Da: Biodiversidade – Passo a Passo 47

Como compreender e responder às mudanças na biodiversidade

Professor Titular Sir Ghillean Prance.

O termo biodiversidade é utilizado para descrever a enorme variedade de vida neste planeta. Um número surpreendente de 1,8 milhões de espécies diferentes foram identificadas e classificadas pelos cientistas. Contudo, ainda não sabemos realmente quantas existem no mundo.

Sabemos que há aproximadamente 8.600 espécies de pássaros, 4.000 espécies de mamíferos e 32.000 espécies de plantas que florescem, pois estes organismos são relativamente bem estudados. Entretanto, ainda há incerteza quanto a outros organismos, tais como os insetos (em que as estimativas variam entre oitenta e cem milhões), os fungos (dos quais foram identificados 70.000, mas acredita-se que existam 1,6 milhões) e organismos pouco estudados, tais como as bactérias, os nematódeos e os acarinos. Há, pelo menos, oito milhões de espécies no mundo, e, provavelmente, muito mais. Assim, os cientistas que identificam, nomeiam e classificam os organismos ainda têm muito trabalho a fazer. Um dos maiores desafios para o novo milênio é aumentar o nosso conhecimento dos organismos com os quais compartilhamos este planeta.

Há três aspectos da biodiversidade:

Por que preservar a biodiversidade?

Esta diversidade mantém a vida na Terra. As plantas verdes no solo e as plantas microscópicas nos oceanos produzem o oxigênio que respiramos. A mudança climática do globo terrestre seria muito pior, se não fosse pelo papel das florestas e dos oceanos na absorção de grande parte do dióxido de carbono que colocamos na atmosfera. As florestas de mangues mantém o litoral tropical. Cada espécie individual depende de outras para a sua existência, e os vínculos entre as diferentes espécies mantém a vida. Se uma espécie for eliminada, as outras que dependem dela também morrerão ou serão seriamente afetadas.

Algumas espécies são particularmente importantes, porque, sem elas, o seu ecossistema inteiro desmoronar-se-ía. Por exemplo, as árvores das florestas e o plâncton do oceano, que controlam o nosso clima, são pouco valorizados pelas pessoas, mas o seu papel no controle do meio ambiente é o aspecto individual mais importante da biodiversidade.

A segunda razão para proteger-se a biodiversidade é porque os seres humanos dependem dela. Dependemos da biodiversidade para o nosso alimento, os nossos medicamentos, o nosso abrigo, para muitos produtos industrializados, tais como a madeira e a borracha, os cosméticos e muitos outros. À medida que perdemos espécies, estamos, também, perdendo novos possíveis medicamentos e alimentos, que podem ser necessários para dar continuidade à vida humana na Terra. Por exemplo, mais de metade dos nossos medicamentos provém originalmente de plantas, e outros ainda estão sendo descobertos. Um exemplo recente é o remédio anti-câncer/anti-cancro, taxol, proveniente do teixo, uma árvore do Pacífico.

A terceira razão para preservar-se a biodiversidade é ética. É correto que as pessoas destruam tanto a criação de Deus? A história de Noé, na Bíblia, mostra o quanto Deus se importa com todas as criaturas vivas.

Em quarto lugar, devemos preservar a biodiversidade puramente pela beleza e pelo prazer. Este seria um mundo sem graça, se não houvesse flores e pássaros que cantam à nossa volta, baleias no mar ou os magníficos animais nas planícies da África.

Usando a biodiversidade

A agricultura ocidental moderna está baseada principalmente no cultivo de vastas áreas de uma única espécie, tais como de trigo, arroz ou milho (monocultura). A agricultura tradicional depende da diversidade e está mais protegida das pragas e das doenças, por causa dela. Até mesmo a agricultura moderna depende da diversidade genética das espécies selvagens que possuem um parentesco com as espécies para o cultivo. Ocasionalmente, os cultivadores de plantas usam características destes parentes selvagens para melhorar as plantas para o cultivo. Há apenas 20 anos, um parente desconhecido do milho (chamado Zea diploperennis) foi encontrado no México. Esta nova espécie estava quase extinta, mas representou uma descoberta importante para o futuro do milho, porque é resistente a algumas das doenças comuns, além de ser perene. Espécies como esta são vitais para o futuro das nossas plantas para o cultivo. Se essa espécie não tivesse sido descoberta, ter-seia tornado extinta, e as suas características úteis teriam sido perdidas para sempre.

