Eleições pacíficas para todos

Pessoas votando numa mesa eleitoral na Tanzânia. Foto: Louise Thomas/Tearfund
Pessoas votando numa mesa eleitoral na Tanzânia. Foto: Louise Thomas/Tearfund

As eleições para a escolha de representantes e líderes são uma forma de as pessoas se fazerem ouvir. Um sistema democrático permite que diferentes pontos de vista sejam debatidos num parlamento e evita que opositores tentem alcançar seus objetivos pela força.

Infelizmente, nos últimos anos, houve muita violência tanto antes quanto após as eleições. Os tumultos e confrontos geralmente ocorriam quando as pessoas que tinham votado nos partidos perdedores achavam que o processo eleitoral havia sido injusto. As acusações de fraude eleitoral eram frequentes, e os boatos espalhavam-se causando reações entre as pessoas reunidas para ouvir os resultados.

Vários parceiros da Tearfund trabalharam com o fim de prevenir a violência na época das eleições. A maior parte desse trabalho concentrou-se na promoção da paz antes das eleições, trabalhando com líderes de igrejas, ativistas políticos e eleitores a fim de criar um ambiente positivo e seguro. O trabalho realizado pelo Reverendo Domnic Misolo, no Quênia, obteve resultados nas eleições bastante pacíficas de 2013. Até o fechamento desta edição, as eleições ainda não haviam ocorrido no Zimbábue, mas Blessing Makwara nos conta como as igrejas estão trabalhando juntas e se preparando para o período eleitoral no seu país.

“Mesa eleitoral” Foto: Margaret Chandler/Tearfund
“Mesa eleitoral” Foto: Margaret Chandler/Tearfund

Estudo de caso – Zimbábue

As eleições de 2008 no Zimbábue foram seguidas de distúrbios inesperados e sangrentos.

A Igreja foi criticada por não fazer o suficiente para proteger as pessoas vulneráveis. A violência provocou medo generalizado, trauma, retirada e depressão coletiva, além de deixar ressentimento, frustração e sede de vingança em parte da população. A menos que seja feita justiça para as pessoas envolvidas na violência, a raiva e o desejo de vingança podem criar as condições necessárias para uma futura explosão. O atual período transitório, sob o Governo de Unidade Nacional (Government of National Unity – GNU), no Zimbábue, oferece oportunidades para que a Igreja desempenhe um papel fundamental manifestando-se em prol da paz, da justiça, da recuperação e da reconciliação, bem como facilitando a reabilitação do país.

A Iniciativa Ecumênica de Observação da Paz no Zimbábue (Ecumenical Peace Observation Initiative in Zimbabwe – EPOIZ), concentra-se em centralizar a educação, a mudança cultural e a espiritualidade em todas as tentativas genuínas de tornar a paz uma realidade na vida diária. A EPOIZ é um projeto da plataforma Chefes de Denominações Cristãs do Zimbábue (Zimbabwe Heads of Christian Denominations – ZHOCD), que reúne quatro associações religiosas: Associação Evangélica do Zimbábue (Evangelical Fellowship of Zimbabwe – EFZ), Conferência de Bispos Católicos do Zimbábue (Zimbabwe Catholic Bishops’ Conference – ZCBC), Conselho de Igrejas do Zimbábue (Zimbabwe Council of Churches – ZCC) e União para o Desenvolvimento da Igreja Apostólica no Zimbábue, África (Union for the Development of the Apostolic Church in Zimbabwe, Africa – UDACIZA). As igrejas também são fortalecidas através do apoio de parceiros internacionais de longas datas de dentro da Rede Ecumênica do Zimbábue (Ecumenical Zimbabwe Network – EZN) e de redes ecumênicas regionais e globais.

A principal meta da iniciativa é promover e proteger uma cultura de paz duradoura no Zimbábue e facilitar a recuperação e a reconciliação nacional. Enquanto membros do projeto EPOIZ, as igrejas comprometem-se especificamente a se manifestarem e trabalharem juntas na monitoração e no combate à violência e aos abusos dos direitos humanos.

Através do projeto EPOIZ, a Igreja emprega as seguintes estratégias e ações voltadas para a promoção, a construção, e manutenção da paz:

  • Promoção de diálogo e envolvimento estratégico com as principais partes interessadas;
  • Conscientização e comícios e encontros educativos;
  • Monitoração de ações, processos e declarações dos partidos políticos, da mídia e do governo relativos à paz no longo prazo;
  • Visitas pastorais e de solidariedade a áreas afetadas pela violência e envolvimento com a polícia e os líderes locais dessas áreas;
  • Promoção da participação pacífica das pessoas nos processos eleitorais;
  • Envolvimento dos principais membros da comunidade regional e internacional para promover a paz no Zimbábue.

