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Da: Medicamentos tradicionais – Passo a Passo 48

Uma discussão sobre como usar os medicamentos tradicionais com segurança e eficácia

Dr Hans-Martin Hirt e Dr Keith Lindsey.

Quando os europeus chegaram pela primeira vez à África, à Ásia e às Américas e testemunharam práticas como o sacrifício ritual e a idolatria dos ancestrais, eles logo as rotularam como primitivas, introduzindo, ao invés delas, os costumes, a cultura e a religião européia. Entretanto, agora, reconhecemos que há muito a ser aprendido com estas culturas tradicionais. Ao rejeitarem-se algumas práticas perigosas, muitas outras práticas benéficas foram ignoradas.

Uma situação desesperadora

Hoje, as empresas químicas e farmacêuticas estão correndo para patentear a produção de medicamentos feitos com plantas tropicais, tais como o nim, o karitê, a pervinca e muitas outras plantas. As propriedades terapêuticas de muitas destas plantas foram agora provadas por pesquisas científicas recentes. Porém, elas têm sido usadas em receitas tradicionais por muitos séculos.

A situação em muitos países tropicais agora está bastante desesperadora. O preço cada vez mais alto dos remédios médicos, as leis de patenteação modernas e a queda no valor das moedas locais fazem com que os centros médicos não tenham condições, às vezes, para comprar os remédios mais básicos. Ao mesmo tempo, o conhecimento e as habilidades locais em termos de remédios feitos com ervas estão-se perdendo rapidamente. Muitas comunidades estão sendo deixadas sem nenhum conhecimento especializado na área da saúde.

A cooperação entre todas as partes envolvidas na provisão de atendimento à saúde – tanto os curandeiros tradicionais quanto os funcionários médicos – é, portanto, extremamente importante para o bem-estar das pessoas locais.

Reunindo-se

A Anamed é uma pequena iniciativa cristã na Alemanha. Eles possuem uma experiência considerável na realização de seminários sobre a “medicina natural”. Estes seminários geralmente duram uma semana, com aproximadamente 30 pessoas, sendo que algumas são treinadas na prática médica moderna, tais como médicos, enfermeiros e sanitaristas básicos, e outras são curandeiros tradicionais.

A Anamed descreve a medicina natural como a combinação das vantagens da medicina do Sul com as da medicina do Norte.

A boa medicina tradicional com base nas ervas é acessível, utiliza plantas disponíveis no local, é relativamente barata (podendo, às vezes, ser paga com galinhas, ao invés de dinheiro) e é muito pessoal. A medicina moderna, por outro lado, enfatiza a importância da limpeza e da higiene e as medidas e a posologia precisas. Assim, cada uma delas tem muito a ganhar com a outra!

Hoje, ainda há freqüentemente suspeita e desconfiança entre os curandeiros tradicionais e os funcionários dos hospitais. Compreendemos os dois lados. Do ponto de vista dos médicos e dos missionários, os curandeiros incutem medo, amaldiçoam as pessoas, fazem coisas ridículas como “retirar dentes falsos” ou causam mutilações terríveis, o que, muitas vezes, mata pessoas. Do ponto de vista do curandeiro, por outro lado, os médicos exploram os seus pacientes, não compreendem as crenças e os comportamentos culturais e não revelam o seu conhecimento sobre como prevenir doenças. Muitos curandeiros acreditam que os médicos não tentam proporcionar a boa saúde à região, mas, ao contrário, procuram ganhar muito dinheiro tratando um grande número de “seus” antigos pacientes.

Respeito mútuo

Durante os seminários, o primeiro passo importante é organizar para que os curandeiros e os médicos comam as mesmas refeições juntos e durmam nas mesmas casas! O segundo passo é fazer com que o respeito mútuo cresça, permitindo que eles reconheçam que cada um tem êxitos assim como fracassos em seus tratamentos. O terceiro passo é começar a compartilhar parte do seu conhecimento uns com os outros.

No último dia dos nossos seminários, discutimos como organizar para que haja cooperação no futuro. Os funcionários médicos elegem uma pessoa para ser o seu representante, e os curandeiros fazem o mesmo. Estes dois representantes encontram-se todos os meses, ou com mais freqüência, quando há problemas. Eles servem de canal de comunicação entre os grupos. Aqui estão exemplos de situações que podem muito bem ocorrer:

  • Na ronda da manhã, o médico descobre que um paciente com câncer (cancro) recebeu cortes profundos que causaram sangramento e infecção durante a noite, por parte de um curandeiro que entrou furtivamente no hospital! Como resultado, o médico chama o representante médico, que fala com o representante dos curandeiros. Desta forma, evita-se que o problema se repita.
  • Um paciente diabético não tem dinheiro para comprar insulina e procura ajuda no hospital. Trabalhando-se através dos representantes, encontra-se um curandeiro conhecido por seu êxito no tratamento do diabetes. O hospital oferece as suas instalações laboratoriais para que o curandeiro examine gratuitamente o sucesso ou o fracasso do seu tratamento com ervas!

Muitas igrejas acusam os curandeiros de praticar bruxaria. Nos nossos seminários, sempre passamos tempo suficiente discutindo esta questão muito importante. Entretanto, é certo que, se um curandeiro tiver acesso a todas as plantas de que precisa, a tentação de usar bruxaria será muito menor. Criar uma horta medicinal para suprir o fornecimento constante de ervas é essencial.

