações comunitárias. Os ataques e os contra-ataques já tinham ido longe demais.

Os líderes formaram um grupo inter-religioso para a paz. Este não era um grupo para promover o culto inter-religioso ou para fundir as diferentes religiões umas nas outras. Não, este grupo concordou em agir e trabalhar pela paz. Eles decidiram se concentrar nos danos causados à comunidade ao invés de nas pessoas más que estavam fazendo coisas más. Eles queriam construir uma comunidade pacífica, que mostrasse tolerância e respeito por todos aqueles que chamavam a cidade de lar.

Foram necessários vários meses para obter o envolvimento de todos os grupos religiosos porque as pessoas não conheciam ou confiavam nas pessoas de grupos diferentes. Apesar de viverem na mesma cidade, muitas vezes, estes líderes religiosos nunca haviam se encontrado realmente. Eles e sua gente viviam vidas paralelas, com pouco ou nenhum contato entre si. Dentro da sua cidade, eles estavam se distanciando.

Começando a aprender

Com apoio contínuo e a orientação dos funcionários da United Mission to Nepal, a confiança lentamente começou a aumentar. Os líderes aprenderam que todas as religiões possuíam ensinamentos significativos sobre a paz e o relacionamento com os outros e perceberam que estas verdades nunca haviam sido realmente ensinadas às pessoas. Eles aprenderam sobre as práticas e as festividades religiosas uns dos outros e tiveram oportunidades de fazer perguntas: perguntas com o objetivo de aprender e não perguntas com o objetivo de prejudicar as outras religiões.

Cada líder, por sua vez, precisava garantir a seus amigos e familiares no seu próprio grupo religioso que eles não estavam “diluindo” ou mudando sua religião. De tempos em tempos, cada um deles era convidado a trazer outras pessoas do seu grupo religioso para expandir a conversa e ampliar a influência do grupo. Eles receberam treinamento em habilidades de mediação e negociação. E o mais importante: foi dado tempo para desenvolver a segurança e a confiança do grupo.

Agindo juntos  

Com o tempo, foram estabelecidas relações no grupo inter-religioso, e a confiança e o respeito foram restaurados. Havia chegado o momento certo para iniciar a ação pela paz. Os líderes religiosos trabalharam juntos em projetos organizando assembléias e desfiles para celebrar o dia internacional da paz e a assinatura do acordo de paz do Nepal. Eles produziram cartazes e folhetos inter-religiosos para serem usados em contextos escolares e comunitários. Eles usaram toda e qualquer oportunidade para serem vistos juntos e não tinham vergonha dos seus novos amigos. Por exemplo, cristãos visitaram escolas muçulmanas, e muçulmanos visitaram escolas hindus distribuindo e explicando o cartaz que haviam criado juntos.

Agora, o objetivo deles é manter e promover estas relações e permitir que elas se tornem parte da vida da comunidade. Não é iniciar um bom trabalho, mas dar continuidade a ele que traz bons resultados. Os líderes religiosos esperam que, com o passar do tempo, a violência diminua e as pessoas se sintam mais à vontade vivendo perto umas das outras, compreendendo e, ocasionalmente, até participando das festividades e dos feriados das outras. Está sendo estabelecida uma comunidade em que cada grupo religioso sente o respeito e o reconhecimento dos outros. O objetivo dos líderes é que os medos e a conversa negativa sobre grupos minoritários se tornem algo do passado.

O desafio

A maioria de nós preferiria não se envolver em grupos inter-religiosos. Damos desculpas e, às vezes, agimos e nos comportamos como se acreditássemos em todos os rumores e preconceitos. Contudo, em nosso coração, sabemos que não é assim que Deus quer que o nosso mundo seja. Quando nos comportamos com respeito e amor em relação ao próximo, ao que é de fora, o amor consegue ir além de nós mesmos e levar a cura e a esperança a pessoas presas num ciclo de medo e violência. Jesus realmente disse, “amem os seus inimigos” – e ele próprio o praticava.

Joe Campbell trabalha ativamente em relações comunitárias e na construção da paz há mais de 25 anos. Ele é da Irlanda do Norte e trabalhou com líderes e comunidades divididas na Irlanda do Norte, na Inglaterra, nos Bálcãs, no Oriente Médio, bem como, mais recentemente, no Nepal, com a United Mission to Nepal.

Atividades de construção da paz

 
  • Num povoado ou cidade em que a religião esteja sendo usada como motivo de divisão, crie um pequeno grupo inter-religioso para a paz. Escolha duas pessoas de cada religião que sejam reconhecidas e respeitadas pelo seu grupo. Comece somente depois que todas as religiões estiverem adequadamente representadas. Explique que não se trata de devoção inter-religiosa ou de se chegar a um meio termo entre as principais crenças dos grupos. Trata-se de ação para alcançar a paz e desenvolver a confiança dentro do povoado ou cidade. 
  • Num encontro inter-religioso, peça a cada grupo para colocar em folhas de papel separadas o que eles sabem e acreditam sobre cada um dos outros grupos. Quando todos tiverem terminado, cada grupo faz uma pequena apresentação ao grande grupo. Isto pode ser divertido e engraçado, pois o grupo que estiver sendo descrito pode corrigir os enganos e mal-entendidos dos outros. Todos aprendem com isto. Reserve bastante tempo para este exercício, pois ele não deve ser feito às pressas. 
  • Organize uma série de visitas de aprendizagem aos diferentes centros de culto, talvez, uma visita a cada duas semanas. O grupo que recebe a visita pode explicar símbolos importantes, festividades, formas de culto e outros detalhes. Os convidados podem fazer perguntas para obter informações e compreender. 
  • No trabalho ou em projetos de desenvolvimento, dedique tempo e esforço para incluir grupos minoritários diferentes da sua região. Envolva-os desde o início e peça sua opinião e seus conselhos com seriedade. 
  • Olhe sempre para fora do grupo para ver como vocês podem servir a comunidade local juntos. Trabalhar num projeto pode dar um exemplo para a comunidade inteira. 

Você precisará… 

  • acreditar que as pessoas mudam 
  • de coragem para abordar e criar relações com pessoas com pontos de vista radicais 
  • aceitar conselhos e consultar muitas pessoas 
  • concentrar-se nos danos causados à comunidade, ao invés de nas “pessoas más” 
  • estar preparado para construir o longo caminho para a paz 

O cartaz criado pelo grupo inter-religioso do Nepal. O título em branco diz “Não-violência e paz”.
O cartaz criado pelo grupo inter-religioso do Nepal. O título em branco diz “Não-violência e paz”.



Remendando a brecha – um diagrama de construção da paz