Foto: Esther Harder

Da: Passo a Passo 75

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Mumosho é um povoado rural a 22km do povoado de Bukavu, no leste da República Democrática do Congo. Durante as últimas eleições legislativas e presidenciais da República Democrática do Congo, fui uma das testemunhas independentes de um posto eleitoral em Mumosho, na seção eleitoral de Kabare.

Após a apuração, observou-se que várias cédulas eleitorais estavam nulas e inválidas. Isto ocorreu de três maneiras diferentes:

Por esses motivos, um grande número de cédulas não puderam ser contadas. Isso chamou nossa atenção e nos incentivou a descobrirmos os motivos por trás destes problemas. Acreditamos que a principal causa foi o alto índice de analfabetismo entre os eleitores de Mumosho.

Queríamos entender e analisar as dificuldades enfrentadas pelos eleitores, ver se elas estavam ligadas à educação e descobrir maneiras de melhorar a situação para a próxima eleição. Para isso, fizemos uma pesquisa em Mumosho. A pesquisa foi feita no período de 30 de julho de 2006 a 18 de março de 2007 e concentrou-se em pessoas que haviam participado das eleições legislativas e presidenciais. Selecionamos ao acaso uma amostra de 180 pessoas de idades variadas, entre 18 e 60 anos. Usamos entrevistas, questionários e observação direta.

Níveis de instrução

Descobrimos que a maioria das pessoas entrevistadas tinha um baixo nível de instrução formal. Isto era mais perceptível entre as mulheres do que entre os homens. Nenhuma mulher havia alcançado um nível de instrução mais alto. Isto pode ser explicado pelo fato de que, na região rural de Kabare, as mulheres são tradicionalmente as pessoas mais marginalizadas. Elas não têm muito acesso a informações e têm poucas oportunidades de desenvolver habilidades. Sua participação na tomada de decisões é mínima, tanto em casa quanto na comunidade.

Método de preenchimento das cédulas eleitorais

As pessoas preenchiam as cédulas eleitorais a caneta ou com uma impressão digital. Os resultados da nossa pesquisa mostraram que 27,7% das pessoas admitiram terem colocado cédulas em branco na urna. Quando fomos testemunhas independentes no posto eleitoral no momento da apuração, notamos que a maioria das cédulas inválidas era das pessoas que haviam colocado a impressão digital em lugares errados. O próprio fato de um eleitor preencher a cédula com uma impressão digital já sugere que ele não sabe escrever e, conseqüentemente, também não sabe ler. Não há motivo para se acreditar que este é o mesmo tipo de eleitor que colocou cédulas com várias marcas ou sem nenhuma marca na urna.

Com base nestes fatos, confirmamos que havia uma conexão direta entre o número de cédulas inválidas e o número de eleitores não alfabetizados.

Conclusão

Com base na nossa pesquisa, ficou claro que os eleitores do povoado de Mumosho enfrentaram dois problemas principais durante a eleição. Primeiro, a grande maioria não sabia ler ou escrever e, portanto, teve dificuldade em preencher devidamente a cédula eleitoral. Em segundo lugar, os eleitores não tinham nenhuma experiência em eleições livres, democráticas e transparentes devido ao regime ditatorial que durou mais de 30 anos no país.

Recomendações

Foto: Laura Webster, Tearfund

Foto: Laura Webster, Tearfund

Como podemos superar o problema do analfabetismo no povoado de Mumosho e mitigar seu impacto negativo nas próximas eleições? Tentamos encontrar uma solução simples para este problema através da criação de até quatro centros de alfabetização para mulheres e meninas adolescentes em Mumosho. Nossa pesquisa mostrou que a maioria das pessoas não alfabetizadas em Mumosho é formada por mulheres. Entretanto, há um ditado que diz “educar as mulheres é educar a nação inteira”. O objetivo deste projeto é diminuir o índice de analfabetismo entre as mulheres e as meninas adolescentes de Mumosho antes da organização das próximas eleições legislativas e presidenciais em 2011.

A alfabetização é a base do desenvolvimento. Se os habitantes das regiões rurais tiverem a oportunidade de ler, escrever e fazer cálculos, eles poderão assumir o controle do seu próprio desenvolvimento.

 

Ladislas Burume Bihagarhizi,  BP 1223,  Bukavu,  República Democrática do Congo via Cyangugu, Ruanda.

E-mail: burladislav@yahoo.fr 

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