Da: Alfabetização – Passo a Passo 62

Artigos práticos sobre como apoiar a alfabetização de crianças e adultos

Noé Ngueffo.

Foto: Richard Hanson/Tearfund

Foto: Richard Hanson/Tearfund

Camarões possui duas línguas oficiais – francês e inglês – e cerca de 250 línguas locais. Com uma população de 15 milhões de pessoas, Camarões possui um índice oficial de alfabetismo de 63%. Várias comunidades formaram os seus próprios comitês lingüísticos, para ajudar as pessoas a aprenderem a ler e escrever.

Até agora, 77 comunidades de Camarões fundaram comitês lingüísticos, os quais são organizados e administrados pela comunidade. Estes comitês locais reuniram-se para formar a Associação Nacional de Comitês de Línguas Camaronesas (NACALCO – National Association of Cameroonian Language Committees), a qual coordena o seu trabalho e oferece treinamento.

Actividades dos comitês lingüísticos

A principal meta do comitê é ensinar as pessoas a ler e escrever, primeiro na sua língua materna e, depois, na língua oficial, e também ensiná-las a usar estas habilidades para o desenvolvimento comunitário. Todos que falam a língua local são incentivados a participar do seu comitê lingüístico local, seja qual for a sua religião, a sua idade, o seu sexo ou o seu status social.

O trabalho é coordenado por uma equipe, formada por representantes de todos os vários dialetos, se possível. Esta equipe geralmente se encontra duas vezes por ano, para planear actividades e a acção, informar sobre o progresso e discutir quaisquer outras questões. Há um empenho especial em incentivar as mulheres a assumirem funções de liderança dentro de cada comitê. O seu envolvimento motiva outras mulheres e meninas a se registrarem nos centros de alfabetização e deverá melhorar os níveis baixos de alfabetização atuais entre elas.

O treinamento dos membros é uma função fundamental para cada comitê. Os membros compreendem a importância de oferecer parte do seu tempo para o programa de alfabetização da sua comunidade. Isto pode consistir em ensinar a alfabetização, ajudar a produzir manuais de alfabetização e materiais de pós-alfabetização, oferecer supervisão e acompanhamento para ajudar os professores alfabetizadores, ou conscientizar as pessoas sobre a importância da alfabetização.

Treinamento dos treinadores

O treinamento de treinadores para a alfabetização é uma das prioridades dos comitês lingüísticos, para que possam assegurar o êxito e a sustentabilidade do seu trabalho. Os funcionários da NACALCO, em parceria com a SIL Camarões, oferecem o treinamento inicial. Mais tarde, cada comitê seleciona membros para receber mais treinamento em vários aspectos do trabalho. Todo o treinamento é transmitido a outras pessoas da comunidade. Este sistema aumenta rapidamente o número de pessoas que trabalham na alfabetização. Grande parte do trabalho é feito voluntariamente, e o tempo das pessoas é limitado. Quanto mais pessoas são treinadas, mais se pode compartilhar o trabalho.

A maioria destes voluntários ganha a vida através da agricultura, da carpintaria e do artesanato. Muitos possuem pouca instrução formal. Eles envolvem-se, porque querem ajudar a desenvolver a sua língua materna e transmiti-la para os filhos. Um voluntário disse recentemente “Interessome muito pelo desenvolvimento da minha língua materna, porque não quero morrer culturalmente”.

Nos cursos de treinamento, mostra-se aos voluntários como ensinar a alfabetização de uma forma participatória, a qual envolve os alunos no processo. Eles adquirem práctica no ensino e preparam textos na sua língua materna para usar como material nas aulas de alfabetização.

Financiamento para os comitês lingüísticos

A NACALCO promove as contribuições locais – dinheiro arrecadado de indivíduos, prefeituras locais e organizações – como a fonte mais segura e sustentável de financiamento para as actividades dos comitês lingüísticos. Quando é realizado um curso de treinamento, algumas famílias oferecem alojamento para os treinadores e os alunos de outros povoados. Outras pessoas contribuem oferecendo ou preparando a comida. De acordo com um provérbio africano, “Uma pessoa pode ser pobre, mas uma comunidade nunca é pobre”. Isto significa que, dando-se as mãos, as pessoas pobres podem conseguir muita coisa.

Pode ser difícil priorizar a alfabetização, quando as pessoas enfrentam problemas mais urgentes, como a fome e a saúde precária. No entanto, os comitês lingüísticos contribuem com a luta pelo desenvolvimento sustentável em Camarões promovendo a alfabetização e incentivando a auto-confiança.

Noé Ngueffo é um lingüista, que trabalha com o Ministério da Pesquisa Científica e Técnica. Ele é o Coordenador da NACALCO, BP 8110, Yaoundé, Camarões. E-mail: noengueffo@yahoo.com

Usando provérbios para conscientizar

O Comitê da Língua Yemba tem uma forma útil de conscientizar as pessoas e incentivar a alfabetização na língua materna. Eles colocam um quadro na praça do povoado e escrevem um provérbio na língua materna, o qual é sempre mudado depois de algumas semanas. Sempre que há uma pequena multidão (quase sempre nos dias de feira), uma pessoa do comitê lingüístico lê o provérbio em voz alta e pergunta se alguém pode ajudar os jovens a compreenderem o seu significado. Isto dá aos mais idosos a oportunidade de mostrar o seu conhecimento na sua língua e na sua cultura. O membro do comitê explica que conhecimentos como esse são úteis para as gerações mais jovens, mas não são compartilhados, porque não são escritos. Se eles freqüentarem um centro de alfabetização, poderão escrever todos estes conhecimentos e transmiti-los para os filhos e netos. O voluntário, então, explica-lhes onde encontrar os centros de alfabetização e como entrar para o comitê lingüístico e distribui os programas das aulas.

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