Oramos para que, através dessas e de várias outras atividades com as quais estamos comprometidos, consigamos reduzir a violência antes, durante e depois das eleições, construindo a base de uma nova cultura de paz e justiça. A Igreja é a única instituição no Zimbábue que reúne pessoas de todas as camadas sociais, serve de consciência para a nação e ainda é valorizada pela sociedade tanto como pacificadora quanto autoridade moral.

Escrito por Blessing Makwara, Responsável Sênior de Programas da Associação Evangélica do Zimbábue (Evangelical Fellowship of Zimbabwe – EFZ).

Estudo de caso – Quênia

Enquanto nação, o Quênia é uma sociedade multiétnica, com mais de 41 tribos. A situação política é complexa, com vários interesses tribais, favoritismo e corrupção generalizada, causando tensão, a qual frequentemente se transformava em violência na época das eleições. 

Após as eleições gerais de 2007/2008, houve várias alegações de grave fraude eleitoral e corrupção. Muitas pessoas contestaram o resultado. Cerca de 1.300 pessoas foram mortas na violência interétnica que se seguiu, e mais de 500.000 pessoas foram deslocadas. Ocorreram também estupros, saques e incêndios premeditados. Essa foi uma época de trevas para o Quênia.

Nossa organização, a Fundação Ekklesia para a Educação sobre o Gênero (Ekklesia Foundation for Gender Education – EFOGE), é uma organização não governamental registrada no Quênia que trabalha pela justiça e igualdade de gênero na África. Inspirado por outras organizações que realizam um trabalho semelhante em outros lugares, decidi que deveríamos fazer, nós mesmos, a diferença. O que mais me inspirou foi a ideia de, um dia, termos uma eleição pacífica e democrática no Quênia, capaz de manter a paz no longo prazo. 

Como trabalho frequentemente com líderes de comunidades e de igrejas locais, sei que eles estão bem posicionados para influenciar e educar as comunidades sobre eleições pacíficas e coexistência. Com o incentivo de outras pessoas, conversei sobre as minhas ideias com o Reverendíssimo Bispo da Diocese Anglicana de Bondo, Johannes Angela. Em parceria, conseguimos realizar um curso bem-sucedido de treinamento, com duração de uma semana, sobre educação cívica e liderança. Recebemos mais de 160 líderes de igrejas e comunidades, bem como vários candidatos políticos, para discutir sobre como manter a paz durante as eleições. Abordamos tópicos específicos, como liderança e as eleições gerais quenianas, democracia e o domínio da lei, devolução de poder e a nova constituição, etc.

Esse trabalho teve seus desafios. Precisei de coragem para falar sobre eleições pacíficas, pois, às vezes, nossa vida corria perigo. Nem sempre as pessoas entendiam o que estávamos tentando fazer. Algumas pensaram que queríamos convencê-las a não votarem num candidato em particular, mas, na verdade, estávamos falando sobre aceitar os resultados e seguirmos adiante como uma só nação e um só povo. Explicamos às pessoas que todos nós precisávamos confiar na estrutura jurídica da nova constituição. Outras pensaram que íamos impedir a liberdade de expressão se as eleições fossem contestadas. Foi difícil captar verbas para o curso de treinamento, mas elas foram providenciadas pelo Bispo de Bondo e pelo Conselho Mundial de Igrejas.

Em termos gerais, tivemos uma eleição muito pacífica na nossa região, em que os líderes pediram aos jovens para que não tomassem partidos e não provocassem as emoções das pessoas espalhando boatos de trapaça e fraude eleitoral. Apesar de o resultado não ter sido agradável para a maioria das pessoas da minha região e de uma petição ter sido apresentada ao Supremo Tribunal contestando os resultados, houve paciência, pois as pessoas confiaram no processo jurídico. Foram denunciados casos de trapaça e fraude, mas as pessoas permaneceram pacíficas e deixaram o tribunal dar seu veredicto. A decisão final não foi popular, mas a maioria das pessoas aceitou o veredicto do tribunal.

Aconselho outras pessoas a se envolverem nesse tipo de trabalho, pois acredito que os líderes de igrejas têm um papel vital a desempenhar no que diz respeito a alcançar a paz e pregar a democracia em países como o meu.

Escrito pelo Reverendo Domnic Misolo, fundador da EFOGE e membro do programa Indivíduos Inspirados (Inspired Individuals), da Tearfund, www.inspiredindividuals.org