Os benefícios dos seminários

Vimos que reunir os curandeiros tradicionais e os médicos tem os seguintes resultados positivos:

  • A população em geral fica melhor informada, pois os comitês dos departamentos de saúde locais escolhem representantes para assistirem aos seminários, os quais informam as pessoas. As pessoas ficam melhor protegidas contra práticas ruins e perigosas. Por exemplo, uma das fontes de infecção de HIV/AIDS (SIDA) e hepatite B na República Democrática do Congo é através dos 40.000 curandeiros não treinados, que dão injeções com seringas não esterilizadas. Com treinamento, os curandeiros e as parteiras tradicionais podem oferecer um tratamento melhor sem propagar o HIV/AIDS (SIDA).
  • Os funcionários médicos aprendem o valor e os efeitos das plantas medicinais e começam a usá-las para tratamentos.
  • Os curandeiros tradicionais aprendem como usar doses precisas, preservar seus produtos de forma melhor e a importância da higiene.
  • As parteiras tradicionais não são mais forçadas a trabalhar ilegalmente e, depois de serem treinadas, oferecem um melhor atendimento à maternidade e ao bebê.
  • O meio ambiente melhora, pois o valor econômico das plantas nativas usadas medicinalmente aumenta e, assim, elas passam a ser protegidas.

Incentivando a boa prática

Incentivamos os “curandeiros tradicionais” a praticar a medicina natural. Isto significa que eles concordam em NUNCA:

  • darem injeções
  • fazerem tatuagens
  • fazerem cortes (na esperança de libertar a dor ou os maus espíritos)
  • retirarem os chamados “dentes falsos” das crianças (os dentes novos das crianças pequenas que sofrem má-nutrição aparecem nas gengivas. Algumas pessoas acreditam que o dente “velho” deve ser retirado.)
  • fazerem qualquer forma de cirurgia
  • usarem qualquer forma de bruxaria
  • fazerem abortos
  • usarem excremento
  • usarem enemas

Ao invés disso, nós os incentivamos a:

  • oferecerem cuidados preventivos à sua comunidade
  • educarem as pessoas quanto aos cuidados preventivos da saúde
  • usarem chás medicinais
  • usarem receitas seguras para produzir medicamentos como ungüentos e óleos
  • criarem uma horta de plantas medicinais e nutritivas
  • especializarem-se no tratamento de uma doença

Os funcionários médicos podem aumentar o raio de ação do seu trabalho consideravelmente, criando uma horta medicinal e preparando e usando medicamentos feitos com as plantas.

Aqui na Anamed, estamos convencidos de que a medicina natural combina as vantagens de ambos os sistemas. Nos países que valorizam o uso das ervas tradicionais, o Ministério da Saúde pode conseguir realizar muito mais, mesmo com verbas limitadas para a saúde.

O Dr Hans-Martin Hirt possui muitos anos de experiência nas regiões rurais da República Democrática do Congo. Ele e Keith Lindsey estão comprometidos a capacitar e auxiliar as pessoas em suas comunidades locais através da troca de conhecimentos. A Anamed convida os leitores da Passo a Passo a fazerem o mesmo.

Entre em contato com a Anamed, Schafweide 77, 71364 Winnenen, Alemanha. Fax: +49 7195 65367 E-mail: anamed@t-online.de Website: www.anamed.org

ATENÇÃO: A Anamed não pode identificar ou realizar a análise científica de plantas medicinais para os leitores da Passo a Passo. Eles também não podem oferecer literatura gratuita ou financiamento. 

Vantagens dos dois sistemas  

Medicina ocidental (moderna)

Medicina tradicional com ervas

Higiênica

Utiliza plantas disponíveis no local

Aceita cientifica e internacionalmente

Não há resíduos perigosos que precisem ser eliminados de maneira segura

O profissional médico teve muito treinamento e compreende o corpo e a doença

Não há problemas de câmbio para remédios caros ou atrasos na alfândega

É feito um exame médico completo, com testes laboratoriais

Geralmente, é barata para o paciente

Utiliza posologias precisas

Cria empregos na horta medicinal e no preparo dos medicamentos

Os medicamentos duram muito tempo

O dinheiro pago pelo tratamento permanece na economia local

As plantas são identificadas através dos seus nomes científicos

Incentiva a independência

O governo controla os padrões da prática da medicina

O curandeiro fala a mesma língua que as pessoas

Pode-se tratar um grande número de pacientes, por exemplo, durante epidemias

Às vezes, é o único auxílio médico disponível

ESTUDO DE CASO - Uma mudança de opinião

Um bispo metodista na República Democrática do Congo costumava proibir os hospitais na sua diocese de usar plantas medicinais. Muitos enfermeiros queriam usar estas plantas, pois eles estavam familiarizados com o seu uso, mas o bispo tinha medo de bruxaria e estava decidido a usar somente a medicina ocidental moderna na sua diocese. Quando o conhecemos pessoalmente, demos a ele o cartaz da Anamed das 60 plantas medicinais que crescem no seu país e o livro Natural Medicine in the Tropics, o qual descreve como preparar e usar medicamentos feitos com estas plantas. Ele imediatamente perguntou se podia tratar as suas próprias doenças usando as receitas do livro. Lembramos a ele que isso era contrário às suas próprias crenças, mas ele disse que materiais tão bem produzidos e coloridos certamente não eram tradicionais, mas, sim, modernos e científicos e, portanto, totalmente aceitáveis!

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