Da: Passo a Passo 67

Como os moradores de favelas estão transformando suas próprias comunidades

Mestin Shuge é o líder de uma equipe de dez funcionários na Igreja Kale Heywet (KHC), na Etiópia. O departamento deles é conhecido como um Departamento de Desenvolvimento Urbano Integrado, cujo trabalho tem como alvo as pessoas pobres, e eles trabalham em quatro cidades no momento: Nazaré, Awassa, Addis Ababa e Jimma.

A abordagem do Departamento de Desenvolvimento Urbano Integrado foi experimentada pela primeira vez em Nazaré, uma cidade ao norte de Addis Ababa, com muitas pessoas desempregadas e crianças de rua. Dois assistentes sociais começaram a trabalhar nesta cidade em 2002, para melhorar a situação das mulheres desempregadas. Eles começaram com visitas de casa em casa, para entender a natureza e o nível da pobreza, o tamanho médio das familias e o número de viúvas. Depois, eles usaram exercícios participativos para consciencializar as pessoas sobre a situação: entre eles, a dramatização, que reunia a comunidade.

No primeiro ano, foram formados 34 grupos de auto-ajuda de mulheres. Destas, foram selecionadas cinco facilitadoras, que foram treinadas para liderar discussões sobre questões importantes, tais como geração de recursos, planeamento familiar, gestão doméstica, apoio à pessoas com VIH (HIV) e SIDA (AIDS), cuidados com a saúde e prácticas tradicionais prejudiciais. O treinamento consistiu em aulas curtas, de meio dia.

No início, muitas mulheres resistiram em participar. Elas tinham medo de que teriam de ser membros da Igreja Kale Heywet (KHC). Porém, com o tempo, perceberam que não era este o caso. Qualquer um pode participar dos grupos, independentemente da sua origem étnica e religião. A maioria das mulheres dos grupos pertencem à Igreja Ortodoxa ou são muçulmanas. Agora, há 98 grupos de auto-ajuda na cidade, com aproximadamente 20 participantes em cada grupo. O trabalho de rede dos grupos é feito em blocos. Há oito associações em bloco a trabalhar com um máximo de 20 grupos de auto-ajuda cada.

O principal objetivo do trabalho é dar poder às comunidades, concentrando-se nos mais pobres de todos os pobres. Entre os objectivos, estão:

Fundos de empréstimo rotativo

Não há nenhum financiamento externo. Assim, os grupos dependem inteiramente do financiamento angariado pelas participantes, apesar da sua pobreza. Os grupos de auto-ajuda incentivam as participantes a economizarem uma pequena quantia – apenas 50 centavos de dólar, a cada semana. Este dinheiro é usado para criar um fundo de empréstimo para elas. Cada grupo tem a sua própria conta bancária. No início, isto causou problemas, pois todos os grupos tinham de estar registados como organização. Para resolver este problema, foi usado o nome da Igreja Kale Heywet, juntamente com o nome de cada pequeno grupo. Agora, porém, um banco particular concordou em abrir centenas de contas para os grupos. Os fundos crescem com os pequenos depósitos regulares e beneficiam-se com juros bancários. Cada participante possui uma caderneta, e são mantidos registos cuidadosos.

Os grupos de mulheres de Nazaré economizaram um total geral de 280.000 birr (cerca de US$33.000), o qual é usado como fundo rotativo. As mulheres podem fazer empréstimos de 30 a 3.000 birr regularmente. O período de liquidação da dívida é curto, geralmente de apenas quatro meses, para que mais mulheres se beneficiem no mesmo período de tempo. A quantia do empréstimo que elas podem fazer depende da quantia que economizaram. Geralmente, elas podem tirar emprestado entre duas e três vezes a quantia economizada. As associações em bloco gerem e providenciam o dinheiro dos empréstimos.

Os grupos são muito rigorosos com as participantes que faltam a reuniões ou não pagam as suas contribuições. As participantes são muito comprometidas com a liquidação dos seus empréstimos, pois sabem que, se não fizerem os pagamentos, as suas amigas sofrerão. Os laços sociais íntimos refletem-se também nos planos de seguro social que os grupos fizeram. Além da contribuição semanal para os fundos de empréstimo, em Nazaré, as participantes também pagam 25 centavos de dólar para um sistema de seguro social, o qual é usado para ajudar as participantes que se encontram doentes, lesionadas ou com algum outro tipo de dificuldade. A ajuda que o fundo de seguro social dá não precisa ser liquidada.

Avaliação periódica

As associações em bloco avaliam os grupos de auto-ajuda a cada seis meses. É usado um método simples de pontuação, em que as próprias participantes se avaliam com pontos de um a cinco para o seu desempenho, através de perguntas tais como:

As participantes não votam, mas, sim, decidem as resposta de comum acordo.

