Violência sexual em zonas de conflito

Foto: Chris Boyd/Tearfund
Foto: Chris Boyd/Tearfund

A violência assume várias formas em situações de conflito. Uma área sobre a qual é difícil falar abertamente é a violência sexual. Contudo, por todo o mundo, milhares de pessoas, na maioria mulheres e crianças, mas também homens e meninos, sofrem ataques que deixam cicatrizes profundas, tanto física quanto psicologicamente.

A violência sexual acarreta danos físicos, humilhação e trauma psicológico. Ela destrói famílias e comunidades e pode resultar em gravidez indesejada, deficiência de longo prazo, doenças transmitidas sexualmente e até mesmo a morte.

O estupro e outras formas de violência sexual são formas de abuso de poder e controle sobre pessoas mais vulneráveis. A sociedade pode culpar os sobreviventes da violência sexual, mas eles não são os responsáveis. Contudo, a maioria dos sobreviventes nunca obtém justiça e tem dificuldade em acessar assistência médica, psicológica e econômica. Pode-se evitar uma violência ainda maior através da proteção das pessoas mais vulneráveis da sociedade. As comunidades também podem auxiliar os sobreviventes no acesso à justiça e ao atendimento médico. Os incidentes de violência sexual podem ser denunciados nas delegacias de polícia (especialmente se houver um serviço dedicado a questões de gênero) ou nas agências das Nações Unidas, através dos pontos focais para a violência baseada no gênero.

A desigualdade de gênero é tanto uma causa quanto uma consequência da violência contra as mulheres. Tratar uma pessoa como se ela fosse diferente de nós, como o “outro”, com menos valor do que nós, pode fomentar o conflito e a violência. Porém, a Bíblia nos ensina que tanto os homens quanto as mulheres são feitos à imagem de Deus e que ambos foram encarregados por Ele de serem corresponsáveis pelo domínio da criação (Gênesis 1: 27-28). Precisamos retornar ao plano original de Deus e restaurar relações entre os homens e as mulheres conforme a vontade original de Deus.

Atitudes e ação da Igreja

Mudar as atitudes quanto à violência sexual leva muito tempo, mas a Igreja pode desempenhar um papel crucial nesse processo. Os estudos bíblicos, os sermões e os materiais didáticos podem mudar as atitudes das pessoas em relação tanto às vítimas quanto aos perpetradores. São necessárias igrejas que cuidem, apoiem e ouçam as vítimas. Através de parcerias, elas podem ajudar a oferecer assistência médica, psicológica ou financeira aos sobreviventes.

A Igreja também pode se manifestar em todos os âmbitos (local e nacional) a fim de trazer a questão à tona. Se os líderes das igrejas tiverem coragem de falar sobre a violência sexual, eles influenciarão pessoas dentro e fora da comunidade cristã.

As igrejas nem sempre foram locais que recebem bem os sobreviventes da violência sexual, às vezes, reforçando a vergonha que as vítimas frequentemente sentem. Quando isso acontece, o arrependimento e o perdão se fazem necessários. 

Iniciativas e recursos

  • We Will Speak Out é uma coligação cristã global comprometida em combater a violência sexual em todas as comunidades ao redor do mundo (www.wewillspeakout.org ou We Will Speak Out, 100 Church Road, Teddington, Middlesex, TW11 8QE, Reino Unido).
  • Restored é uma aliança cristã internacional que procura transformar relações e combater a violência contra as mulheres (www.restoredrelationships.org).
Com o nosso agradecimento a Aneeta Williams, Amanda Marshall e Sarah Reilly.

Estudo de caso

No leste da República Democrática do Congo, a Comunidade Batista no Centro da África (Communauté Baptiste au Centre de l’Afrique – CBCA) leva a questão da violência sexual de forma extremamente séria, particularmente quando as vítimas são crianças. A Igreja mobilizou seus membros e os professores, os alunos e os pais das suas escolas ligadas a igrejas para se tornarem atores fundamentais na luta contra a violência sexual.

A CBCA organizou uma oficina de treinamento de cinco dias para 40 dos seus funcionários da área de educação. Foram usados materiais desenvolvidos pela campanha Tamar, da África do Sul, para auxiliar a discussão sobre um caso chocante de estupro na Bíblia (2 Samuel 13). Isso permitiu que os participantes refletissem sobre o silenciamento das mulheres que foram estupradas, questões culturais em torno do estupro dentro das comunidades e a dificuldade de obter justiça.

Em resposta, os participantes decidiram que a maior necessidade era confrontar a compreensão atual dos membros das igrejas sobre a violência sexual. Eles escreveram uma declaração pedindo às autoridades da Igreja e do governo para que se manifestassem sobre a violência sexual e desenvolvessem políticas para lidar com a questão nas escolas. Algumas semanas após a oficina de treinamento, as palavras foram transformadas em ação. O Bispo da CBCA anunciou a formação de um grupo de alto nível para lidar com questões de violência sexual voltado para as escolas ligadas a igrejas. Em várias áreas, os professores beneficiaram-se com as oficinas e o treinamento sobre habilidades para a vida e a educação sobre a violência sexual.

Adaptado a partir de Silent No More, um relatório da Tearfund (2011) que pode ser baixado em: www.tearfund.org/tilz/silentnomore