Foto: Isabel Carter

Da: Comunidades em transformação – Passo a Passo 53

Qual deve ser o papel da igreja no desenvolvimento?

Membros da comunidade orando com as pessoas com HIV/AIDS. - Photo: Richard Hanson/Tearfund

Membros da comunidade orando com as pessoas com HIV/AIDS. - Photo: Richard Hanson/Tearfund

Mark Forshaw.

Com o aumento da epidemia de HIV/AIDS (VIH/SIDA) no sul da Zâmbia, a resposta do hospital de Chikankata foi reservar alas hospitalares para os pacientes com AIDS e fornecer serviços para pacientes não internados, ligados ao programa de atendimento com base no lar. Estes serviços ligavam as comunidades e os sanitaristas comunitários aos serviços hospitalares assim como ao aconselhamento e à educação. Entretanto, logo se tornou óbvio que havia pessoas demais para a capacidade das alas hospitalares ou serviços para pacientes não internados. Muitas das necessidades dessas pessoas podiam ser satisfeitas através de serviços de atendimento com base na comunidade.

Programa de atendimento no lar 

Este programa permitiu que as pessoas fossem atendidas em seus próprios lares e criou oportunidades para treinar as famílias no atendimento a pessoas com HIV/AIDS. Houve também oportunidades para discutir o ensino sobre o HIV e a AIDS e a prevenção com suas famílias e a comunidade mais ampla. Estas equipes de atendimento cresceram e passaram a incluir enfermeiros comunitários, nutricionistas e conselheiros com vínculos com as igrejas locais. Além disso, como os funcionários da saúde mostravam o amor de Cristo em ação desta forma, as pessoas foram encorajadas a fazer mais perguntas sobre a fé cristã. O custo do programa de atendimento no lar era apenas a metade do custo do atendimento hospitalar.

O programa de atendimento no lar em Chikankata logo se transformou num programa completo de HIV/AIDS, incluindo aconselhamento no hospital, ensino sobre a AIDS nas escolas, programas de apoio à criança e programas de assistência técnica para outras organizações. Chikankata criou assim, uma abordagem variada, mas integrada, para apoiar a comunidade local na luta contra o HIV e a AIDS. O HIV e a AIDS afetam não apenas todos os aspectos dos cuidados de saúde e o ensino sobre ela, mas também todos os aspectos da vida comunitária. Isto inclui a educação, a produção de alimentos, a geração de recursos e a vida familiar. Os programas tinham por objetivo atender as necessidades de diferentes seções da comunidade afetadas de diferentes maneiras.

As equipes de Chikankata logo viram que a necessidade de mudar o comportamento das pessoas deveria ser o âmago do seu trabalho referente à AIDS. Entretanto, esta mudança tinha de ser voluntária. Ela não podia ser imposta às pessoas. Usando princípios bíblicos, o atendimento no lar e trabalhando com as comunidades locais, logo se viu que havia uma tomada de decisões por parte da comunidade sobre questões como a purificação ritual, circuncisão, o uso de bebidas alcoólicas e seus vínculos com a AIDS. O processo de aconselhamento da comunidade ajudou a incentivar a reflexão e também forneceu uma forma de medir as mudanças no comportamento por parte da comunidade. O aconselhamento estava ligado ao atendimento no lar na mesma região geográfica. Foi discutido o impacto emocional da AIDS no lar em cada comunidade, sem dizer os nomes das pessoas. Muitas vezes, esta foi uma forma eficaz de aumentar a responsabilidade compartilhada pela comunidade e eliminar o estigma da infecção.

Integração com a comunidade 

Muitas comunidades ao redor de Chikankata esperavam, cada vez mais, que o hospital, e não elas próprias, atendesse muitas das suas necessidades, não apenas as relacionadas com o HIV e a AIDS, mas também outros aspectos das suas vidas, como a geração de recursos, a produção de alimentos e escolas.

Apesar de custar menos que o programa inicial, a administração do hospital viu que o uso de equipes pagas de atendimento comunitário com base no hospital ainda era caro. As equipes estavam achando cada vez mais difícil cumprir a carga de trabalho, à medida que o nível de infecção causada pelo HIV aumentava. Também era pedido ao sistema de cuidados de saúde comunitária que ajudasse com uma grande variedade de questões comunitárias. A administração do hospital encontrou-se com os líderes e as comunidades locais, para conversar sobre suas preocupações e explicar que não podiam atender todas estas demandas. Após uma discussão, foi apresentada uma nova resposta – a criação de equipes de Atendimento e Prevenção, as quais são dirigidas pela comunidade, e não pelo hospital.