As mulheres dos grupos de Nazaré descobriram uma nova confiança na sua própria capacidade de melhorar a sua vida e a vida dos seus familiares. Muitas se tornaram membros da comunidade empoderados e autoconfiantes. Foram iniciadas várias actividades de geração de recursos, incluindo a criação (engorde) de gado, a criação de ovelhas, a fabricação de pão, a fiação de algodão e a gestão de pequenas bancas e cafés.

Moradias melhores

Apesar do início modesto, os grupos continuam a se desenvolver. Cada grupo é incentivado a elaborar um plano de cinco anos. Alguns grupos salientaram a necessidade de melhorar as moradias. Foi desenvolvido um plano ambicioso, a “Nova Terra Santa”, num terreno doado à KHC em Nazaré livre de renda (aluguel). Um arquiteto voluntário desenhou projectos para 750 moradias de tijolo de baixo custo, com uma escola primária e secundária, um mercado, um jardim de infância, um posto de saúde e uma área para reuniões comunitárias. Os quarteirões residenciais são projectados com cozinhas, áreas para banhos e latrinas de uso comunitário. Cada moradia de baixo custo tem duas peças. Os membros dos grupos pagarão as suas novas moradias ao longo de cinco anos. O financiamento para as instalações comunitárias está sendo pedido a doadores. O dinheiro ressarcido das moradias permitiria que se iniciasse um outro projecto de construção numa área diferente, baseado num plano semelhante.

Multiplicando o trabalho

Esta abordagem tem sido muito utilizada em três outras cidades da Etiópia: Awassa, Jimma e Addis Ababa. Os grupos de auto-ajuda recém formados são levados para reuniões de conscientização, para conhecerem as participantes de grupos de auto-ajuda já bem estabelecidos, o que geralmente resulta em espanto e rápida transformação. Quando o trabalho começou em Jimma, a KHC obteve uma grande resposta. Depois de dois dias, eles já tinham incentivado a formação de 25 grupos de auto-ajuda. Porém, o administrador (prefeito) ficou muito preocupado e achou que eles queriam tomar o governo da cidade. Assim, ele procurou-os e disse “Saiam da minha cidade e apaguem o fogo que começaram.” Os funcionários foram ameaçados com prisão. Desde então, depois de ver o impacto do trabalho deles noutros lugares, o administrador (prefeito) compreendeu que eles não representavam uma ameaça para a sua posição. Ele convidou-os a retornarem e doou vastos terrenos à KHC para o seu trabalho.

Uma vez que os grupos são formados, procura-se estabelecer bons vínculos com as organizações governamentais, as ONGs, as cooperativas e as igrejas. Isto é importante para se assegurar o desenvolvimento sustentável e eficaz, além de evitar a repetição do trabalho e trazer união. Este trabalho em rede resultou no apoio técnico das organizações governamentais. Outras denominações eclesiásticas também começaram a desempenhar um papel activo no desenvolvimento comunitário.

Mesfin Shunge lidera o DDUI e está fazendo um doutorado em Desenvolvimento Social. O seu endereço é: KHC, PO Box 5829, Addis Ababa, Etiópia E-mail: khc-dgsd@ethionet.et


Estudos de caso

Yezeshewal fugiu de casa por causa do conflito étnico. Ela perdeu todos os seus pertences e fugiu para Nazaré. Ela ofereceu o filho como trabalhador a uma família, para que, assim, pelo menos, ele fosse alimentado. Ela e o outro filho passaram fome intensa. Ela contraiu um problema de olhos sério, mas não podia pagar um médico. Então, ela ouviu falar dos grupos de auto-ajuda. Ela achou que havia sido um milagre ser considerada digna de entrar para o grupo. Ela começou a economizar pequenas quantias e, hoje, possui seis cabeças de gado para engordar, sua visão foi salva e ela pertence a um grupo que cuida dela. Ela diz “Sou uma mulher privilegiada, porque meus laços sociais são fortes e tenho um lugar para falar dos meus sentimentos – inclusive a minha mágoa e a minha tristeza.”


Emebet deixou a sua região de origem com o marido e três filhos devido ao conflito. Um dos filhos morreu enquanto eles estavam num abrigo para refugiados. Ela e o marido trabalharam como operários diários em Nazaré. Mais tarde, Emebet encontrou trabalho como empregada doméstica e entrou para os grupos de auto-ajuda. Ela conversou com o marido sobre como usar o seu primeiro empréstimo. Eles decidiram começar a fazer enjera (o pão local). Com o próximo empréstimo, ela comprou ovelhas para a criação (engordar).

O marido viu isto como um ponto decisivo na sua vida. “Antes, tínhamos de baixar a cabeça para a pobreza. Agora, podemos superá-la,” disse ele. Os seus filhos podem ir à escola, e Emebet está estudando à noite. “Agora sei ler e sou instruída,” diz ela. “Posso falar com meu marido e saber que ele me respeita como igual.” Emebet tem esperanças verdadeiras para o futuro.

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