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Da: Treinamento – Passo a Passo 22

Diferentes abordagens de treinamento e facilitação

Quando os Drs Rajanikant e Mabelle Arole se formaram em medicina, ambos se preocuparam com o atendimento médico da população rural da Índia. Foram por isso trabalhar em um hospital na zona rural. Após cinco anos eles perceberam que apesar de todo o seu trabalho árduo cuidando dos pacientes do hospital, a saúde geral da comunidade ao redor não melhorou. Eles compreenderam então a necessidade de serem treinados em saúde pública e retornaram para a universidade para complementar seus estudos.

Em 1970 eles começaram a trabalhar na comunidade de Jamkhed, no Estado de Maharastra, Índia. Jamkhed foi oficialmente classificada como ‘retrógrada’. Havia uma necessidade tremenda de atendimento médico. A economia é baseada na agricultura, com mulheres representando 70% da mão de obra. Cerca de 60% da população é constituída por agricultores pobres e sem terra. O sistema de castas é muito forte na área e cerca de 20% da população são de ‘intocáveis’. Os médicos continuam a sua própria história…

Antes de começar qualquer trabalho médico, levamos 6–8 meses nos reunindo com as pessoas e fazendo contatos. Para se assegurar uma participação comunitária genuína, tempo suficiente deve ser gasto com a comunidade pois assim as pessoas são informadas e ficam esclarecidas sobre o que é necessário para melhorar a sua saúde.

Quando você passa um tempo com as pessoas, você percebe que eles estão muito mais preocupados com comida e água do que com a saúde. Em vez de começar a montar serviços médicos, primeiro ajudamos a melhorar o nível de agricultura e do fornecimento de água às pessoas. As pessoas querem garantir sua subsistência. A participação da comunidade só pode ser garantida quando as pessoas estão organizadas em volta de algo que é vital para elas. Nós não podíamos ter organizado as pessoas com base na saúde. Nós não podíamos ter pedido às pessoas para virem, dizendo ‘Vamos bater um papo sobre como limpar seus dentes.’ Mas se você disser, ‘Veja, mais de um terço de seus filhos são malnutridos. Deixe-nos ensiná-los como melhorar o nível de sua agricultura’, elas vão querer vir.

A verdadeira causa das doenças é a pobreza e a falta de recursos para garantir um sustento. 

Avaliando a situação

Fizemos pesquisas antes de começar serviços médicos. Descobrimos má nutrição entre crianças com menos de 5 anos e mulheres grávidas e a necessidade de planejamento familiar. Descobrimos certas doenças crônicas – tuberculose, lepra e cegueira, por exemplo. Estes eram portanto os problemas. Baseamos nossos cuidados de saúde curativa nestes resultados. Se você estiver cuidando de uma mulher grávida – que problemas ela pode ter? Ela pode perder sangue e por isto serviços de transfusão são necessários. Pode precisar de uma cesariana e assim se necessita de uma sala de operações simples e de alguém para aplicar a anestesia. Se apenas uma mulher entre as muitas sendo cuidadas pela equipe de saúde primária precisar de uma cesariana, mas não houver possibilidade de encaminhá-la a outro local, todo o programa de medicina pré-natal sofre.

Os cuidados de saúde primários serão bem sucedidos se você tiver um serviço adequado de cuidados secundários. O número de pacientes realmente encaminhados será pequeno mas as suas necessidades precisam ser atendidas ou todo o programa de saúde sofre.

Capacidades locais

No princípio dependíamos de enfermeiras para estabelecerem contato entre os habitantes das povoações e os serviços do projeto rural de saúde e para ajudar com mudanças sociais. Mas logo nos desapontamos. As enfermeiras não estavam contentes por viverem sozinhas em povoações remotas e assim existia uma barreira entre elas e os habitantes por causa da sua educação.

A primeira mudança importante em nosso pensamento aconteceu quando os habitantes das povoações sugeriram que treinássemos mulheres para serem promotoras de saúde. Naquela época acreditávamos que somente médicos deveriam estar tratando de doenças. No entanto, quando os habitantes das aldeias começaram a confiar em suas capacidades, eles perguntaram se podíamos ensiná-los e se tornaram muito experientes. A seguir os ensinamos sobre planejamento familiar e eles ficaram bem experientes nisto também. Foi aí então que toda a nossa idéia começou a mudar a respeito da capacidade dos moradores analfabetos das povoações. Mudamos nossa abordagem e começamos a treinar mulheres das aldeias como promotoras de saúde.

Mudanças sociais

O resultado tem sido um catalisador para mudanças sociais. A princípio, questões sociais como o status da mulher e o sistema de castas eram novas para nós. Nós deliberadamente escolhemos trabalhar com os necessitados, os de castas baixas e com mulheres. Nos certificamos, por exemplo, de que o programa ‘Alimento por Trabalho’ fosse organizado pelas pessoas necessitadas. Durante séculos, os ‘intocáveis’ nunca tiveram a oportunidade de participarem na tomada de decisões. Agora eles podem estar no comando de programas com cerca de 2.000 pessoas. Eles nunca tiveram antes tanto poder de decisão! A elite local não ficou muito contente. A única razão por termos sobrevivido foi porque éramos treinados como médicos e a elite sabia que eles perderiam bons médicos!

