Da: A saúde da mulher – Passo a Passo 24

Uma discussão das questões e preocupações de saúde da mulher

pelo Dr Steven Arrowsmith.

Recentemente, questões ligadas à saúde da mulher começaram a receber uma atenção que há muito tempo mereciam da comunidade internacional. Por mais comuns que sejam, são uma das maiores tragédias que as mulheres enfrentam no mundo em desenvolvimento hoje e se mantem relativamente desconhecida. Sabe-se bem que as mulheres em países mais pobres do mundo enfrentam um alto risco de morte durante o parto. No entanto, por cada mulher que morre durante o parto, muitas outras são feridas.

Perigo durante o parto

Entre os ferimentos causados durante o parto, o mais devastador é a fístula obstétrica. Este ferimento ocorre quando há um parto demorado e, seja por qual razão, o ferimento não é tratado. Por muitas horas ou até dias, a cabeça do bebê causa uma fricção contra os tecidos pélvicos da mãe e acaba interrompendo o fluxo de sangue para estes tecidos. Em pouco tempo estes tecidos morrem, deixando um orifício grande ligando a vagina com a bexiga ou até mesmo o reto. O resultado é a perda constante e permanente de urina – da bexiga – ou fezes – do reto.

Rejeição

Mais de nove vezes em cada dez casos, o bebê não sobrevive a este parto demorado. Devido à vítima deste ferimento horrível cheirar a urina o tempo todo, ela é rejeitada com frequência pelo seu marido ou família. Os partos obstruídos são mais comuns entre as mulheres jovens que ainda não atingiram a idade adulta. Com frequência, estas mulheres estão a meio da adolescência, sofrendo a perda de seu primeiro bebê, muito magoadas pela rejeição de seu marido ou família, entregues a um futuro incerto, tendo de cuidar de si próprias e enfrentar uma vida longa em completo isolamento de tudo o que uma vez foi importante para elas.

Avanços médicos

Ninguém sabe exatamente quantas vítimas de fístulas existem no mundo. Pensa-se que há no mínimo de 1,5 a 2 milhões de vítimas apenas na África. Até ao início deste século, pessoas em todo o mundo temiam a fístula obstétrica. O primeiro hospital a ser construído especialmente para estas mulheres foi em Nova Iorque, onde milhares de mulheres foram curadas no final do século 19. Mas como os avanços médicos obstétricos aumentaram, este problema desapareceu nas nações mais ricas do mundo. Infelizmente, estes avanços não chegaram aos países em desenvolvimento. Em áreas mais pobres da África, Ásia e América do Sul, há milhões de mulheres sofrendo silenciosamente com esta tragédia.

Os custos envolvidos

Por que é tão comum este problema? A economia global é muito importante. Muitos países simplesmente não têm condições de ter centros bem equipados e com bons funcionários para onde as mulheres em partos obstruídos possam ir para ter uma cesariana. Elas também não podem pagar os altos custos de construção de boas estradas e sistemas de transportes que lhes permitam alcançarem um hospital para ajuda de emergência.

Pressões

Os fatores culturais são também muito importantes. Em alguns grupos étnicos é costume casar cedo, o que aumenta o risco de partos obstruídos. Quando a mãe não cresceu o suficiente, com frequência simplesmente não há lugar na pelvis para o bebê nascer normalmente. Algumas culturas colocam uma tremenda pressão na mulher grávida para que ela tenha um parto domiciliar. Aquelas que vão a um hospital para o parto são frequentemente consideradas fracas ou anormais. Elas então preferem sofrer um parto obstruído em casa. A circuncisão feminina, quando praticada na forma severa de infibulação, pode causar cicatrizes terríveis que levam ao parto obstruído.

Atendendo às necessidades

O tratamento de uma fístula obstétrica pode ser difícil, mas nas mãos de cirurgiões experientes, o nível de sucesso de acima de 90% é possível após uma única operação. Para o tratamento ter sucesso, é preciso fechar-se o orifício criado durante o longo parto e fazer a bexiga voltar ao seu funcionamento normal. As pacientes com fístula sofrem com frequência de outras complicações causadas pelo longo parto, incluindo a dificuldade em andar devido aos nervos serem afetados, infertilidade por causa do útero ter sido ferido e incapacidade de terem relações sexuais com os seus maridos devido aos ferimentos e cicatrizes na vagina. Sendo assim, o cirurgião das fístulas deve estar pronto para tentar a atender a todas estas necessidades especiais que as vítimas de fístula possuem. Um grande esforço tem sido feito para se estabelecer uma rede de centros de treinamento que permitiriam aos médicos que trabalham nas áreas de fístulas serem treinados adequadamente nesta técnica especial.

Um número pequeno de hospitais

Apesar da cirurgia de fístulas ser realizada em hospitais gerais nos países em desenvolvimento, há muito poucos centros no mundo hoje que se dedicam ao cuidado da saúde destas pacientes especiais. Hospitais para tratamento de fístulas estão a funcionar na atualidade na Etiópia,

Sudão e Nigéria. Por que há tão poucos hospitais para tratamento de fístulas? Na maioria dos casos as mulheres são tão pobres que são completamente incapazes de pagar a conta do hospital e assim uma ajuda especial com os custos é geralmente necessária. Isto significa que os hospitais de fístulas têm de ir buscar constantemente assistência do governo e de doadores privados, para dar assistência a seus pacientes. Estes hospitais nunca podem esperar ser auto-suficientes financeiramente.

No Hospital de Fístulas de Addis Ababa, realizamos mais de 13.000 operações de tratamento de fístulas desde 1974. O nosso pessoal altamente eficaz é formado quase inteiramente por pacientes que permaneceram conosco quando ainda não podiam ser curadas completamente. As nossas pacientes vêm de todas as partes da Etiópia e de outros países do Leste Africano, que com frequência caminham durante muitos dias apenas para alcançar a estrada mais próxima para Addis Ababa. Treinamos ginecologistas na nossa escola local de medicina e médicos que vêm de todas as partes do mundo para aprender sobre a cirurgia de fístulas.

A esperança de ter saúde

Nenhum trabalho poderia ser mais compensador do que alcançar estas mulheres com amor, as quais durante tanto tempo não têm tido nenhuma esperança. Com uma única visita ao hospital, a grande maioria destas mulheres pode voltar a ter uma vida normal. Esperamos e oramos que a nova atenção focalizada na causa de mulheres nos países em desenvolvimento traga melhorias aos serviços obstétricos em todo o mundo, fazendo com que as fístulas se tornem numa coisa do passado. Enquanto esperamos que isto aconteca, também esperamos que esta nova atenção possibilitará serem estabelecidos muito mais hospitais como o nosso e que milhares de cirurgiões ao redor do mundo possam ser treinados e terem os recursos para lidar com esta grande tragédia humana.

Dr Steven Arrowsmith, Addis Ababa Fistula Hospital, PO Box 3609, Addis Ababa, Ethiopia.

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