Melhoria da segurança alimentar

Foto: Gyanu Kumar Shakya/Share and Care Nepal
Foto: Gyanu Kumar Shakya/Share and Care Nepal

Dra. Ruvimbo Mabeza-Chimedza

A segurança alimentar existe quando as pessoas têm alimento básico suficiente o tempo todo para lhes prover calorias e nutrientes a fim de levarem uma vida totalmente produtiva. Quando se pergunta às pessoas pobres qual é a maior prioridade para elas e suas famílias, a resposta geralmente é: alimento. O primeiro Objetivo de Desenvolvimento do Milênio (ODM) é “erradicar a pobreza extrema e a fome”. Este objetivo é essencial para alcançar os outros sete ODMs.

Houve progresso na melhoria da segurança alimentar em alguns países, em termos globais. Entretanto, a situação ainda é grave em alguns países, especialmente na África Subsaariana e na Ásia Meridional. Embora a pobreza seja a principal causa da insegurança alimentar no mundo, existem questões específicas que tornam as pessoas pobres ainda mais vulneráveis. Entre elas, estão:

  • a mudança climática
  • HIV
  • conflito
  • má governança política e econômica.

Os quatro pilares da segurança alimentar

O conceito de segurança alimentar pode ser dividido em quatro áreas principais:

  • disponibilidade de alimento
  • acesso ao alimento
  • qualidade e valor nutritivo do alimento
  • estabilidade na provisão de alimento.

Os governos e as organizações de desenvolvimento que desejam melhorar a segurança alimentar devem considerar a possibilidade de realizar atividades em todas estas áreas.

DISPONIBILIDADE DE ALIMENTO

É essencial que as pessoas tenham alimento suficiente disponível para a sua sobrevivência. Freqüentemente não há terra suficiente disponível para prover alimento para os habitantes locais. Isto ocorre, em parte, porque a terra está sendo usada para beneficiar as pessoas dos países do hemisfério Norte, como, por exemplo, para cultivar alimentos, forragem ou biocombustível. Quando não há alimento suficiente disponível, este precisa ser importado. Em algumas situações muito difíceis, as pessoas dependem de assistência alimentar.

ACESSO AO ALIMENTO

Às vezes, as pessoas não têm acesso a alimento mesmo quando este está disponível no país. Este é um problema específico das famílias pobres sem acesso a terra. Há dois aspectos importantes do acesso ao alimento:

  • Acesso econômico As pessoas precisam ter dinheiro para comprar alimento e insumos agrícolas. Os preços dos alimentos também afetam a capacidade das pessoas de comprá-los. Os preços dos alimentos são influenciados por fatores locais e globais, inclusive o impacto das secas nas colheitas, políticas governamentais e acordos comerciais.
  • Acesso físico As pessoas podem morar longe do mercado, ou a falta de segurança pode impedi-las de viajar. Elas podem não ter acesso a transporte ou pode haver obstáculos físicos, como a má qualidade das estradas, uma ponte danificada ou uma estrada que foi levada pelas águas.

QUALIDADE E VALOR NUTRITIVO DO ALIMENTO

O alimento precisa ser seguro para ser ingerido e de boa qualidade nutritiva. A boa nutrição é importante para o cresci mento e para a saúde. Se a pessoa tiver acesso a alimento bom e suficiente, água potável, saneamento e cuidados de saúde, as necessidades básicas do seu organismo serão satisfeitas.

A boa nutrição é especialmente importante para as crianças. Contudo, a fome e a subnutrição matam milhares delas todos os anos. Nestas situações, os programas de alimentação infantil e as distribuições de alimentos voltadas para as crianças são um aspecto importante de qualquer resposta.

ESTABILIDADE NA PROVISÃO DE ALIMENTO

As famílias e os indivíduos devem ter acesso a alimento o tempo todo, sejam eles frescos ou armazenados. Entretanto, às vezes, há situações que podem afetar esta estabilidade. Estas podem ser:

  • choques externos, como secas, inundações, conflito ou má governança política e econômica
  • choques internos, como a perda de renda ou doença.

Principais questões a considerar

Há algumas questões importantes que afetam o desempenho dos quatro pilares.

BOA GOVERNANÇA POLÍTICA E ECONOMICA

Muitas organizações agora incluem o direito individual ao alimento como parte do seu trabalho de defesa e promoção da boa governança. Isto pode consistir em:

  • assegurar um bom planejamento e bons programas para a segurança alimentar
  • ajudar as pessoas mais pobres após choques, como aumentos nos preços ou más colheitas
  • assegurar que o alimento não seja usado como arma de guerra ou opressão
  • combater a corrupção para que os recursos escassos sejam direcionados para a produção de produtos alimentícios essenciais ao invés de artigos de luxo para os ricos
  • assegurar que as regras e os acordos comerciais sejam justos, de maneira a apoiar os pequenos agricultores.

HIV

Existe uma forte relação entre o HIV e a segurança alimentar. As pessoas que vivem com HIV devem comer alimentos de alto valor nutritivo para se manterem saudáveis. A boa nutrição também é vital para as pessoas que tomam medicamentos anti-retrovirais. Mesmo quando há disponibilidade de alimentos numa família afetada pelo HIV, também pode haver subnutrição. Isto ocorre porque as doenças relacionadas com o HIV podem diminuir o apetite e a capacidade do organismo de absorver nutrientes.