Saúde e o sistema de castas

Posicionar poços para fornecimento de água potável era outra situação interessante. Onde se deve posicionar o poço artesiano? As castas mais altas queriam os poços em sua área mas aí então as castas mais baixas estariam impossibilitadas de ir buscar a água. Pedimos então ao geologista que fosse ao redor de toda a aldeia fazendo testes mas que sempre se certificasse de que o poço fosse finalmente perfurado na área dos ‘intocáveis’! Durante vários meses construímos 140 poços. Foi só mais tarde que a casta alta percebeu o que tinha acontecido. Nós agora percebemos que mudanças sociais desempenham um papel importante na mudança do estado de saúde das pessoas.

A princípio, problemas de castas não permitiram a participação em treinamento na área de saúde. As mulheres da casta alta recusavam-se a se sentar com as mulheres da casta baixa. Fizemos então com que elas cozinhassem juntas. Elas também passaram a dormir no chão sobre um tapete grande, cobertas com um único cobertor. Nós perguntamos à elas ‘Nós não temos todos o mesmo tipo de sangue?’ ‘Nós não temos todos o mesmo coração?’ As mudanças vieram aos poucos.

Centro de treinamento de Jamkhed

A princípio fornecemos treinamento informal. Com o passar do tempo, fomos solicitados a fazer mais treinamento para outras organizações de saúde e para o governo. No ano passado montamos um centro internacional de treinamento em Cuidados Primários de Saúde. A maioria dos cursos de treinamento é teórica mas aqui damos treinamento prático envolvendo a comunidade. A metade de nosso tempo é gasto ensinando coisas técnicas mas a outra metade é gasta no desenvolvimento de valores. É aí que a mensagem cristã entra. Desenvolvimento sem motivação e valores corretos não faz sentido.

Os valores de Jamkhed são…

Amor – O amor é fundamental e é o amor que nos faz servir. Serviço é uma grande força social para mudar comunidades.

Humildade – Precisamos de humildade para aceitarmos e servirmos o desagradável, o pobre e o deprivado.

Esperança – na transformação de indivíduos e de comunidades, nos incentiva a perseverar em trabalhar com pessoas difíceis em situações difíceis.

– em Deus nos ajuda a compartilhar a bondade de Deus para com todos os seus filhos.

Todo o conceito de cuidados médicos comunitários não se trata de doar ‘coisas’ mas sim de mudar atitudes. O desenvolvimento da pessoa deve vir antes – saúde e agricultura vem depois. Outras organizações que tentam imitar o treinamento de Jamkhed frequentemente falham pois estas organizações em si próprias não possuem a correta atitude para com os pobres.

Detalhes dos cursos de treinamento

Os cursos em Jamkhed são feitos em três partes…

Durante os três primeiros meses, os alunos desenvolvem um Plano de Ação realista para ser realizado em sua própria área. Os professores dos cursos visitam todos os alunos pelo menos uma vez durante os seus seis meses de trabalho prático para avaliar como o Plano de Ação deles está se saindo. Durante a última semana, os participantes fazem uma apresentação sobre o seu trabalho.

Certificados são fornecidos após a conclusão do curso completo.

A proporção de tempo gasto estudando saúde e desenvolvimento é dividido uniformemente. O treinamento é participatório e centralizado no aluno. O trabalho em grupos é incentivado. Os participantes são incentivados a aplicarem a teoria na prática em todos os momentos. Visitas técnicas, contatos com promotores de saúde, estudos de caso, encenações e tempo para reflexão são todos importantes.

O curso está dividido em cinco módulos…

Saúde e Desenvolvimento Comunitário

Desenvolvimento de Habilidades – incluindo aconselhamento, comunicação, liderança, coordenação de grupos e administração do tempo

Administração – organização, formação de grupos, supevisão e avaliação

Sistemas de Informação – incluindo coleta e análise de dados

Finanças e Orçamentos – levantamento de fundos e preparação de propostas de projetos.

O nosso objetivo é o de produzir líderes que possibilitarão as comunidades a cuidarem de sua saúde por si próprios. E dado ênfase em habilitar pessoas a serem bons líderes e no desenvolvimento de atitudes corretas entre os alunos para possibilitar-lhes a ajudar as comunidades a efetuarem mudanças.

Com agradecimentos à Contact, publicada pela CMC – Churches Action for Health, à WCC pela permissão para incluir informações da sua edição de Maio 1993. Os Drs R e M Arole trabalham na CRHP, Jamkhed – 413201, District Ahmednagar, Índia.

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