Como superar desafios no Saneamento Total Liderado pela Comunidade

Por Munyaradzi Charuka

É amplamente reconhecido que o sucesso de um processo de Saneamento Total Liderado pela Comunidade (STLC) depende principalmente das habilidades do facilitador. Isso se deve ao fato de que, na maioria das culturas, a defecação é considerada uma atividade privada e pessoal, que não deve ser discutida em público. Os facilitadores ajudam a comunidade a ver e compreender os efeitos da defecação ao ar livre e mobilizam a comunidade para debatê-la e agir em conjunto.

Homem construindo uma latrina na Província de Badakhshan, Afeganistão. Foto: Bruce Clark/Tearfund
Homem construindo uma latrina na Província de Badakhshan, Afeganistão. Foto: Bruce Clark/Tearfund

Como introduzir a ideia aos facilitadores 

A principal dificuldade que encontrei com a facilitação é a resistência dos funcionários do projeto em adotar o STLC como uma nova abordagem para o saneamento. A justificativa frequentemente é que as pessoas são pobres, e é uma falta de sensibilidade por parte da organização esperar que elas construam latrinas com seus próprios recursos. Esse é o primeiro obstáculo a ser superado. 

Os funcionários do projeto também temem perder seu senso de propósito, ou até mesmo seu emprego, especialmente se a organização anteriormente ajudou os beneficiários com subsídios para kits de latrinas. Aceitar a nova meta, “Número de povoados declarados Sem Defecação ao Ar Livre”, ao invés da meta anterior, “Número de latrinas construídas”, pode ser difícil para muitos funcionários de projetos

Oportunidades para conversar com a comunidade 

Uma forma de superar as dificuldades na facilitação nas comunidades é criar relações com as pessoas e encontrar oportunidades potenciais para conversar sobre a defecação ao ar livre. Por exemplo, em Zimbábue, um facilitador comentou com alguns homens que conhecia as nádegas das esposas deles. A reação imediata foi de espanto e fúria. “Como?”, os homens perguntaram. O facilitador comunitário explicou que via as nádegas das mulheres quando elas levantavam o vestido para defecar no mato. Os homens entenderam o recado e resolveram construir latrinas em suas propriedades.

Em Zimbábue, durante o Natal, as pessoas que vivem em zonas urbanas visitam os pais e parentes nas zonas rurais, frequentemente em carros sofisticados, vestindo roupas elegantes e mostrando claramente ter dinheiro. Lembro-me de uma facilitadora comunitária falar para as pessoas, numa festa de Natal, que os que vêm das zonas urbanas têm banheiros modernos dentro de casa, mas, nas suas propriedades rurais, não têm nem sequer uma simples latrina. Ela então estimulou as pessoas das zonas urbanas a construir latrinas tanto nas suas propriedades rurais quanto para seus pais, pois era mais barato do que os vinte litros de gasolina que gastavam com a viagem de ida e volta. Ela usou a oportunidade que surgiu para transmitir a mensagem, e realmente houve mudança, pois os parentes que viviam nas cidades começaram a construir latrinas em suas casas rurais e nas de seus pais.

No Afeganistão, a Tearfund incentivou os funcionários dos projetos a mobilizar pessoas para se ajudarem no STLC com base na prática muçulmana de Zakat, em que aqueles que têm condições financeiras cuidam dos menos afortunados. Isso funcionou muito bem.

Inclusão de todos

No Afeganistão, os meninos e os homens participaram do processo público de STLC, enquanto as facilitadoras trabalharam com as mulheres através de visitas domiciliares. 

Isso é importante, porque, por motivos de religião e cultura, as mulheres não falam em locais onde há homens aceitos como chefes de família e que, portanto, tomam as decisões importantes. Porém, se as mulheres não forem ouvidas, suas preocupações, medos e ideias progressistas não serão conhecidos. Lembro-me de que, em Jawzjan, uma das nossas facilitadoras ouviu mulheres que ela havia conhecido durante o processo de STLC dizerem que os homens praticavam a defecação ao ar livre mais do que as mulheres. Se houvesse homens presentes, elas não teriam dito isso.

Outro motivo para separar os homens das mulheres é que o STLC incentiva as pessoas a falar sobre as práticas de defecação com palavras mais vulgares, ao invés de palavras polidas. Nesse contexto, essas palavras não podem ser usadas quando há homens e mulheres no mesmo grupo.

Trabalho com o governo

No Afeganistão, a oposição contra o STLC veio de altos funcionários do governo da Província de Kandahar. Eles argumentavam que o governo era quem devia construir latrinas públicas e domésticas para as pessoas, e que transmitir mensagens de saúde e higiene sobre lavar as mãos com sabão não valia a pena, pois os muçulmanos já lavam as mãos cinco vezes por dia como parte de suas orações religiosas. Consequentemente, o projeto foi interrompido pelos funcionários governamentais. 

No final, percebemos que eles não haviam entendido o conceito de STLC. Embora tivéssemos investido no treinamento de funcionários governamentais de extensão, aprendemos que deveríamos igualmente ter investido recursos para educar os funcionários governamentais sobre o STLC por um dia inteiro. Aprendemos que é importante comunicarmo-nos com os altos funcionários governamentais e trabalhar com sua bênção. 

Munyaradzi Charuka é o Assessor Itinerante de WASH (sigla inglesa de Água, Saneamento e Higiene) da Tearfund.

Adoption of CLTS (Adoção do STLC) e outros recursos sobre STLC da Tearfund podem ser encontrados no site TILZ: http://tilz.tearfund.org/en/themes/themes/water_sanitation_and_hygiene_-_wash


O que é o Saneamento Total Liderado pela Comunidade?

O STLC incentiva as pessoas a usar os recursos disponíveis em sua comunidade para construir latrinas, mas reconhece que enterrar as fezes pode ser um ponto de partida, se a família não puder construir uma latrina. O importante é que todos na comunidade concordem em evitar que as fezes acabem no meio ambiente e decidam tornar sua comunidade um local “Sem Defecação ao Ar Livre”.

O conceito e o processo do STLC foram descritos na Passo a Passo 73. Informações mais detalhadas podem ser encontradas na seção de água e saneamento do site TILZ e em www.communityledtotalsanitation.org

Munyaradzi Charuka