Câncer: uma experiência pessoal

O apoio de outros é fundamental para se viver bem com uma doença. Peter Caton/Tearfund
O apoio de outros é fundamental para se viver bem com uma doença. Peter Caton/Tearfund

Selina David (nome fictício) é uma paciente com câncer de língua no distrito de Geita, na Tanzânia. Ela também é HIV positiva, o que a torna mais vulnerável a doenças como o câncer. Ela amavelmente concedeu esta entrevista a Mary Makalanga, uma Coordenadora de Cuidados Paliativos que trabalha em parceria com a Tearfund.

Como você descobriu que tinha câncer?

Primeiro, fui diagnosticada como HIV positiva. Algum tempo depois, apareceu um fungo na minha língua, e ficou difícil de comer. Em seguida, minha língua começou a inchar até tomar todo o espaço da minha boca. Começaram a aparecer algumas lesões, como pequenos abscessos, nas minhas pálpebras e por todo o meu rosto. Eu acabei indo ao Ocean Road Cancer Institute na Tanzânia, onde me disseram que eu tinha câncer de língua. Recebi alguns medicamentos para diminuir o inchaço e voltei para casa para aguardar.

Qual foi o maior desafio no que diz respeito a ter câncer?

O maior desafio que eu enfrentei foi a dor aguda e a dependência, pois eu não podia trabalhar por causa da dor. Eu simplesmente ficava deitada, dia e noite. Tenho três filhos, que ficam com a minha mãe num outro povoado. Antes de ficar doente, eu era a única pessoa que trabalhava e trazia para a família o pão de cada dia e outras necessidades básicas. Quando fiquei doente e inútil, eu não podia fazer nada. Eu simplesmente ficava esperando a morte. As coisas também eram muito difíceis na casa do meu irmão, onde eu estava. Não havia comida suficiente e faltavam outras coisas básicas. Meu irmão e sua mulher também eram HIV positivos, mas ainda estavam saudáveis. Para mim, era desanimador. Por causa da minha doença, eu precisava de apoio nutricional, e minha saúde estava se deteriorando. No fundo, eu sabia que, se ninguém viesse em meu socorro logo, eu morreria.

Que apoio você recebeu? Quem lhe deu este apoio? E como isto a ajudou?

Um dia, uma equipe de cinco voluntários domiciliares da African Inland Church of Tanzania veio me ver em nome de Deus. Eles conversaram comigo e ouviram minha história. A equipe contou-me sobre um novo serviço conhecido como cuidados paliativos e ofereceu-me algum apoio médico, inclusive remédios para diminuir a dor. Eles leram a Bíblia e oraram comigo. A partir de então, a equipe continuou ajudando a mim e à minha família com alimentos e medicamentos anti-retrovirais (remédios que ajudam a retardar a progressão do HIV/AIDS). Logo me tranqüilizei novamente e me senti mais segura e confortável do que quando eu estava com dores intensas. O inchaço na língua foi desaparecendo devagar. Minha esperança de sobreviver foi restaurada novamente, e eu recebo bons voluntários de cuidados paliativos, que me visitam regularmente e oram e conversam comigo. Eles realmente se importam comigo, e eu me sinto um ser humano novamente.

Qual é o seu conselho para outras pessoas que estão com câncer?

Meu conselho é que você conte a outras pessoas da sua comunidade sobre a sua doença o quanto antes porque, assim, elas podem ajudá-lo e apoiá-lo, especialmente se você também tiver HIV. Existem agentes da saúde e outros grupos voluntários que podem ajudá-lo a realmente entender o que está acontecendo. Isto é melhor do que procurar curandeiros tradicionais ou feiticeiros, o que pode resultar em mais dor, complicações e novas infecções. Com os agentes da saúde, você estará seguro, porque os remédios deles ajudam a diminuir a dor. Com a ajuda de pessoas capacitadas do grupo de cuidados paliativos, um paciente pode melhorar em termos psicológicos, emocionais, espirituais e físicos também. Quanto a mim, agora sinto muito menos dor.