Da: Alfabetização – Passo a Passo 62

Artigos práticos sobre como apoiar a alfabetização de crianças e adultos

Tim Curtis.

O povo Énxet (ou Lengua), do Paraguai, é um povo indígena de caçadores-coletores, com 6.000 pessoas. Alguns deles ainda praticam a caça e a coleta, apesar da perda da maior parte das suas terras nos anos 30, quando a região do Chaco foi aberta para a derrubada de árvores e o cultivo.

Os missionários estabeleceram uma escola em Makxawáya mais de 100 anos atrás e começaram a trabalhar na tradução da Bíblia para a língua Énxet. A sua primeira tradução do Evangelho e dos Atos, juntamente com um livro de hinos, foi publicada em 1911. Foram elaboradas cartilhas de alfabetização para o povo Énxet, e um pequeno grupo se alfabetizou. Algumas pessoas deste primeiro grupo tornaram-se líderes de igrejas e compartilharam a mensagem cristã. O trabalho na tradução da Bíblia ainda continua. Em 1997, foi produzida uma versão revisada do Novo Testamento, e o trabalho de tradução do Antigo Testamento para a língua Énxet começou em 2003.

Durante a primeira parte do século XX, os povos indígenas eram quase totalmente marginalizados. O incentivo trazido pela mensagem cristã e o surgimento de um pequeno, mas significante grupo de líderes alfabetizados, foi muito importante. O povo Énxet sentiu que era importante – e o sentimento continua.

Hoje, a maioria das pessoas alfabetizadas do povo Énxet ainda estão ligadas à igreja. Entretanto, os níveis de alfabetização continuam baixos, devido à situação complicada relativa à língua no Chaco. O guarani é mais comumente falado que o espanhol nessa parte do Paraguai. Porém, as coisas estão mudando. Muitos jovens agora usam o espanhol, o qual poderá, um dia, substituir o guarani como a segunda língua de muitos dos falantes do Énxet. Está havendo uma melhora lenta nas escolas primárias governamentais, como resultado de uma grande reforma no sistema educacional do país. Sempre que possível, as crianças indígenas escolares agora aprendem a ler e escrever na sua língua materna, antes de passarem para o espanhol.

Outros fatores incentivaram o aumento da alfabetização. Há muitas ONGs no Chaco. Estas organizações estão envolvidas em questões de direitos da terra, projetos agrícolas em pequena escala e programas de saúde comunitária. Há também ministérios governamentais, assim como organizações políticas, diferentes grupos religiosos e antropologistas. A presença de todas estas organizações ajuda os grupos indígenas a acreditarem que são realmente importantes como povo. Estes recém-chegados oferecem um grande incentivo para a aprendizagem do espanhol e a alfabetização nesta língua. As pessoas que são alfabetizadas têm condições de se relacionarem mais com estas diferentes organizações. Elas são mais capazes para participar de conferências nacionais e internacionais que dizem respeito a “questões indígenas” e avaliar os motivos mistos e freqüentemente conflitantes destes numerosos grupos.

Saber ler e escrever permite que o pequeno grupo de falantes do Énxet participe de forma mais plena e com confiança cada vez maior nas decisões que afetam as suas vidas e a do seu povo. Fazendo isto, eles estão começando a se integrar na sociedade paraguaia – sem perder a sua identidade como povo.

Tim Curtis fez curso em línguas modernas e lingüística. Ele trabalha no Paraguai, com a Iglesia Anglicana Paraguaia, há mais de 20 anos, apoiando programas educacionais entre os povos indígenas e liderando a equipe de tradução da Bíblia. E-mail: jellison@pla.net.py

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