Foto: Isabel Carter/Tearfund

Da: Habilidades em facilitação – Passo a Passo 60

Como facilitar a aprendizagem participativa de forma eficaz

Solomon Dibaba Leta.

Foto: Marcus Perkins/Tearfund

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Há vinte anos que trabalho com instituições governamentais e organizações não governamentais (ONGs). Alguns dos encontros de treinamento, reuniões e seminários a que compareci foram muito enfadonhos. Na verdade, a maioria dos participantes que compareceram a estes encontros o fizeram ou porque tinham de fazê-lo, ou para fugir da rotina do escritório. Algumas das pessoas que lideravam estes encontros gostavam de se escutarem a si próprias. Elas achavam que o seu dever era mostrar o quanto sabiam sobre o assunto. Lembro-me de observar os seus gestos e movimentos, ao invés de me concentrar no que estavam realmente dizendo. Muitas vezes, eu criticava a abordagem delas, ao invés de aprender sobre novas informações ou idéias. O que estava errado, e o que devia ser feito?

Muitos dos trabalhadores da área do desenvolvimento comunitário que conheci na zona rural da Etiópia acham que a facilitação é uma forma de transmitir idéias fixas, de maneira que os membros da comunidade comecem a pensar e a agir de maneira “apropriada”. Alguns até acham que a facilitação é uma forma de “ensinar” os membros da comunidade a aceitarem novas idéias sem questionar ou duvidar. No entanto, eu acredito que a facilitação é um processo que envolve três ações:

Confiança

A boa facilitação traz confiança para os grupos nas comunidades. Isto pode fazer com que as pessoas experimentem novas idéias, que elas geralmente não arriscariam em circunstâncias normais. Por exemplo, muitas pessoas na Etiópia estão cientes do HIV (VIH) e da AIDS/SIDA. No entanto, a mudança de comportamento que deveria ter resultado desta conscientização infelizmente não ocorreu. Isto deve-se, em parte, à falta de uma facilitação comunitária apropriada. O conhecimento sobre uma questão de desenvolvimento nem sempre resulta em ação. O conhecimento provavelmente só mudará o nosso comportamento, quando o nível certo de motivação for criado através de uma boa facilitação.

O desenvolvimento da motivação dos membros da comunidade é um processo gradual. Ele ocorre quando as próprias pessoas são as proprietárias das idéias e estão preparadas para agirem por elas. Muitos treinadores da área do desenvolvimento acreditam que as comunidades ignoram as novas idéias sobre o desenvolvimento e esperam que elas os escutem e obedeçam. Eles usam um sistema unilateral de transmissão de informações.

O senso de propriedade

Se empurrarmos idéias para as pessoas e esperarmos que elas ajam simplesmente porque estamos dizendo para que o façam, teremos poucos resultados. As pessoas dirão “esta bomba de água ou esta escola pertence a esta ou aquela ONG.” Não são delas: “pertencem” aos outros! Embora a bomba de água ou a escola tenham sido construídas para estas pessoas, elas não tomaram parte no processo e, assim, não têm o senso de propriedade.

Minha experiência pessoal no processo PILARES (Pelos Idiomas Locais: Associação em REcursoS) ajudou-me a ver alternativas para o desenvolvimento comunitário tradicional. Usamos um processo de facilitação comunitária na preparação de textos em línguas locais. Este processo foi usado na Etiópia, na região de Wolaitta, e num campo de refugiados sudaneses em Sherkole (Benishangul Gumuz) e mostrou ser uma abordagem muito mais sustentável. A formação de equipes, a abordagem participativa e a propriedade coletiva das atividades são essenciais para as técnicas de facilitação usadas. Há bastante flexibilidade dentro do processo para atender as necessidades específicas de cada situação. No campo de refugiados de Sherkole, este processo resultou na confiança coletiva e num senso de propriedade das atividades. Isto, por sua vez, ajudou-os a pensar sobre como sustentar suas atividades sem depender de financiamento externo.

Orgulho da cultura e da língua

O processo de facilitação dos encontros de treinamento PILARES foi criado para empoderar os participantes e equipá-los com habilidades básicas na preparação de materiais informativos na sua própria língua. Ele também permite que os participantes repitam o processo, de maneira que o conhecimento adquirido seja ligado à transformação comunitária. Esta abordagem incentiva o orgulho da cultura e da língua das pessoas.

O início do processo é difícil, muitas vezes, tanto para os facilitadores quanto para os participantes. Os participantes de Sherkole eram refugiados que nunca tinham participado antes da produção de informações sobre desenvolvimento em sua própria língua, mabban. O facilitador foi mobilizado para trabalhar com um grupo de pessoas que ele nunca havia visto antes. Depois do primeiro dia de atividades, os participantes adquiriram confiança – primeiro em sua própria equipe e, depois, em si próprios. As atividades e o processo de formação de equipes ajudou-os a alcançar coisas que eles nunca teriam feito sozinhos. A tomada de decisões coletiva e o uso regular de energizadores tornou todas as sessões interessantes e agradáveis. O espírito de equipe criado entre os participantes em Sherkole ajudou-os a criar uma visão conjunta e metas estratégicas para a sua região do Sudão.

Realização inesperada

Eles agora aprenderam as habilidades para elaborar textos sobre desenvolvimento na sua própria língua. O mais importante é que eles agora são proprietários deste processo. Eles não precisam mais de esperar para que o governo ou as ONGs lhes forneçam informações de fora. Estes refugiados sudaneses de Sherkole, que falam a língua mabban, criaram seus próprios comitês lingüísticos nas suas comunidades, de maneira que podem imprimir e distribuir as informações sobre desenvolvimento de que precisam. Eles são capazes não apenas de sustentar o processo, mas também de repeti-lo. Os refugiados mabban realizaram algo inesperadamente, que não é nada mais, nada menos que um milagre. Este foi o resultado de um processo de facilitação participativa, em que todos desempenharam um papel.

Dons do conhecimento

Esta abordagem participativa na facilitação comunitária usada em Sherkole e Wolaitta criou confiança, autoconsciência e comprometimento entre os membros da comunidade. As pessoas em Wolaitta viram que podem ter orgulho da sua língua e elas próprias produzem o tipo de informações necessárias em sua região. Os refugiados mabban possuem novos dons de conhecimento para o seu povo na região sudanesa do Nilo Azul.

Inicialmente houve uma certa dúvida quanto à viabilidade de se usar o processo PILARES com refugiados. No entanto, este processo de facilitação baseado na participação, na formação de equipes e em atividades cuidadosamente planeadas certamente teve êxito.

Solomon Dibaba Leta estudou jornalismo. Ele trabalha com a World Vision há muitos anos na Etiópia, treinando funcionários em habilidades em comunicação e ajudando a determinar sua estratégia de comunicações. Ele tem atuado como consultor PILARES para a Tearfund desde março de 2003. Seu endereço é: PO Box 27275, Addis Ababa, Etiópia. E-mail: sdlo@telecom.net.et 

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