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Da: Alfabetização – Passo a Passo 62

Artigos práticos sobre como apoiar a alfabetização de crianças e adultos

Clinton Robinson.

Foto: Richard Hanson/Tearfund

Foto: Richard Hanson/Tearfund

As pessoas, muitas vezes, dizem que a alfabetização é fundamental para o desenvolvimento, mas o que isto realmente quer dizer? Quer dizer que as pessoas que sabem ler e escrever estão numa posição melhor para melhorarem as suas vidas? Ou que, uma vez que a comunidade estiver lendo e escrevendo como se fosse algo de praxe, o desenvolvimento poderá começar? Ou significa que a vida é simplesmente melhor quando lemos livros e escrevemos cartas? A alfabetização é uma questão complicada, que está associada a muitos aspectos diferentes da vida. Além disso, as opiniões sobre o que a alfabetização significa mudaram nos últimos anos.

Foco no “ABC”

Muitas pessoas ainda acham que a alfabetização é simplesmente saber o alfabeto e ser capaz de ler palavras num pedaço de papel. Esta era uma visão comum uns 50 anos atrás, quando o objetivo das escolas e das aulas de alfabetização adulta era fazer com que as pessoas aprendessem as letras e soubessem escrevê-las direito. Não importava muito o que havia para ler ou que tipo de coisa as pessoas escreviam. É claro que a alfabetização consiste em saber o que as palavras dizem, mas ela também consiste em muito mais do que isto.

Foco nos alunos

Mais recentemente, a alfabetização passou a ser vista como empoderadora. Ela oferece aos alunos e às suas comunidades a chance de fazer algo de positivo nas suas próprias vidas e assumir o controle do seu próprio desenvolvimento. Esta abordagem começa com a situação dos próprios alunos. Ela examina a melhor maneira de a alfabetização se enquadrar no que eles já sabem, na forma como a sua sociedade funciona e na forma como eles podem aumentar a sua voz política. Paulo Freire, o educador brasileiro, é muito conhecido por basear a alfabetização no conhecimento e nas circunstâncias dos alunos, de maneira que eles possam trazer mudança para a sua comunidade. A alfabetização pode ser considerada como uma condição para a democracia e a participação política. Assim como as pessoas e as comunidades são diferentes, os usos da alfabetização também são. Nos últimos anos, os educadores começaram a falar sobre “alfabetizações” no plural, por causa dos vários contextos, propósitos e línguas diferentes em que a alfabetização pode ser usada.

Foco nos meios de vida

Esta visão empoderadora da alfabetização é ampliada ainda mais, vinculando-se a alfabetização aos meios de vida – de que forma a alfabetização poderá servir melhor as pessoas, a fim de proporcionar-lhes um meio de vida? Isto vem da abordagem para o desenvolvimento baseada na diminuição da pobreza. O alvo é capacitar as pessoas para que tenham novas oportunidades produtivas através da alfabetização: rendas maiores, empregos, novas habilidades e o desenvolvimento de empresas.

Oferecendo oportunidades

O que estas diferentes visões significam para as pessoas, cujo trabalho é ajudar os outros a se alfabetizarem? As visões em desenvolvimento sobre a alfabetização enfatizam o que realmente importa: motivação para aprender e a oportunidade para usar o que é aprendido. Estas estão intimamente ligadas. Sempre que a alfabetização oferece novas oportunidades, as pessoas querem se alfabetizar. Há três fatores muito importantes ao se oferecerem oportunidades relevantes para que as pessoas aprendam a ler e escrever:

Onde a aprendizagem da alfabetização ocorre Ao invés de organizar aulas de alfabetização, é melhor ligar a alfabetização a outras habilidades que as pessoas queiram aprender. Assim, a alfabetização poderia ser combinada com a aprendizagem da gestão de microcréditos, com a educação sobre a saúde reprodutiva ou com a prevenção do HIV/VIH e da AIDS/SIDA. Desta maneira, os grupos de mulheres do norte de Gana tiveram êxito no uso da alfabetização como uma boa ferramenta para a aprendizagem de conhecimentos essenciais sobre o desenvolvimento comunitário.

