Da: Acção e aprendizagem participativa – Passo a Passo 29

Como garantir que todos tenham a oportunidade de contribuir para as decisões locais

por Simon Batchelor.

Tem havido muitas discussões nos círculos académicos sobre como os adultos aprendem. As pessoas que trabalham em desenvolvimento estão sendo cada vez mais influenciadas pelo que o educador brasileiro de adultos, Paulo Freire, escreveu. Ele sugeriu que a educação nunca é neutra. Quando um professor ensina, isto leva as pessoas a se sujeitarem à sociedade ou a buscarem libertação. Ele também disse que as pessoas aprendem mais quando pensam criticamente através de suas próprias situações em vez de absorverem o conhecimento de ‘especialistas’.

Isto pode ser aplicado à educação de adultos, incluindo a alfabetização, incentivando as pessoas a refletirem sobre um problema e então actuarem. Inicia-se então um ciclo de reflexão, acção, reflexão, acção (às vezes chamado de praxis), o qual está no centro do processo de aprendizagem.

Resolução de problemas

A razão pela qual este tipo de aprendizagem funciona é devido a que a maioria das pessoas (pobres e ricas) somente refletem e actuam em questões sobre as quais elas têm sentimentos fortes e que são importantes para elas no momento. Elas podem activamente buscar informações e conhecimentos se estes ajudarem a resolver um problema. Elas podem então aplicar estes conhecimentos aprendendo novas capacidades. Até mesmo as suas atitudes podem ser afectadas. Para os pobres, a reflexão que leva à acção traz com frequência um despertamento quanto à sua própria situação e assim eles podem transformar a qualidade de suas próprias vidas, seu meio ambiente, sua comunidade e sua sociedade inteira.

Muitas pessoas tomaram para si estas idéias e as aplicaram de diferentes maneiras. As agências estão aplicando as idéias de Freire aos programas e projectos. Os evangélicos têm percebido que as pessoas aprendem mais sobre o evangelho de Cristo em ciclos de acção e reflexão.

À medida que cada vez mais agências começarem a usar ciclos de acção e reflexão, a palavra participação está sendo mais extensamente usada. No entanto, participação pode significar muitas coisas para muitas pessoas – variando desde a participação relutante em reuniões comunitárias (ouvindo pessoas de fora contarem os seus planos), até do envolvimento activo da comunidade no desenvolvimento de seus próprios planos. A participação eficaz existe quando as pessoas podem fazer os seus próprios planos.

Apoio dos especialistas

Algumas agências de desenvolvimento planeiam projectos desde o lado de fora. Elas conversam com especialistas e decidem que podem apoiar os pobres. Por exemplo, uma bomba manual pode ser adquirida para uma aldeia. Os gerentes do projecto decidem onde a bomba manual é necessária e a sua própria equipe a instalam. Após alguns meses a bomba manual avaria e os moradores não a reparam. Por quê? As razões podem incluir o facto de que eles não se sentem proprietários ou responsáveis pela bomba. Eles podem não ter sido treinados a manejá-la e mantê-la. Talvez a bomba esteja no lugar errado e cause conflitos na aldeia. Por esta razão eles ficam contentes em ver a bomba avariada.

1. O projecto de fora


Consultando os moradores

Talvez há dez anos atrás a idéia de participação começou a ser extensamente aceita. Com alguma influência de Freire e outros como ele, as agências começaram a dizer que a participação era a chave. Elas olharam para o exemplo da bomba manual e disseram que o necessário era a participação das pessoas para que elas ‘fossem donas’ da bomba manual. Um novo método de planeiamento surgiu. As agências enviavam pessoas para a aldeia nos primeiros estágios do planeiamento. Elas discutiam a situação com os moradores, recolhiam informações das pessoas por si próprias e com elas planeiavam a bomba manual. Comitês comunitários eram criados para tratar da posição da bomba manual e um comitê de manutenção podia ser formado para mantêla e repará-la.

O resultado foi que os projetos de bombas manuais foram melhor sucedidos. Os projetos com maior participação das pessoas duram mais e são mais ‘sustentáveis’.

Planos locais

Apesar deste tipo de participação ser boa, ela não deve ser confundida com a essência do trabalho de Freire. Em nosso primeiro exemplo, a primeira bomba manual foi instalada sem se discutir com as pessoas na fase de planeiamento. Podemos dizer que a bomba manual é o centro do pensamento da agência e que os planos foram estabelecidos pela agência externa. Em nosso segundo exemplo, a bomba manual foi instalada com a participação das pessoas. No entanto, a bomba manual continuava sendo o centro do pensamento da agência. O projecto continuava sendo de bombas manuais. A participação neste caso é como um instrumento para fazer o trabalho da bomba manual. Os planos ainda são estabelecidos pela agência externa.

Usamos o exemplo de um projecto de bombas manuais por ser fácil de compreender. O mesmo acontece com qualquer outro programa, incluindo a alfabetização de adultos. Podemos ver programas onde o planeiamento é feito por agências externas sem a participação das pessoas. Novos programas podem ainda ser encontrados onde os planos são estabelecidos pelas agências externas e a participação é usada como um instrumento para ajudar as pessoas a adotarem o programa.

Mas para uma compreensão, aprendizagem e tranformação real, são as pessoas que devem estar no centro. Os seus planos devem ser estabelecidos por si próprios. Dissemos anteriormente que as pessoas actuam sobre questões acerca das quais têm sentimentos fortes, isto é seus próprios planos. Uma bomba manual pode ser então apenas um dos muitos items do plano – ou pode até nem ser incluída. As próprias pessoas decidem quais são as suas próprias prioridades.

2. O projecto com participação


3. Os planos da aldeia


Descoberta 

As pessoas aprendem mais quando reflectem sobre a sua situação em vez de absorverem o conhecimento de ‘especialistas’. Descoberta é uma palavra chave. Uma agência que trabalha com a educação de adultos não deve ter receio em deixar as pessoas explorarem os seus próprios planos, no seu próprio ritmo. A agência passa a ser o servo e não o mestre. A função da agência é ajudar na jornada de descoberta das pessoas. 

A educação de adultos se torna então chave na compreensão dos problemas e no aumento de opções. As pessoas podem escolher se querem obter uma bomba manual, melhores sementes ou iniciar um programa de alfabetização. Outros não devem tomar estas decisões por elas. 

Simon Batchelor é um consultor independente que trabalha com várias organizações no apoio de iniciativas sustentáveis. O endereço dele é: 152 Cumberland Road, Reading, RG1 3JY, Reino Unido. 

E-mail: simon@gamos.demon.co.uk

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