Da República Democrática do Congo ao Reino Unido: Treinamento em resolução de conflitos e educação para a paz

Participantes reunidos após uma sessão de treinamento no território de Beni, na República Democrática do Congo. Foto: Ben Mussanzi wa Mussangu
Participantes reunidos após uma sessão de treinamento no território de Beni, na República Democrática do Congo. Foto: Ben Mussanzi wa Mussangu

Ben Mussanzi wa Mussangu

O Centre Resolution Conflicts (CRC) é um centro de treinamento sobre construção da paz e resolução de conflitos liderado pela comunidade, fundado na República Democrática do Congo, em 1993. Ele agora tem duas filiais, uma que trabalha nas condições arriscadas de segurança de Ituri e Kivu do Norte, no leste da República Democrática do Congo, e outra, no ambiente relativamente pacífico de Bradford, no Reino Unido. O principal foco do trabalho do CRC é o treinamento em resolução de conflitos e educação para a paz, porém, na República Democrática do Congo, o centro também trabalha recuperando crianças-soldados.

Realizamos oficinas de treinamento que abordam diferentes aspectos da resolução e prevenção de conflitos, incluindo os seguintes tópicos: “como as pessoas respondem ao conflito”, “como reduzir o preconceito”, etc. Entretanto, os tópicos variam dependendo do contexto e se a época é de conflito ou de paz. Na República Democrática do Congo, examinamos tópicos práticos, como, por exemplo, hospitalidade para os repatriados, eleições democráticas e transparentes e a reintegração de ex-crianças-soldados. O principal impacto das sessões de treinamento do CRC na República Democrática do Congo é a resolução de conflitos intercomunitários. 

Usamos um modelo de mediação que chamamos de “mediação baseada na facilitação”. Convidamos ambas as partes do conflito para uma sessão de treinamento. Durante o treinamento, muitos se dão conta de que cometeram injustiças e pedem perdão aos outros. Às vezes, quando realizamos oficinas de treinamento para líderes de igrejas ou estudantes de escolas cristãs de ensino superior, os participantes pedem uma sessão especial com foco no perdão e na reconciliação com os vizinhos.

Trabalho desafiador

Nosso trabalho tem seus desafios tanto para os participantes quanto para os treinadores. O primeiro desafio é garantir que os participantes ponham em prática o que aprenderam nas oficinas de treinamento. As pessoas que vêm para receber treinamento frequentemente são Pessoas Internamente Deslocadas (PID) que sofreram trauma, perderam todos os seus pertences e atualmente vivem sem alimento suficiente. É difìcil para elas se concentrarem na aprendizagem, pois estão preocupadas com o futuro. O segundo desafio é proporcionar boas condições para as oficinas de treinamento, inclusive lanches e algum dinheiro para pagar o transporte e o alojamento dos participantes. Porém, tanto na República Democrática do Congo quanto no Reino Unido, os participantes e os treinadores beneficiaram-se com o treinamento. Os participantes desenvolvem habilidades de resolução de conflitos. Os treinadores e os apresentadores de rádio também se beneficiam porque precisam aprender para transmitir esses conhecimentos, e isso os ajuda a crescer.

Pacificadores locais

Após a oficina de treinamento, os participantes escolhem membros para um Comitê Local da Paz (CLP). O modelo do CLP é a essência da visão do CRC. O comitê é formado por sete pessoas (inspirado pela história de Atos 6): um líder, um secretário e conselheiros. Eles não cobram pelo seu aconselhamento. Quando os treinadores do CRC deixam um povoado, o CLP assume o trabalho de resolução de conflitos e ajuda a gerir qualquer novo conflito na área. Isso permite que o CRC possa ir para outros povoados e prestar apoio somente onde houver maior necessidade.

O CRC também auxilia os participantes oferecendo aconselhamento jurídico para aqueles que precisam. Em muitos casos, uma das partes de um conflito quer recorrer ao tribunal, mas frequentemente se desaponta com o sistema de justiça. Os CLPs podem ajudar oferecendo mediação entre as duas partes.

A ideia de estabelecer o CRC no Reino Unido surgiu após os atentados terroristas a bomba em Londres, em julho de 2005, quando percebemos que havia jovens vulneráveis envolvidos nesse triste evento. Nós nos comprometemos em contribuir para a paz focando na educação de jovens, bem como ajudando requerentes de asilo e migrantes a se integrarem na sociedade.