Como a aprendizagem da alfabetização ocorre Nós, adultos, aprendemos melhor quando podemos associar os novos conhecimentos a coisas que já sabemos. O método de alfabetização Reflect faz isto, pedindo aos alunos para que falem sobre a sua região, a sua saúde, o seu ciclo agrícola anual ou a tomada de decisão no seu povoado – coisas sobre as quais eles já sabem muito. Juntos, eles criam gráficos e textos, para terem os seus conhecimentos por escrito. O facilitador orienta e sugere, mas são os alunos que controlam o processo. Eles determinam tanto o ritmo da aprendizagem quanto o conteúdo. O método Reflect também estimula a discussão sobre como a vida poderia ou deveria mudar e o que as próprias pessoas podem fazer quanto a isto. O método Reflect agora é amplamente usado na aprendizagem da alfabetização e na mobilização comunitária por todo o mundo.

Para que as pessoas usam a alfabetização Antigamente, as pessoas se alfabetizavam, simplesmentes porque parecia ser uma boa coisa para se fazer. As pessoas precisam de oportunidades reais para usar a alfabetização. Há coisas úteis e interessantes para se ler? Há possibilidades para se escrever e publicar em âmbito local e nacional? Estas são perguntas fundamentais a serem feitas, antes de se começar a organizar a alfabetização. As crianças e os adultos podem perder a sua alfabetização, se tiverem poucas oportunidades de usá-la. Este problema causa uma grande preocupação, quando a alfabetização numa língua minoritária está se desenvolvendo pela primeira vez.

A igreja, muitas vezes, apóia a alfabetização, para ajudar as pessoas a lerem as escrituras por si próprias. Os programas de alfabetização devem também fazer planos, para ajudar os autores locais a produzir materiais impressos que as pessoas queiram ler. Assim como informações úteis sobre a saúde e o desenvolvimento, estes também devem trazer histórias interessantes e engraçadas e notícias sobre futebol, a sociedade local e o que está acontecendo no mundo.

Línguas e tipos de escrita

Um dos aspectos das muitas “alfabetizações” do mundo é a variedade de línguas e tipos de escrita que as pessoas usam. Na maior parte do mundo, as pessoas precisam se alfabetizar em mais de uma língua, começando com a sua própria língua local ou língua materna. Depois, elas acrescentam outras línguas de que talvez precisem, tais como o hindi e o inglês na Índia, ou o lingala e o francês no Congo. Na maior parte da Ásia, isto consiste em aprender diferentes tipos de escrita ou sistemas de escrita. Na China, algumas minorias aprendem a sua própria língua com a escrita romana e, depois, acrescentam o mandarim com a escrita chinesa. Da mesma forma, na Etiópia, as línguas locais são freqüentemente usadas com a escrita romana, mas o amárico, uma língua muito difundida, é usada com a escrita etíope. Estes tipos de escrita são muito diferentes (veja o quadro abaixo).

No nosso mundo globalizado, as pessoas terão uma necessidade cada vez maior de serem alfabetizadas tanto em línguas diferentes quanto em escritas diferentes.

Hoje nós sabemos que a alfabetização é muito mais complexa do que se pensava. Ela é mais necessária do que nunca: as vidas de todos são afetadas por decisões tomadas pelas pessoas alfabetizadas. A alfabetização pode conferir, a algumas pessoas, poder sobre os outros. A alfabetização permite que as pessoas participem de forma mais plena na sociedade, tenham influência e façam com que as suas vozes sejam ouvidas. Os computadores podem ser uma parte essencial da tomada de decisões, e saber como se comunicar usando textos escritos proporciona acesso a estas novas tecnologias.

A alfabetização não é a solução para todos os tipos de desenvolvimento, nem solucionará todos os problemas diários locais. No entanto, ela é um direito que deveria estar à disposição de todos, para que possam se expressar livremente através da escrita e examinar de forma crítica os textos que as pessoas no poder produzem. A alfabetização, quando feita de forma relevante, é hoje, mais do que nunca, um meio de empoderamento.

O Dr. Clinton Robinson trabalha como consultor independente, com enfoque na educação e no desenvolvimento. Seus interesses especiais são a aprendizagem adulta e não formal, a alfabetização e o desenvolvimento social. Seu endereço é 38 Middlebrook Road, High Wycombe, HP13 5NJ, Reino Unido. E-mail: CDWRobinson@aol.com

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