Como o HIV tende a afetar os adultos produtivos, ele causa um impacto enorme na segurança alimentar. Isto pode ocorrer devido:

  • à debilidade da pessoa para trabalhar ou cultivar a terra
  • à morte de familiares produtivos juntamente com o seu conhecimento e suas habilidades agrícolas
  • à diminuição dos recursos que podem ser usados para comprar alimentos, devido aos gastos com cuidados com a saúde ou funerais.

As pessoas que vivem com HIV devem ser incentivadas a cultivar alimentos que exijam menos trabalho físico, como árvores frutíferas, para se prepararem para quando a sua doença piorar.

CRESCIMENTO LENTO NA AGRICULTURA

Em muitas regiões do mundo, há um crescimento lento ou até retrocessos na agricultura. Em muitos países, embora a maioria das pessoas sejam agricultores, elas não são capazes de produzir alimento suficiente para alimentar toda a população. Assim, alguns países têm de importar alimentos ou depender de assistência alimentar.

Em muitos países, a fome e a subnutrição são maiores nas regiões rurais do que nas urbanas, apesar de a maioria das pessoas viverem em regiões rurais e se sustentarem através da agricultura. Vários estudos realizados na África Subsaariana constataram que o crescimento no setor agrícola tem um impacto muito maior na redução da pobreza e da fome do que o crescimento urbano e industrial. Portanto, o aumento e a diversificação da produtividade agrícola são muito importantes para se enfrentar o desafio da insegurança alimentar. Uma área que precisa ser melhorada é a irrigação. Quase metade do alimento mundial é cultivada com o uso de técnicas de irrigação. Porém, estas técnicas atualmente são muito ineficientes.

Para melhorar a produtividade agrícola, os problemas ambientais precisam ser resolvidos. Embora as pessoas que vivem nas regiões rurais tenham conservado muito do ambiente rural por muitos anos, as pressões cada vez maiores causadas pela fome e pelo aumento populacional forçaram-nas a realizar algumas práticas agrícolas que estão prejudicando o meio ambiente. A mudança climática está aumentando a probabilidade de perda das colheitas e de insegurança alimentar.

IGUALDADE DE GENERO E EMPODERAMENTO DAS MULHERES

Freqüentemente as mulheres são as principais responsáveis pela segurança alimentar. Em muitos países, as mulheres contribuem com a maior parte da mão-de-obra para a produção de alimentos. As mulheres também são responsáveis pela maior parte do processamento e da preparação de alimentos. Elas garantem a alimentação e a nutrição das crianças e de todos os outros membros da família.

Contudo, as mulheres raramente recebem tanto apoio agrícola quanto os homens, como, por exemplo, empréstimos e serviços de extensão agrícola. Assim, elas não produzem tanto alimento quanto poderiam para as suas famílias.

Os governos e as organizações devem considerar as questões de gênero relacionadas com a segurança alimentar para que haja progresso.

A Dra. Ruvimbo Mabeza-Chimedza trabalha como consultora independente. Ela é especializada em segurança alimentar e meios de sustento.

E-mail: ruvimbo@mweb.co.zw

Foto: Mike Webb/Tearfund
Foto: Mike Webb/Tearfund

Questões para discussão

  1. Qual dos quatro pilares mais afeta a segurança alimentar na sua comunidade ou no seu país? 
  2. Há assistência alimentar no seu país? Que soluções sustentáveis existem? (Por exemplo, veja o artigo sobre bancos de cereais na página 7.) 
  3. É difícil para as famílias pobres terem acesso a alimento mesmo havendo alimento disponível suficiente? Quais são os motivos disso? O que poderia ser feito para ajudá-las a terem alimento suficiente para comer? 
  4. Quanto conhecimento nutricional os habitantes locais possuem? O que poderia ser feito para aumentar este conhecimento? 
  5. Faça uma lista dos choques externos que afetam as pessoas local e nacionalmente. De que maneira seria possível lidar com alguns destes choques? Que sistemas poderiam ser organizados para evitar que os choques naturais tenham um grande impacto na segurança alimentar? (Por exemplo, veja o artigo sobre hortas flutuantes na página 16.) 
  6. Você ou outras pessoas na comunidade são afetados pelo HIV? De que maneira o HIV afeta a segurança alimentar? O que pode ser feito para reduzir os efeitos? 
  7. Quais práticas agrícolas locais são prejudiciais para o meio ambiente? Que outras opções há? (Por exemplo, veja o artigo sobre agricultura de conservação na página 12.) 
  8. Quais são as questões de gênero relacionadas com a segurança alimentar na sua comunidade ou no seu país? O que precisa ser feito para empoderar as mulheres? De que maneira os homens podem apoiar as mulheres para garantir a segurança alimentar familiar? 
  9. De que maneira as pessoas responsáveis pelas decisões podem ser influenciadas para garantir que o direito das pessoas a alimento seja respeitado no seu país?