Os cultivadores de plantas e os agricultores costumam criar, nas plantas para o cultivo, características úteis provenientes de espécies selvagens, através da seleção das variedades com as características que desejam. Entretanto, agora, é possível transferir genes entre organismos que não pertencem à mesma família através do processo da engenharia genética. Esta é uma técnica que possui um grande potencial para ajudar a resolver o problema da fome no mundo, porém, está sendo mal-utilizada por algumas empresas comerciais. Ao invés de concentrar-se em métodos para alimentar as pessoas com fome, a engenharia genética está sendo usada para gerar grandes lucros para essas empresas. Estão sendo colocadas características como a resistência aos herbicidas nas plantas para o cultivo. Durante algum tempo, uma empresa tencionou produzir plantas para o cultivo que não produziriam novas sementes, assim, os agricultores teriam que comprar novas sementes todos os anos. Felizmente, houve tanto protesto contra esta ‘tecnologia exterminadora’, que a empresa desistiu da idéia por enquanto.

Ao invés de usar a engenharia genética para gerar lucros excessivos, ela deve ser usada para produzir plantas para o cultivo mais nutritivas e produtivas. Um exemplo disso é a produção de arroz com um alto teor de vitamina A. A deficiência da vitamina A causa a cegueira e outros problemas. A empresa que está produzindo este arroz liberou os seus direitos à patente, de maneira que o arroz rico em vitamina A possa ser produzido sem restrições.

As pessoas precisam ser informadas e envolvidas nessas questões. O poder das pessoas é importante! A Índia contestou uma patente americana das propriedades inseticidas do nim, uma árvore que eles usam há centenas de anos. O Peru contestou a patente da sua conhecida planta alucinógena ayahuasca. Ambas as patentes, agora, foram recusadas.

Não devemos condenar uma técnica que tem tanto a oferecer ao mundo. Ao invés disto, devemos assegurar-nos de que a engenharia genética seja utilizada para ajudar a alimentar o mundo.

O Professor Titular Sir Ghillean Prance FRS é o Diretor Científico do Project Eden, na Cornualha, e Professor Titular Visitante na School of Plant Sciences da University of Reading. Ele foi o Diretor do Royal Botanic Gardens, em Kew, de 1988 a 1999.

Seu endereço é: The Old Vicarage, Silver St, Lyme Regis, Dorset, DT7 3HS, Inglaterra. E-mail: gtolmiep@aol.com

Glossário das palavras nesta edição

biopirataria A tomada (ou patenteação) inaceitável de materiais genéticos e conhecimentos tradicionais sem um consentimento esclarecido e condições decididas de comum acordo

cultivo intercalado Cultivo de várias plantas juntas

diversidade Variedade

ecossistema Comunidades de plantas, animais e outros seres vivos juntamente com partes não vivas do meio ambiente, tais como as rochas e as condições meteorológicas, as quais formam, em conjunto, um sistema em funcionamento

extinta Uma espécie sem nenhum sobrevivente vivo

gene Cada organismo vivo possui milhares de genes, os quais formam o ‘código da vida’. Cada um deles determina uma certa característica. Por exemplo, possuímos genes que determinam a nossa altura, o formato dos nossos pés, a nossa capacidade de combater as doenças, etc

material genético As características de cada organismo vivo são controladas por seqüências de genes encontradas em cada uma das suas células. Os cientistas estão começando a compreender rapidamente a estrutura exata destas seqüências de genes

modificação genética (MG) O processo de remoção, modificação ou acréscimo de genes a um organismo vivo realizado por cientistas

landraces Variedades locais de plantas cultivadas, que têm sido plantadas por muitas gerações

monocultura O cultivo de uma espécie de planta em vastas áreas de terra

patente Propriedade e proteção legal de uma nova invenção ou processo, que permite que os cientistas e inventores se beneficiem com o seu trabalho e as suas pesquisas

Conteúdo com tags semelhantes

Compartilhar este recurso

Equipar pessoas que trabalham ao redor do mundo para erradicar a pobreza e a injustiça