Atendimento e prevenção

As equipes de Atendimento e Prevenção trabalham com suas comunidades procurando enfatizar e classificar as questões de acordo com sua importância para a comunidade. Juntos, eles identificam, então, os recursos disponíveis, os quais podem ser naturais (água, árvores, terra fértil) e humanos (professores, agricultores, políticos, indivíduos comprometidos). A escassez de dinheiro não significa escassez de recursos.

É decidido um plano de ação, e são escolhidas pessoas para administrá-lo. A comunidade fornece a maior parte dos recursos e das atividades necessárias para responder ao plano de ação. É selecionado um indivíduo influente da comunidade local para servir de motivador principal e conexão. A equipe, então, negocia com os funcionários do hospital, para decidir que assistência o hospital pode oferecer para auxiliar o trabalho da comunidade. Esta pode ser uma monitorização e uma avaliação periódicas.

Esta estratégia incentiva a comunidade a assumir a responsabilidade por prover atendimento para os outros membros da comunidade que estão gravemente doentes. O atendimento não se restringe apenas aos que estão doentes, mas inclui também as pessoas mais afetadas pela doença, geralmente as crianças e os pais idosos. Um membro zambiano da equipe de administração de Chikankata comentou, “Esta não é uma nova forma de trabalho, mas sim uma redescoberta das nossas antigas formas de trabalho (comunitário).”

O mesmo princípio de capacitação de comunidade local para que cuidem de seus membros foi usado em outras atividades de Chikankata, inclusive seu trabalho com órfãos. O hospital agora está deixando de prover matrículas escolares e passando a apoiar o desenvolvimento econômico das comunidades e subvenções para escolas, não apenas para indivíduos. Estas novas iniciativas estão sendo coordenadas pela Children in Need. Esta é uma resposta dirigida pelas comunidades locais, para amparar as crianças carentes, e não apenas os órfãos. É uma abordagem integrada que mobiliza as comunidades e fortalece os vínculos entre as crianças e suas comunidades. Ela ajuda a diminuir os preconceitos das pessoas em relação aos órfãos, principalmente os órfãos que perderam os pais por causa do HIV e da AIDS.

A quem pertencem os programas 

Há uma conscientização cada vez maior de que o trabalho com o HIV e a AIDS deveria ser visto como uma parte integral dos outros trabalhos de desenvolvimento. É essencial que os programas com base na comunidade pertençam à comunidade que se está beneficiando com os seus serviços – e não às instituições ou ONGs da área da saúde. O termo com base na comunidade deveria significar “pertencente à” comunidade local, e não apenas “situada na” comunidade. Ligar o atendimento no lar, a prevenção e o desenvolvimento geral é freqüentemente um investimento gratificante numa comunidade, através de meios que não poderiam ser facilmente alcançados através do atendimento hospitalar de pacientes internados.

O atendimento holístico, cujo objetivo é atender as necessidades físicas, sociais, espirituais, econômicas e psicológicas tanto do indivíduo como da comunidade, é de uma importância imensa para as equipes de Chikankata. Estas necessidades são tão amplas que só podem ser atendidas trabalhando-se em conjunto com todas as pessoas envolvidas: indivíduos, famílias, comunidades, instituições governamentais e ONGs. É importante que todas as pessoas envolvidas no trabalho cristão se lembrem de Cristo, o maior exemplo de servidão, “que, sendo em forma de Deus… aniqui-lou- se a si mesmo, tomando a forma de servo” (Filipenses 2:6-7).

Mark Forshaw é o Diretor Associado do Reino Unido da AIM. Ele possui experiência considerável em educação, treinamento e no desenvolvimento da boa prática em HIV/AIDS. Ele passou dois anos vivendo na África Oriental, trabalhando com a AIM, e trabalhou com a ACET e outros parceiros da Tearfund pelo mundo. Seu endereço é AIM, 2 Vorley Road, Archway, London, N19 5HE, Reino Unido.

Questões para discussão

Se você já estiver realizando um programa semelhante ao de Chikankata, de que forma ele difere e por quê?

Todos estes são aspectos do trabalho de Chikankata:

Como você inclui, ou incluiria, estes aspectos no seu trabalho? 

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