Paz nas ondas de rádio

Um dos nossos projetos de maior sucesso é o programa de rádio “Música da Paz”, criado pelo CRC em Bradford. A ideia é usar a música como ferramenta para transmitir nossa mensagem de paz para a nossa cidade, mas também estamos alcançado o mundo pela Internet. Não escrevemos nossa própria música porque já existe muita música boa! Ao invés disso, somos como “chefs” de restaurante. Os chefs não precisam ser agricultores: eles simplesmente vão ao mercado e compram alimentos para preparar uma boa refeição para ser apreciada pelos clientes. Porém, junto com a música, transmitimos mensagens educativas. As pessoas podem escutar o programa na Internet. Recebemos feedback positivo de partes do mundo onde nunca estivemos e às quais talvez nunca cheguemos a ir!

Na República Democrática do Congo, temos dois programas de rádio chamados “Na escola da sabedoria” e “Paz e desenvolvimento”. O segundo programa apresenta entrevistas com convidados especiais, que falam sobre questões de desenvolvimento, como, por exemplo, segurança, alimentação saudável, etc.

O conflito pode parecer ser diferente na República Democrática do Congo ou no Reino Unido, mas os princípios para resolvê-lo são os mesmos. É necessário ter determinação, perdoar, ouvir e compreender, mas somos abençoados quando participamos da pacificação do mundo em que vivemos.

Ben Mussanzi wa Mussangu, o fundador do CRC, quase foi morto na República Democrática do Congo por crianças-soldados do seu próprio grupo étnico. Após ser libertado milagrosamente, ele cofundou o CRC em 1993, com sua esposa Kongosi. Hoje, 20 anos mais tarde, o CRC trabalha em contínua instabilidade no leste da República Democrática do Congo e em Bradford, no Reino Unido. Agradecemos aos membros do CRC de Beni e de Bradford por sua valiosa contribuição. Para obter mais informações sobre o CRC, visite www.cr-conflict.orgwww.centreresolutionconflits.org


Estudo de caso

Num dos parques nacionais do Território de Lubero, reservado para gorilas, as comunidades vizinhas e os gestores do parque têm uma relação tensa. A MONUSCO (Missão da Organização das Nações Unidas para a Estabilização da República Democrática do Congo) reconheceu que essa era uma situação complexa e pediu a expertise do CRC. Após várias sessões de mediação com base no modelo de facilitação, o CRC conseguiu resolver o conflito. Foi surpreendente ver os dois lados que haviam estado em conflito sentados juntos ao redor de uma mesa assinando um acordo de paz, publicamente desistindo dos pensamentos de vingança e, ao invés disso, resolvendo o conflito com seus antigos adversários.


Conselhos para iniciar um programa de treinamento sobre a resolução de conflitos

O conflito faz parte da nossa vida terrena, mas queremos trazer união, paz, harmonia e coesão para as nossas comunidades.

Para as pessoas que se sentem inspiradas a iniciar da estaca zero, como nós mesmos fizemos, e buscar o sonho de alcançar mudanças para suas comunidades, oferecemos os seguintes conselhos:

  • Descubra quais são as necessidades da comunidade local em termos de resolução de conflitos. 
  • Escolha uma abordagem ou um estilo de resolução de conflitos adequado para você, como treinador, e que beneficie sua comunidade (por exemplo, mediação intercomunitária direta, modelo de mediação através da facilitação, alternativas para a violência, etc.). Há mais de uma maneira de ser bem-sucedido.
  • Recrute e selecione treinadores.
  • Comece com as definições mais simples no seu treinamento.
  • Concentre-se nas coisas essenciais ao invés de fornecer informações demais aos participantes numa só sessão. 
  • Lembre-se do que é chamado de “princípio de três pilares”:
    1. Muitas pessoas podem reservar vagas, mas as pessoas certas comparecerão.
    2. Comece quando sentir que os participantes estão prontos para começar.
    3. Pare quando sentir que eles estão cansados.

  • Se possível, forneça apostilas bem simples.
  • Lembre-se de que as pessoas à sua volta podem não compreender a sua visão ou podem tratá-lo com hostilidade.